Atribuições de Memória

1765 Palavras
E AJEITEI MELHOR DENTRO DO SUÉTER PESADO ENQUANTO sentia o frio penetrando através da lã e encontrando meus pulmões. A neblina fria se emaranhava em meus cabelos escuros, criando um aspecto ainda mais estranho do que eles costumavam ter. Apertei mais o lápis entre os dedos congelados enquanto os obrigava a se moverem pelo papel de forma mais rápida. Ainda faltava muito tempo para soar o sinal da entrada da aula, de forma que eu contemplava sentada e entediada o vai e vem dos alunos da minha escola. Me debrucei mais sobre a mesa oval do refeitório do jardim, sentindo o frio ardendo em minhas orelhas, enquanto tentava me esconder das rajadas extremas no nível ainda mais baixo do que eu estava, onde a grande placa que anunciava ACADEMIA SECUNDÁRIA DE ASTRONOMIA GEORGES LEMAÎTRE bloqueava a maior parte do ar em movimento que M Caminho das Estrelas 1 FALANGE Christyenne JottaA [14] desembocava completamente em minha direção, me obrigando a praticamente colar meu nariz congelado no papel rabiscado da agenda surrada que eu carregava por todos os lados. Onde eu escrevia rabiscos que também carregava por todos os lados. E todas as paredes que eu achava ter construído Eram de vidro E logo se... Foi nesse instante que um outro nariz gelado cutucou minha orelha: ― YEAAH BOMBONZINHUU!!! Devo ter pulado uns três metros no ar, mas a única ação que meu cérebro registrou, foi minha agenda se fechando tão rápido, que o lápis que eu segurava voou tantos metros a frente que o perdi de vista. Levantei meus olhos furiosos para a minha melhor amiga. ― DESASTRE. Sabe como eu odeio quando você faz isso! ― ECO. Por que você não está por ai gritando e pulando para aquecer como pessoas normais ao invés de ficar com o seu nariz enfiado numa agenda surrada e escrevendo baboseiras? ― Por que eu não quero. ― É sério, eu estou dizendo. Daqui alguns meses você começar a incinerar insetos sua nerd s*******o. É claro que só uma nerd fala assim da outra, por isso apenas dei de ombros quando Ivi descarregou sua mochila cheia de chaveiros em cima do tampo da mesa, se enrolando um pouco com as luvas grossas de crochê e m*l conseguindo se movimentar direito pelo peso das blusas rosa cashmere. Mesmo assim, Ivi continuava sendo a menina mais bonita da escola, e seu cabelo ruivo cem por cento em rolinhos com certeza estava divinamente dez vezes melhor que o meu. Cem por cento por que era legalmente ruivo, tipo, cor de cenoura, e não avermelhado. Ivi estava oficialmente dentro do g***o terrestre que representava os dois por cento de civilização ruiva do planeta. Caminho das Estrelas 1 FALANGE Christyenne JottaA [15] Me senti naquele momento em que você inveja sua melhor amiga com todas as forças do seu ser por ela ser tão bonita. Mesmo quando ela espirra mais do que sua avó doente. ― Fala sério. ― ela grunhiu limpando o nariz num lencinho amarrotado que arrancou de um dos cem bolsos da jaqueta ― eu ainda não acredito que estou resfriada em pleno Rio de Janeiro... esse tipo de coisa não costumava acontecer nem quando... bem, isso simplesmente não acontece. Rolei os olhos enquanto enfiava minha agenda na mochila. ― Não exagere, Ivi, é só uma frente fria. ― Frente fria? É o apocalipse! ― ela arregalou os olhos castanhos para mim, se deixando cair ao meu lado no banco ― Helooooou Srta. Nerd; não temos Frentes Frias, apenas muito calor e sorvete. A propósito, vamos continuar com os sorvetes, eu acho, por que em exatamente dois minutos, eu vou congelar. Quero dizer, você está sentindo o seu nariz? Tá, era esquisito, mas e daí? Nossa cidade estava registrando o primeiro fenômeno climático de tempo da história. Eu meio que me sentia esquisita ao olhar a pele bronzeada de Ivi e seus cabelos loiros queimados do sol completamente cobertos com tanta lã rosa, quero dizer, levando em conta que ela era o tipo de garota que costumava usar apenas uns poucos fiapos de roupa. E era ainda mais esquisito olhar para ser nariz fino e bronzeado agora vermelho de resfriado. Nenhum de nós estava preparado para aquilo. Por que uma cidade que vive abaixo de um sol escaldante de 27ª, de repente pode estranhar um pouco quando começa a viver a baixo de uma grossa crosta pegajosa de chuva, umidade e frio. Era meio que passar da fritadeira direto para o freezer. Havia chovido tanto nos últimos dias que já se estava cogitando os possíveis riscos de uma enchente. Tanto, que os alunos comunitários do ASAGL organizaram o CÔMITÊ CONTRA A POLUIÇÃO DAS BOCAS DE LOBO, o CCPDBDL, que vinha tomando todas as páginas do jornal oficial da escola, o GEORGE’S COMETA, no qual minha melhor amiga gênia era a colunista principal. ― Eu não acho que o Apocalipse vá ser tão frio assim, Ivi... ― a corrigi instantaneamente. ― Viu só? Até o Apocalipse é melhor que isso. ― Eu não disse exatamente isso. Caminho das Estrelas 1 FALANGE Christyenne JottaA [16] ― Tanto faz... eu apenas sei que não consigo me acostumar com toda essa roupa. Nem consigo me mover direito! E como é que eu vou mover os dedos para escrever dentro dessa luva horrorosa que a minha mãe me fez colocar? A lã fica raspando nas minhas unhas, é um completo HORROR. Simplesmente não dá pra vir à escola com toda essa umidade e esse frio. Devíamos fazer uma paralisação para cancelarem as aulas até que nosso querido sol aponte nos céus novamente... ― Vai sonhando... ― eu ri entre dentes, por que abrir a boca para rir completamente, significava ter que expelir ar gelado ― Eu não acho que alunos que vivam em São Joaquim, Nova Jersey ou até nos Polos façam paralisação por causa do frio. Ivi deu de ombros enquanto tirava uma barra de cereais de morango de dentro da sua mochila. ― Acontece que nós estamos no Rio, a Terra do Sol. ― ela piscou dando uma mordida no seu cereal ― Mas tanto faz... anda todo mundo meio abobado mesmo... nunca vi tanta confusão desde... ― sua voz sumiu quando seu rosto ficou vermelho, e eu sabia que não tinha nada a ver com o frio dessa vez. Ela me olhou sem jeito antes de dar mais uma bocada em seu cereal de morango ― Bem, você sabe... É claro que eu sabia. Mas Ivi também sabia que eu não gostava muito de ter que tocar no assunto. Na forma como tudo aconteceu no maior desastre da cidade. O famoso Vienna, mas conhecido como Coisas que Flutuam. A cidade toda sabia do que havia acontecido, por que praticamente todos estavam lá no dia da inauguração, o mesmo dia que ele teve de ser fechado, e toda a área do Parque havia sido rodeada com uma fita zebrada amarela e preta, por que ele praticamente tinha desmoronado. Mas não era exatamente isso que me incomodava, nem o fato de o Túnel do Medo ter desabado todinho em cima de mim, e só de mim por que eu havia sido a última a sair, por culpa dos cadarços idiotas dos meus tênis que desamarrados, se embrenharam em alguma coisa no escuro e não consegui desenroscá-los a tempo. Também não me incomodava tanto o fato de eu estar viva mesmo depois de provavelmente não ter de estar, ou de as cicatrizes milagrosamente terem se curado no mesmo dia, exceto por aquela mancha estranha que permanecia no meu pulso direito. Não, não era nada disso. Caminho das Estrelas 1 FALANGE Christyenne JottaA [17] O que realmente me apavorava, é que eu não me lembrava de nada do que havia acontecido meio segundo depois de conseguir desenroscar os malditos cadarços do que seja lá o que fosse em que eles tivessem se enroscado. Eu nem mesmo sabia como havia chegado ao hospital ou o que se passara naquela semana, por que na próxima, eu havia despertado como que de um sono normal, me sentindo completamente normal, exceto por duas pequenas alfinetadas que ninguém conseguia entender: eu estava viva, e eu não lembrava. E é completamente h******l não conseguir lembrar. É h******l quando sua mãe chacoalha você pelos ombros exigindo saber o que aconteceu e você não consegue responder por que não lembra. Bom. O Túnel do Medo havia desabado sobre mim. Isso era tudo que minhas memórias perdidas me permitiam explicar. Até os personagens que tentavam infligir medo no escuro haviam sido mais espertos e corrido mais rápido. ― Ei, Eve! ― as mãos enluvadas e cheias de migalhas dos flocos de cereal de Ivi dançaram em frente aos meus olhos, me chamando novamente a realidade. ― Ei, eu estou perguntando se está tudo bem. É sério, foi só um comentário b***a, você não precisa ficar se lembrando daquilo novamente. Chacoalhei a cabeça da maneira mais desajeitada possível. ― Ah, desculpe... eu só estava... Ok. Ela sabia o que eu estava fazendo. Se não soubesse, ela não seria Ivi. ― Estava se t********o mentalmente, eu sei. Acho que os seus neurônios já estão entrando em curto circuito por causa disso. ― Ivi também cruzou os braços ao meu lado, e só agora eu percebia que havia cruzado os meus de uma maneira tão apertada, que meus pulmões reclamavam. Ivi também estava incomodada, por que não havia como aquele assunto não incomodar. ― Você ainda não se lembrou de nada? Suspirei, ― Não. ― Você sabe, é completamente normal. Levou uma pancada na cabeça. Não é desumano você ter perdido parte da memória. Dessa vez eu abri a boca completamente para rir, sem me importar com o frio que entrou para dentro dos meus pulmões de uma vez só. ― Certo, talvez desumano tenha sido apenas todo o resto. E pancada na cabeça? Um Túnel de matéria prima e completamente palpável desabou em cima Caminho das Estrelas 1 FALANGE Christyenne JottaA [18] de mim. Nem era para eu estar viva aqui e tentando explicar isso a você, você entende isso? ― O que eu entendo, é que essa sua psique já está na zona dos polinômios negativos. ―ela esfregou as mãos para aquecê-las ― Apenas houve um acidente b***a e você se livrou. Não sei por que isso te incomoda tanto. Eu também não sabia. Coisas que quase acontecem, são mais difíceis de serem compreendidas. E coisas que acontecem sem explicação, são mais difíceis ainda de se compreender. Era complicada essa coisa de seguir em frente, mas também, nunca ninguém disse que ia ser fácil.
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