O Sussurro da tempestade

1279 Palavras
A manhã nasceu nublada em San Bendetto, como se o céu carregasse presságios que ninguém ousava nomear. O vento que soprava pelas ruelas estreitas trazia o cheiro do mar distante, mas também uma estranha sensação de inquietude, como se algo invisível rondasse as casas e igrejas da cidade. Elena saiu cedo da lanchonete onde trabalhava, exausta de uma madrugada quase sem sono. O pai havia chegado embriagado novamente, e só a intervenção de um vizinho evitara que a fúria dele se transformasse em mais agressões. Ela m*l teve tempo de descansar, mas precisava colocar comida na mesa para Sofia. Enquanto caminhava apressada pela rua principal, o coração acelerava ao lembrar da cena do dia anterior na igreja: o estranho Alfonso Greco falando com o padre Domenico em tom tenso, quase ameaçador. Era impossível fingir que aquilo não a havia marcado. "Quem era aquele homem? O que ele queria com o padre?" Pensar em Domenico lhe trazia sentimentos que misturavam respeito, temor e uma estranha confiança. Desde a confissão, sentia que ele a compreendia de uma forma única. Mas a presença daquele velho havia revelado outra face: Domenico não era apenas um sacerdote distante do mundo. Ele carregava algo mais, um segredo que agora parecia começar a vir à tona. --- Na casa paroquial, Domenico passava os dedos pela borda do envelope que encontrara na noite anterior, com a frase escrita em vermelho. Não era apenas um aviso; era uma provocação. Sabia reconhecer quando alguém queria instigar medo. O problema é que Alfonso não era homem de ameaças vazias. Ele se sentou diante da mesa, os vitrais projetando luz azulada sobre sua batina. Rezou em silêncio, pedindo clareza. Mas a mente estava cheia demais de lembranças do passado — nomes, rostos, dívidas que nunca foram pagas. A fé era sua armadura, mas até mesmo um padre podia sentir o peso do perigo à espreita. Uma batida suave à porta o fez erguer os olhos. Era Elena. — Perdoe-me por incomodar, padre — disse ela, a voz contida, respeitosa. — Eu... precisava falar com o senhor. Ele a convidou a entrar, mantendo o semblante sereno, embora internamente se perguntasse se era prudente. — Sente-se, filha. O que a trouxe aqui tão cedo? Elena respirou fundo, torcendo as mãos sobre o colo. — Ontem, após a missa... aquele homem. O senhor o conhece, não é? Domenico manteve um breve silêncio antes de responder. — Conheço, sim. Mas não é alguém com quem você deva se preocupar. — Como não? — ela insistiu, a voz firme apesar do receio. — Eu vi como o senhor ficou tenso. Ele falava como se... como se soubesse algo sobre o senhor. Os olhos escuros de Domenico a fitaram intensamente. Não havia julgamento, mas havia peso. — Elena, há assuntos que pertencem apenas ao meu passado. A você, cabe cuidar de sua irmã, de sua vida. Não se envolva. — É impossível não me envolver — replicou, surpreendendo até a si mesma. — Porque, de algum modo, sinto que tudo está ligado. Padre... ele falou meu nome, não falou? O silêncio de Domenico foi suficiente para confirmar. — Então me diga — ela sussurrou, quase em súplica. — Há perigo? Ele suspirou, mantendo a voz baixa, grave. — Há sempre perigo quando o passado de certos homens desperta. Mas eu não permitirei que ele recaia sobre você ou sobre Sofia. Elena sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Quis acreditar nele, mas também sabia que promessas não paravam tempestades. --- No mesmo instante, do outro lado da cidade, Alfonso Greco caminhava lentamente pelo cais, observando os barcos de pesca que chegavam. Parecia um homem comum, mas cada olhar era calculado, cada gesto medido. Um jovem de jaqueta escura aproximou-se. — Senhor Greco, os homens em Nápoles confirmaram. Eles sabem. Alfonso arqueou a sobrancelha. — E estão dispostos a vir até aqui? — Sim. Moretti não ficará escondido por muito tempo. O velho sorriu de lado. — Então o jogo começa. --- Naquela tarde, Elena voltou para casa com Sofia, trazendo um saco de pão e um pouco de queijo barato. A irmã, de apenas doze anos, parecia carregar nos olhos um peso maior do que deveria para sua idade. — Lena, eu não quero ficar aqui — murmurou Sofia, enquanto arrumavam a mesa. — Papai me assusta. Ontem, ele quase... Elena a interrompeu, acariciando-lhe o rosto. — Eu sei, minha pequena. Eu também tenho medo. Mas não podemos sair assim, sem nada. Sofia mordeu o lábio, em silêncio. Depois, perguntou em voz baixa: — Você confia no padre Domenico, não é? Elena hesitou, mas respondeu: — Confio. — Então talvez ele possa nos ajudar. Elena suspirou. Não queria expor ainda mais sua vida ao padre. Mas, no fundo, a irmã tinha razão: Domenico era o único que parecia oferecer algum tipo de refúgio. --- Naquela noite, após o terço, Domenico saiu para caminhar pelo pátio da igreja. A lua iluminava parcialmente os vitrais, e o silêncio era quebrado apenas pelo som distante de grilos. Foi então que ouviu passos. — Padre Moretti — a voz de Alfonso ecoou na penumbra. — O senhor deveria ser mais cuidadoso. A cidade não é mais segura para você. Domenico parou, erguendo o queixo. — E a culpa disso é sua, Alfonso. — Não apenas minha. — O velho se aproximou, os olhos faiscando. — Você sabe quem vem atrás de você. E sabe que eles não poupam inocentes. — Então fale claramente — exigiu Domenico. — Quem está vindo? Alfonso riu baixo. — Homens que nunca perdoaram o que você fez antes de vestir essa batina. E que agora descobriram sua nova identidade. — Se é verdade, por que me avisar? — Porque não sou t**o — respondeu Alfonso, firme. — Se eles destruírem você, também me alcançarão. Temos inimigos em comum. Domenico ficou em silêncio, medindo cada palavra. Não confiava em Alfonso, mas sabia reconhecer a gravidade do aviso. --- Enquanto isso, Elena sonhava inquieta. No sonho, estava dentro da igreja, mas o altar estava em chamas. Procurava por Sofia, mas encontrava apenas sombras. E, no centro, a figura de Domenico, com o olhar duro, como alguém dividido entre a cruz e a espada. Acordou ofegante, segurando a mão da irmã. O pressentimento de que algo terrível se aproximava não a deixou dormir novamente. --- Dias depois, o rumor correu pela cidade: um grupo de estranhos havia sido visto nos arredores, homens armados que não pareciam pescadores nem viajantes. A população comentava em sussurros, mas ninguém tinha coragem de investigar. Elena ouviu os rumores na lanchonete, e imediatamente pensou em Domenico. Quando a missa terminou naquela noite, ela o esperou do lado de fora da sacristia. — Padre, dizem que homens perigosos chegaram à cidade. Ele a encarou, firme. — E você acredita em rumores? — Não são apenas rumores, eu sei que não. Eu sinto. E tenho medo. Domenico respirou fundo. A cada dia ficava mais claro que Alfonso não blefava. O cerco estava se fechando. — Escute-me, Elena. — A voz dele soou baixa, mas carregada de autoridade. — Não importa o que aconteça, você deve proteger sua irmã. Se notar algo estranho, procure refúgio aqui, na igreja. Ela assentiu, mas os olhos marejados revelavam a angústia. — E o senhor? Ele hesitou antes de responder. — Eu enfrentarei o que vier. O silêncio entre eles foi quebrado pelo badalar do sino. Ambos sabiam que não era apenas um chamado para rezar, mas um presságio de que a tempestade estava próxima. E quando Elena se afastou, a última coisa que ouviu foi a voz de Domenico, baixa, quase um sussurro: — Que Deus nos proteja de nós mesmos.
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