Capítulo 02 : O CEO Não Desce Aqui

1301 Palavras
Erick Eu não costumo perder tempo com lugares que não obedecem regras. O Rio de Janeiro, naquela noite, parecia feito de luz bonita cobrindo coisa feia. Do vidro fumê do carro, eu via a cidade como um painel de números: risco, exposição, custo, dano. A paisagem não me tocava, não do jeito que tocava turistas. Para mim, tudo era cenário de uma crise prestes a virar manchete. — Vai ser rápido — eu disse, mais pra mim do que para Danilo. Danilo, meu homem de confiança, dirigia com as duas mãos firmes no volante. O tipo de postura que não se ensina. Ou você aprende a ser assim porque já viu coisa demais… ou não aprende nunca. — Rápido é uma palavra perigosa aqui, Erick. Eu odeio quando alguém tem razão na minha frente. No banco ao lado, meu celular vibrava pela terceira vez em cinco minutos. Mensagens de um conselho que me tratava como dono quando eu entregava lucro e como réu quando o lucro ameaçava virar escândalo. “URGENTE: vazamento em fórum. Seu nome associado a operação ilegal.” “Investidores pedindo posicionamento.” “Assessoria quer nota ainda hoje.” Eu respirei fundo, mantendo a expressão neutra. A neutralidade é minha armadura. Minha forma de não mostrar que a mão treme — porque, no meu mundo, quem mostra fraqueza vira oferta. A verdade era simples: alguém tinha puxado um fio que eu enterrei com força o suficiente para achar que nunca mais pisaria na superfície. Um “problema” do passado. Um investimento m*l explicado. Um intermediário que apareceu do nada com a promessa de “facilitar” licenças, contratos, acesso. Eu mandei averiguar. Eu mandei encerrar. Eu mandei apagar rastros. Mas rastros são como sangue em piso claro: você pode limpar, mas o cheiro fica. — Onde tá o Rocha? — perguntei. — O contato que você exigiu? Tá esperando. Disse que só fala pessoalmente. — Óbvio que só fala pessoalmente — minha voz saiu seca. — Gente que vive de sujeira adora lugar sem câmera. Danilo soltou um riso curto, sem humor. — Você tem certeza que quer fazer isso? Do jeito que tá… é melhor segurar. Esperar. Movimentar advogado, nota oficial— — Eu não espero — cortei, sem elevar o tom. Eu nunca precisei gritar. Meu controle sempre foi o grito. — Quem espera dá tempo pro inimigo escolher a versão da história. Danilo ficou quieto. Mas eu vi no reflexo do retrovisor: ele não gostava disso. Não gostava de eu estar ali, no Rio, à noite, com o humor afiado e as costas expostas. Talvez porque ele me conhecia o suficiente para saber que eu só saía da minha fortaleza quando a ameaça era real. O carro subiu por ruas que eu reconhecia de reportagens e cifras: bairros caros, prédios altos, gente voltando de jantar como se o mundo fosse estável. A estabilidade é uma mentira confortável. Eu pago caro para viver dentro dela. Até que, aos poucos, o caminho começou a mudar. Os prédios se afastaram. As ruas ficaram mais estreitas. E o ar… o ar ganhou outra densidade. Como se a cidade estivesse segurando a respiração. — Não era pra ser aqui — eu disse, olhando a rota. — Não é “aqui” ainda — Danilo respondeu. — Mas é caminho. Eu encostei a nuca no banco, observando as luzes na distância, luzes que subiam pelas encostas como constelações tortas. A favela, vista de longe, parecia bonita. Mas eu não sou ingênuo. Beleza também é estratégia. Às vezes, é isca. O celular vibrou de novo. Dessa vez, número desconhecido. Atendi. — Erick Monteiro? — uma voz masculina, baixa, sem pressa. — Achei que você não gostasse de descer. A frase me atravessou como agulha. Não por medo. Por irritação. Por invasão. — Quem é? — Quem pode te salvar de virar capa de jornal amanhã cedo — ele respondeu, com uma tranquilidade indecente. — Mas isso… só com você olhando no meu olho. Eu fiz silêncio. O silêncio é meu teste. A voz continuou: — O CEO não desce aqui. Eu sei. Mas hoje… você vai descer. — Eu não recebo ordem de ninguém — falei, e percebi que minha própria calma tinha um gosto mais amargo do que o normal. — Não é ordem — a voz riu, quase. — É realidade. A ligação caiu. Danilo me olhou rápido, sem tirar o foco da estrada. — Era ele? — Era alguém achando que tem poder. — E tem? Eu não respondi. Porque eu sabia que “poder” não é um título. É uma situação. E, naquela noite, eu estava entrando numa situação que não obedecia meu nome, minha empresa, meu dinheiro. A cidade já não parecia minha. Quando chegamos perto de um acesso mais alto, Danilo diminuiu a velocidade. O som chegou antes: grave, repetitivo, pulsando, como se o morro tivesse um coração gigante batendo lá em cima. Baile. Eu vi gente andando em grupos, motos passando, luzes coloridas estourando no escuro. E, por cima, o ronco de um helicóptero rondando baixo, como um predador preguiçoso que sabe que, em algum momento, alguém vai sangrar. Meu estômago apertou. Não por medo físico. Eu já encarei reunião que valia bilhões como se fosse café. O que me apertava era o tipo de incerteza que eu não sabia comprar. — Você não vai subir sozinho — Danilo afirmou, firme. — Eu não disse que ia. — Mas tá pensando. Eu olhei pela janela. Vi um mundo que não era meu, girando com suas próprias regras. Eu não entendia aquela lógica e eu detestava não entender. Eu detestava ainda mais depender. — Qual é a chance disso ser uma armadilha? — perguntei. Danilo não hesitou: — Alta. Eu sorri sem humor. — Então é exatamente por isso que eu preciso ir. Ele me encarou como se eu fosse louco. — Erick, você tem empresa, tem patrimônio, tem segurança… — Eu tenho um nome — corrigi, a voz baixa. — E é isso que estão tentando arrancar de mim. Danilo respirou pesado, como quem engole um xingamento. — Tá. Mas aqui não é reunião de conselho. Aqui… as pessoas não têm medo de processo. — Eu sei. E, pela primeira vez naquela noite, eu admiti dentro de mim o que eu não diria em voz alta: eu estava indo onde meu controle não entrava. A batida do baile ficou mais forte, mais perto. E então eu ouvi a voz. Uma voz feminina, firme, cortando o grave como lâmina. Não era só canto. Era recado. Era coragem sem maquiagem. Eu não entendia a letra inteira, mas entendi o tom. Entendi o aviso escondido na melodia. Entendi o tipo de poder que não vem de dinheiro vem de pertencimento. Eu vi o palco ao longe, entre pessoas se movendo, e, no centro, ela. Ariane. Eu não sabia o nome naquele instante. Mas soube que era ela pelo jeito que a multidão reagiu, como se a voz dela fosse comando e abrigo ao mesmo tempo. E então ela cantou uma frase que pareceu direcionada a mim, mesmo que ela nem soubesse que eu estava ali, no carro: “Tem terno caro escondendo pecado…” Meu corpo ficou imóvel. Meu rosto continuou neutro. Mas por dentro, alguma coisa antiga, enterrada e perigosa, acordou. Danilo percebeu meu silêncio. — Erick? Eu não tirei os olhos do baile. — A gente vai subir — eu disse. — Você tem certeza? Eu engoli seco, sentindo o peso da decisão como se fosse ferro. — Não — respondi, honesto demais até pra mim. — Mas eu não tenho escolha. Porque, naquele lugar onde eu não mandava em nada, uma mulher com um microfone parecia saber exatamente onde doía. E, se ela sabia… ela era risco. Ou saída. Talvez os dois.
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