A suíte nupcial estava mergulhada em um silêncio desconfortável. Depois da recusa de Alicia, Roberto ficou ali sentado na beirada da cama, encarando o nada, tentando entender o que tinha acontecido.
Eles sempre tiveram química, sempre.
Ela nunca o rejeitara, pelo contrário, havia desejo entre eles, vontade, entrega. Por isso aquele momento o feriu de um jeito que ele não conseguia explicar. Era a lua de mel. O momento que ele idealizou tantas vezes, o início da vida deles juntos, e ela... Ela simplesmente parou. Como se tivesse desligado dele, como se algo a tivesse levado dali para longe.
Ele olhou para Alicia, que dormia serenamente. O rosto bonito, os cabelos espalhados no travesseiro, os lábios entreabertos. Ela parecia em paz, mas dentro dele tudo era tormenta.
Será que ele tinha feito algo errado?
Será que tinha dito algo que a magoou?
Mas o que?
A cabeça dele fervilhava tentando encontrar uma explicação, qualquer coisa, mas nada vinha. Nada fazia sentido.
Sem conseguir mais suportar o peso da angústia que crescia no peito, levantou-se devagar e foi para o banheiro. Abriu o chuveiro no mais frio que conseguiu suportar e deixou a água gelada descer pelo corpo, como se aquilo pudesse lavar a frustração, a vergonha e a dor que sentia. Ali, sob o jato d’água, ele chorou. Chorou baixo, em silêncio, mordendo o lábio inferior para não fazer barulho, para não acordá-la.
Ele amava aquela mulher. Desde que se conheceram, Alicia virou o centro da vida dele. Ele queria cuidar dela, fazê-la feliz, e agora se sentia um completo i****a por não conseguir nem consumar a noite de núpcias direito.
Depois de um tempo, quando sentiu que estava no controle novamente, desligou o chuveiro. Enxugou o rosto com a toalha, vestiu uma bermuda confortável, uma camiseta, e voltou para o quarto. Alicia continuava dormindo como se nada tivesse acontecido.
Linda. Intocável.
Deitou-se ao lado dela e, cansado emocionalmente, acabou adormecendo também.
O despertador tocou cedo naquela manhã.
Um som agudo cortando o silêncio do quarto. Alicia se mexeu primeiro, virou o rosto na direção do celular e, com um toque lento, desligou o barulho.
Suspirou.
Sentiu o peso da culpa no peito antes mesmo de abrir os olhos completamente.
Sabia que tinha errado.
Sabia que tinha deixado o marido confuso e machucado, mas não conseguia lutar contra o que sentia por dentro. A imagem de João não saía da cabeça dela, como uma sombra invadindo o que deveria ser o dia mais feliz da sua vida.
— Me desculpa por ontem… — sussurrou, finalmente rompendo o silêncio entre eles.
Roberto abriu os olhos devagar, observando o rosto da mulher. Ele queria brigar, queria dizer tudo o que estava entalado, mas não faria aquilo.
Não ali. Não agora.
Engoliu o orgulho ferido, forçou um sorriso.
— Tudo bem, amor. Imagino que estava cansada… foram muitas emoções, ficou em pé o dia todo, dançou… Não precisa se desculpar. Te amo, tá? Agora anda logo, temos um voo daqui duas horas.
Ele se levantou primeiro, começou a pegar algumas coisas colocando tudo na mala. Alicia, quieta, foi se arrumando em silêncio. Não sabia o que fazer. Não sabia como agir. Por fora tentava parecer normal, por dentro estava em frangalhos.
As malas já estavam organizadas no carro que os esperava na porta do hotel. O motorista, sorridente e educado, ajudou-os a embarcar. Durante o trajeto até o aeroporto, Roberto tentou puxar conversa, contar sobre a surpresa que tinha preparado para a lua de mel. Falava animado, tentando resgatar a leveza que sempre existiu entre eles, mas Alicia só respondia com sorrisos fracos e acenos de cabeça.
Chegando no aeroporto, foram até o balcão de check-in. Roberto não tinha contado o destino ainda — queria ver a reação dela ao descobrir para onde estavam indo. E quando a atendente disse em alto e bom som:
— Grécia! Voo com escala em Lisboa, destino final Atenas.
O coração de Alicia parou por um segundo.
Ela travou.
Grécia.
Não podia ser.
Justo a Grécia.
Ela forçou um sorriso. Tentou, de verdade. Mas o sangue gelou nas veias. Aquilo não era coincidência, era uma ironia c***l do destino. O lugar onde tudo começou. Onde ela e João tiveram aquela noite insana, arrebatadora. Onde ela se entregou como nunca antes a alguém. E agora… Agora estava prestes a voltar àquele cenário, só que casada com o filho dele. A cabeça dela girava, a culpa latejava em cada pensamento.
Roberto a olhou com expectativa.
— Gostou da surpresa? — perguntou animado, sem nem perceber o desconforto dela.
— Gostei… — mentiu, forçando um sorriso sem brilho.
Ir pra Grécia seria ainda pior do que continuar no Brasil, lá ela não ia conseguir se livrar das memórias. Das lembranças dos momentos quentes que teve com o João, do amor que ela tem por ele, mesmo que só tenham ficado juntos por uma única noite na vida.
Quando João a tocou nos fundos do.salao.de festas ela soube, aquilo não foi o acaso, não foi uma transa inconsequente. Foi um encontro de almas. E o João parecia sentir exatamente o mesmo que ela.
O embarque foi tranquilo, mas o clima entre eles estava pesado. Alicia não aguentava a própria consciência. Tudo parecia um grande teatro montado e ela era a atriz principal de uma tragédia anunciada. Pediu um calmante para a aeromoça, alegando medo de avião, e logo adormeceu, fugindo da própria realidade.
Roberto a observava inquieto.
Cada vez mais convencido de que tinha feito algo muito errado, mesmo sem saber o quê. Ela tinha mudado. Depois do desmaio, depois do casamento, depois daquele maldito desmaio, Alicia era outra. E ele não fazia ideia do porquê.
O voo seguiu silencioso, cortando o céu enquanto, no peito de Roberto, o amor e a insegurança travavam uma batalha dolorosa. Tudo o que ele queria era que ela o olhasse como antes, que risse como antes, que quisesse ele como antes.
Mas tudo parecia cada vez mais distante.
E a Grécia, sem ele saber, estava prestes a reabrir feridas que nunca chegaram a cicatrizar.