Capítulo 19

1100 Palavras
A festa seguia viva, pulsante, como se o salão inteiro dançasse em uma respiração só. Luzes coloridas varriam o ambiente, e o som alto fazia as taças de cristal vibrar levemente sobre as mesas decoradas. Ao fundo, perto do bar, João mantinha sua postura contida, o paletó já aberto, a gravata afrouxada, como se aquela formalidade toda estivesse prestes a desabar, assim como ele. O copo de whisky já não tinha mais graça. Era o quinto, sexto, — quem contava? — e o líquido escuro descia como se não existisse mais garganta. Era anestesia. Ou tentativa. Alicia dançava com algumas amigas na pista, rodando o vestido branco com leveza. Mas havia algo naquele rebolado, naquela sensualidade inocente, que fazia João perder o eixo. O vestido, antes angelical, agora era pura provocação. O contraste do branco puro com as curvas dela era uma afronta aos seus sentidos. Ela parecia não saber o que provocava nele. Ou sabia. Talvez soubesse demais. E então veio Roberto, o dono oficial daquele sorriso, daquela dança. Filho de João, herdeiro de tudo, e naquele momento o dono do próprio veneno que o pai tentava engolir seco. — Não vejo a hora de levar essa mulher pra lua de mel — disse o rapaz, parando ao lado do pai, radiante. — Ela é o meu vício. João respirou fundo, sentindo o ar pesar como chumbo nos pulmões. Não teve coragem de virar o rosto e encarar o filho. Continuou olhando apenas para ela. Alicia girava levemente, os cabelos se soltando aos poucos, os saltos finos batendo no chão com precisão. O desejo e a culpa se chocavam dentro dele como duas feras presas na mesma jaula. — O que achou dela, pai? — a voz de Roberto chegou aos seus ouvidos quase como um soco. João cerrou os olhos por um segundo e bebeu mais um gole. Como responder aquela pergunta sem destruir o filho? Como dizer que achava aquela mulher a mais linda que já viu na vida? Que ela era mais que um desejo; era um delírio, um veneno de efeito lento que queimava em silêncio há meses? — Ela é um sonho, meu filho — disse, baixo, rouco, sem tirar os olhos dela. Só isso. Um sonho. Nada mais. Se dissesse tudo o que realmente pensava... acabaria ali mesmo, na festa, no meio do salão, em um soco trocado com o próprio sangue. — Sim, exatamente! — Roberto sorriu satisfeito, ingênuo demais para perceber a tensão do pai. — Ela é um sonho. Nem imaginei que fosse assim… Tão linda, né pai? João tragou seco, engolindo junto um palavrão que lhe subiu pela garganta. O filho falava de Alicia como um menino que ganhou o brinquedo mais caro da loja. Um presente que ele mesmo nunca deveria ter tocado. Ele ainda fitava Alicia. Ela agora se virava de costas, rebolando na batida de um funk que o DJ ousou misturar ao repertório. As ancas dela se moviam com a batida pesada. João sentiu o sangue ferver, e o whisky já não fazia efeito algum. O desejo era um fogo novo, queimando por dentro. — Não imaginei que poderia ser… ela. — As palavras escaparam antes que ele pudesse frear. Roberto franziu a testa, confuso. — O que? — perguntou, sorrindo ainda, mas claramente sem entender. João balançou a cabeça e escondeu os olhos sob as pálpebras, massageando as têmporas. — Nada, filho… — murmurou. — Bebi demais… Nem sei o que estou falando. Muito tempo sem socializar. Só isso. Passou a mão pelos cabelos grisalhos, nervoso, como quem tenta desembaraçar a própria consciência. Mas os olhos dele… Ah, esses olhos não conseguiam se desgrudar dela. E Alicia rebolava. Girava. Sorria. A boca carnuda entreaberta. Os olhos semicerrados pelo prazer da dança, do ritmo, da leve embriaguez. Ela era a mulher mais linda do salão. A mulher mais linda da noite. A mulher mais linda da vida dele. E agora tinha o sobrenome da família estampado na certidão de casamento. Era oficialmente uma Assunção. Pertencia ao filho dele. — O senhor tinha que ter conhecido ela antes, pai — disse Roberto, com um sorriso orgulhoso. — Hoje nem deu pra conversar direito, né? Mas o senhor vai ver… vai conhecer ela melhor. Vai ver como ela é a melhor mulher do mundo. João quase riu. Mas o riso não veio. Ficou entalado entre a garganta e o coração. Melhor mulher do mundo… Como se ele não soubesse disso. Como se não tivesse experimentado isso. Como se não tivesse sentido aquele corpo sob o seu, meses atrás, numa praia distante, escondidos do mundo, onde ninguém tinha sobrenome, onde ninguém tinha obrigações. Ali, naquela noite na Grécia, ela não era Alicia Assunção. Era só Alicia. A mulher que o fez esquecer da própria existência. Agora, ela era um lembrete c***l de tudo o que ele não podia ter. A festa seguia, indiferente ao drama oculto no canto do salão. Risos, brindes, flashes de câmeras. A felicidade estampada nos rostos, nas fotos, nos registros que mais tarde preencheriam álbuns e redes sociais. Mas ali, entre o pai e o filho, havia um abismo. João virou o resto do whisky num só gole e sentiu o álcool rasgar a garganta. Não ajudou. Nada ajudava. A única coisa que ele queria naquele instante era arrastar aquela mulher dali. Arrastá-la pelos corredores do hotel, como quase fez minutos atrás quando a encontrou na porta do banheiro. Queria quebrar todas as regras, rasgar contratos, destruir a moral. Mas não podia. Não com Roberto sorrindo daquele jeito. Não com o filho olhando para ele com aquele brilho de quem finalmente conquistou o que mais queria na vida. O que fazer com um desejo proibido quando ele se transforma em necessidade? João estava dividido. Entre o vinho e o veneno. Entre o pai e o homem. Entre a decência e o fogo que queimava por dentro. Ele sabia que essa história ainda não tinha acabado. E também sabia que, quando o fim chegasse, não haveria vencedor. Só destroços. — Tá tudo bem, pai? — Roberto perguntou, preocupado agora. João forçou um sorriso torto. Mentiu para salvar o filho. Para salvar a si mesmo. — Tudo ótimo, filho. Perfeito. Mentiras. Tudo mentiras. Porque a verdade era simples demais para ser dita: Ele estava apaixonado pela mulher do próprio filho. E essa era a maldição que ele carregaria dali em diante. E o pior de tudo? O pior era que ela retribuía aquele olhar. Faltava pouco para tudo desmoronar. Muito pouco. ADICIONE O LIVRO NA SUA BIBLIOTECA COMENTE MUITO PRA EU PODER SABER QUE ESTÃO GOSTANDO
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