Capítulo 03 : Olho no Tempo

1377 Palavras
Ariane O baile seguia, mas não era mais baile. Era campo minado com luz colorida. O grave batia no peito de todo mundo, a galera ainda tentava sorrir, dançar, se agarrar na normalidade como quem segura uma porta com a unha, só que eu sentia a tensão passando de corpo em corpo. O tipo de tensão que não grita, mas avisa. Aquela que faz o suor nascer frio. Eu terminei minha sequência e desci do palco com o microfone ainda quente na mão. O DJ soltou outra track pra segurar a energia, e eu fui direto pro lado, onde minha equipe ficava. Minha garganta queria água, mas meu instinto queria respostas. — Você viu? — a Lê, minha produtora, perguntou, puxando meu braço. Os olhos dela estavam enormes. — Tá rolando coisa lá embaixo. — Eu vi — respondi, seca, sem tempo pra acalmar ninguém porque eu mesma tava com a pele em alerta. — Onde tá o Jota? Jota era segurança do baile, cria de confiança, o tipo que não deixa o caos virar espetáculo. Se ele tava com aquela cara, era porque o problema já tinha passado do limite do “só boato”. Ele apareceu do outro lado, abrindo caminho entre duas caixas de som, e veio rápido até mim. — Ari, sai daqui um pouco. Só por garantia. — Garantia de quê? Ele hesitou um segundo. Só um. Mas eu peguei. — Tem uns caras que não são daqui. E tem um engravatado perguntando por gente… do jeito errado. Engravatado. Eu virei o rosto devagar, como quem só tá olhando o movimento, e meus olhos encontraram a figura que tinha me incomodado lá de cima. Agora ele tava mais perto, cortando o espaço com calma demais pra quem tá num lugar que não conhece. O terno não era terno completo, camisa escura, caimento perfeito, pano caro, sem amassar. Relógio no pulso que eu reconheci sem nunca ter comprado um. Eu não sabia a marca, mas eu sabia o preço: o tipo de preço que dá pra pagar uma vida inteira de aluguel atrasado. E o pior nem era o que ele vestia. Era como ele olhava. Não era olhar perdido de turista. Também não era olhar arrogante de playboy querendo se sentir “radical”. Era olhar de quem mede o ambiente como se fosse planilha. Como se cada pessoa ali fosse número, variável, risco. Problema. Problema com nome e relógio caro. Eu senti a raiva subir antes de eu decidir sentir. Porque eu detesto gente que acha que pode entrar no morro como se estivesse entrando num evento privado. Como se nossa vida fosse uma atração. E eu fui. Sem pedir. Sem respirar fundo. Eu desci mais um pouco, passando pelo corredor improvisado atrás do palco. A batida continuava estourando, mas ali, entre fios, caixas e gente apressada, o som virava vibração. Eu via olhares me seguindo. Eu era conhecida ali. Minha presença movia coisa. O engravatado tava a uns cinco metros quando me percebeu. Ele não arregalou o olho. Não fingiu surpresa. Só parou, como se eu fosse uma parede que surgiu do nada no caminho dele. Ao lado dele, um homem mais velho, postura de segurança, escaneando tudo com o corpo pronto. Esse me olhou como ameaça. O engravatado me olhou como… desafio. — Você tá procurando quem? — eu perguntei primeiro, sem “boa noite”, sem floreio. Minha voz saiu baixa, mas firme. A voz que eu uso quando não tô cantando — e todo mundo sabe que é essa que dá trabalho. Ele demorou um segundo a responder. Um segundo que me irritou porque parecia calculado. — Preciso falar com um homem chamado Rocha — ele disse, português perfeito, mas com um jeito de falar que entregava: ele não era daqui. — Assunto urgente. Eu dei um sorriso curto, sem alegria. — Aqui você não chega falando nome assim, não. Principalmente de gente que você nem conhece. O segurança dele deu um passo, como se fosse me empurrar pra fora do caminho. Eu nem olhei pra ele. Só mantive os olhos no engravatado. — Você não é polícia — eu falei, observando cada detalhe. — Polícia entra gritando e apontando. Você entrou… quieto demais. Ele não reagiu, mas eu vi a tensão mínima na mandíbula. Aquele micro gesto de quem não gosta de ser lido. — Meu nome é Erick — ele disse, como se o nome abrisse a porta. Erick. Nome de asfalto. Nome de empresa. Nome de homem que manda. Eu me aproximei só o suficiente pra ele sentir que eu não ia recuar. — Ariane — eu devolvi. — E se você veio achando que terno é passe livre, já adianto: aqui não é passarela. Por um instante, a música do baile pareceu mais distante. E eu juro que senti o ar mudar entre nós. Como se o morro inteiro parasse pra ouvir. Erick me encarou. Olhos escuros, frios, mas vivos. O tipo de olhar que não implora — cobra. — Não vim passear — ele disse. — Vim resolver uma situação. — Situação sua? — Situação que pode virar problema pra muita gente — ele respondeu, e a forma como disse “muita gente” me fez arrepiar. Porque homem que fala assim geralmente tá acostumado a fazer o mundo girar em torno dele. — Aqui tudo vira problema — eu retruquei. — Principalmente quando vem de fora. Erick soltou o ar pelo nariz, controlado. Eu reparei no relógio de novo. Discreto, mas brilhando sob a luz da gambiarra como se debocham da gente. — Você manda aqui? — ele perguntou. A pergunta veio com um tom perigoso: não era curiosidade. Era teste. Eu dei um passo a mais. Agora eu tava perto o suficiente pra sentir o cheiro dele: perfume caro, limpo, uma coisa fria que não combinava com o calor do morro. — Eu não mando no morro — eu falei, devagar, cada palavra pesando. — Eu pertenço. E isso, você nunca vai entender. Um grito estourou do lado de fora do corredor. Não foi grito de euforia. Foi grito de susto. Em seguida, um estampido seco. Tiro? Ou moto estourando? No morro, a diferença às vezes só aparece depois. Meu corpo reagiu antes da minha mente: eu virei o rosto pro som, buscando a rota. E, no mesmo momento, senti a mão do segurança do Erick puxar o braço dele como se fosse arrastá-lo pra trás. Só que Erick não recuou. Ele permaneceu. Quando a multidão começou a correr na direção errada, forçando a entrada no corredor, foi ele, o homem de terno, quem agiu. Ele deu um passo à frente, segurou-me pela cintura e puxou meu corpo para o lado, nos encaixando em uma a******a entre as caixas. A ação foi rápida, instintiva. Forte. Meu coração disparou de raiva. — Não encosta em mim! — eu rosnei, tentando me soltar. — Se você quer discutir, discute depois — ele falou baixo, perto demais do meu ouvido, e o tom não era de homem gentil. Era de homem que decide. Isso me acendeu por dentro de um jeito que eu odiei sentir. Lá fora, mais gritos. Um rádio chiando. Passos apressados. O helicóptero ainda rondando como se o céu fosse dono. Eu me soltei com força, empurrando o peito dele com a palma da mão. Erick nem cambaleou. Só me olhou como se eu fosse… fogo. — Você é louca — ele disse. — E você é perdido — eu devolvi, a voz tremendo de adrenalina. — E homem perdido no morro costuma virar notícia. Por cima do ombro dele, eu vi um dos desconhecidos que eu tinha notado mais cedo passar correndo, olhar rápido pra nós, e sumir numa escada lateral. Meu sangue gelou. Porque aquele olhar não foi de susto. Foi de aviso. Eu encarei Erick de novo, e pela primeira vez percebi: ele não tinha vindo só “resolver rápido”. Ele tinha trazido a tempestade junto. E agora, com o baile virando confusão e o morro respirando perigo, eu estava presa no mesmo corredor que ele. Com o terno caro. Com o relógio brilhando. E com a certeza amarga de que aquele homem… era problema do tipo que não vai embora fácil.
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