Sobre Garotas Malvadas

2198 Palavras
O que mais me chateou, foi Ivi ter a ideia inegavelmente mais i****a de todos os tempos de escrever uma matéria sobre meu acidente no jornal da escola com o título TERROR NO TÚNEL DO MEDO, achando que isso iria me ajudar. Isso apenas ajudou para que Hanna Winchestter ― que tinha como missão oficial TORTURAR EVELINE GRINGER ATÉ O ÚLTIMO DIA DE SUA MÍSERÁVEL VIDA ― colhesse mais informações da minha quase morte, e pudesse me ferir de forma mais íntima e direta. Eu não sabia por que exatamente líderes de torcidas tinham essa psique maluca em torturar garotas como eu, mas esse era meu dilema diário. E minha melhor amiga-gênio chamada Ivileine Metodins havia cooperado amavelmente pela primeira vez na vida com aquele espantalho loiro. Ah, Parabéns Ivi. Meu sortudo e congelado dia realmente começou quando Hanna me viu entrar no corredor estreito que me levava a primeira aula do dia, que eu compartilhava com Ivi e infelizmente Hanna também. Ela estava usando aquela “microminisainha” que ela sempre usava por cima de uma meia calça peluda cor rosa choque. Fala sério. Ela não dava um desconto nem que chovessem flocos de linguiça assada com gosto de caramelo. Seus cabelos lisos que chegavam até a cintura num corte V pareciam brilhar com gliter dourado, e sua sombra azul forte ficava desastrosa no rosto coberto de maquiagem. Caminho das Estrelas 1 FALANGE Christyenne JottaA [19] A Líder de Torcida loira e mais odiada do colégio ― assim como eram todas as Líderes de Torcida por tradição Mundial, ― estava rinchando com suas outras amigas perfeitinhas numa rodinha perto da porta da sala 20 do primeiro ano, onde a aula de Geografia nos aguardava e os caras geralmente costumavam ficar babando e olhando naquela direção. As luvas exageradas de pelúcia e os brincos enormes de argola completavam seu visual de Barbie do m*l. Especialmente quando ela semicerrou seus enormes olhos azuis em minha direção. E dai? Ivi não tinha olhos azuis e era mais bonita que ela. Mesmo quando tropeçava do meu lado por estar olhando demais um cara bonito: ― Estou dizendo, isso é coisa do m*l. Todos esses caras bonitos por aqui e nenhum deles me chama pra sair. Quando é que eu vou me acostumar de vez com o Ensino Médio? Tentei disfarçar criando uma resposta para a pergunta de Ivi enquanto acelerava o passo, ― Talvez quando... ― d***a, Gringer, você ainda não morreu? ... não adiantou. Deixei o ar sair de vagar, me perguntando se eu realmente ia conseguir conter a v*****e de bater com a cabeça em alguma coisa. Talvez até na própria cabeça de Hanna, se ela não estivesse atrás de mim ao invés de na frente e ao alcance da testa. Respirei fundo ao invés disso. Calma, Eve. Encare a situação da melhor maneira possível. Abri meu nada-melhor-sorriso-f*****o ao girar sobre os calcanhares. ― Olá, Hanna... ― ... cabeça de fuinha. ― Se um Túnel não é suficiente, o que precisamos jogar em você para fazer o trabalho sujo? ― Hanna rolou um celular cor de rosa em uma mão, por que a outra segurava sua bolsa de duzentos dólares. ― Talvez você só precise sentar em cima de mim, por que do jeito que você anda engordando essa sua b***a, provavelmente não vou conseguir resistir ao peso, principalmente se você juntar o resto da massa muscular que parece estar acumulando com tanta v*****e. Tá, é claro que era uma mentira, mas só garotas torturadas como eu sabiam que o pior insulto a uma líder de torcida perfeitinha era chamá-la de gorda. E deu Caminho das Estrelas 1 FALANGE Christyenne JottaA [20] certo. Os olhos azuis de Hanna se inflamaram, e enquanto suas amigas abafavam os risinhos, ela ameaçou jogar sua bolsa de duzentos dólares em cima de mim. ― Sua esquisita! Por que você não fez outra coisa ainda mais chata ao invés de nascer? ― ela cuspiu enquanto passava por mim como o Super Sonic, e eu me sentia enjoada por causa do perfume doce que ela fazia questão de mostrar que usava. Eu realmente tentava fingir que nada do que ela dizia me atingia, mas Hanna era demais para uma garota de apenas dezesseis anos. Principalmente quando ela te chama de esquisita daquele jeito que só ela sabe chamar. Hoje nosso diálogo não havia sido longo, mas havia sido um tanto inesquecível para mim. Não que ela não me chamasse de esquisita toda vez que me abordava, mas por que naquela ocasião ela havia se referido a minha quase morte em particular. Então Ivi me deu um leve cutucão nas costelas para me amparar. ― Esqueça isso. Essa garota simplesmente n******e ser metodista. Suspirei enquanto o sinal soava, tentando aceitar que as coisas apenas eram assim e eu tinha que aceitar. Isso me impulsionou a seguir o caminho até a sala com Ivi tentando me animar. ― Tive uma ideia, ― ela sorriu me mostrando seu talento de jornalista ― tipo, e se nós fizéssemos um comitê chamado TAADTTQM _ “todas as animadoras de torcida tem que morrer”, como aquela música dos Switchblade Kittens? Eu posso imaginar toda a escola aderindo a paralisação. ― Você quer dizer, menos os caras. ― Certo, mas como o Brasil é um país de predominância feminina, temos certeza que teremos bastante simpatizantes e patrocinadoras. Eu quase ri. Quase. ― Que psicose é essa que você tem com paralisações? ― Eu sou jornalista. ― Então você devia ter psicoses com papel reciclável e coisas mais assim... ― murmurei daquele jeito enjoado que eu murmurava quando ficava irritada ― Sabe, ás vezes eu acho que queria ter o poder de fazer um asteroide cair em cima dela. Foi mais o menos nesse momento, que aquele som completamente reconhecível de chuva caindo no telhado nos acordou para a realidade. Os vidros da janela da sala começaram a ficar respingados, e toda a classe soltou uma exclamação abafada. Caminho das Estrelas 1 FALANGE Christyenne JottaA [21] ― O quê? ― Hanna parou para ouvir melhor ― De novo? Eu apenas dei de ombros enquanto rumava para a carteira número doze, por que já tinha problemas demais para ficar me preocupando com o tempo. ― Encare isso pelo lado bom... ― Que lado? Aquele em que nós poderíamos evoluir rapidamente para criaturas aquáticas? ― Não. Aquele em que nós estamos aqui dentro e não lá fora. Ivi se sentou em silêncio na carteira número vinte, bem ao lado da minha, com a cara amarrada, por que todo mundo ficava meio assim na aula de Geografia. Talvez apenas por que o Professor Encharpe fosse o objeto mais imoral que havia alguma vez pisado na GL. Ele era um careca que usava óculos com aro redondo e escrevia tudo errado no quadro. E costumava fazer perguntas apenas aos alunos que usavam corrigi-lo. Por isso, o quadro n***o era uma bagunça só, e ninguém entendia muita coisa da matéria, também dificilmente alguém passava com uma média razoável na sua aula, de forma que não eram novidade no fim do semestre as notas em vermelho no boletim. Encharpe também dificilmente podia ser confundido com alguém que gostasse de trabalhar. A julgar pela forma que ele se conduzia dentro da sala; de vagar, sem v*****e, e como se estivesse o tempo todo com sono ou viajando mentalmente em algum lugar próximo de Marte, dando um role na galáxia e admirando a Ursa Maior. Não havia como não ser contaminado por seu ar distante enquanto se estava próximo a ele, e isso sempre me fazia ficar desenhando rabiscos no caderno para evitar a cena angustiante. Mas hoje foi diferente. Logo percebi que havia algo errado quando Sr. Encharpe entrou quase correndo na sala, segurando um punhado de folhas num braço e a pasta no outro, e jogando a cabeça para o lado direito de forma rápida e ritmada, ao invés de entrar na sala contando os passos, lustrando os óculos, e fazendo uma clara careta de desânimo. Ivi me jogou aquele olhar que dizia algo como Eu estou vendo coisas, ou o Sr. Encharpe REALMENTE se parece com v*****e de trabalhar hoje? Respondi com aquele olhar que mais o menos dizia Tanto faz... Não que fosse anormal ver o Sr. Encharpe escrevendo no quadro de forma rápida PROVA SURPRESA de forma absolutamente enquadrada à língua portuguesa, o que era anormal era ele dar uma prova surpresa. Sr. Encharpe Caminho das Estrelas 1 FALANGE Christyenne JottaA [22] geralmente editava suas provas uma vez por mês e as aplicava no fim do conteúdo, por isso, quando seu giz parou de guinchar no quadro, uma fileira de bocas abertas se seguiu entre a sala. Até Hanna teve o amor próprio de guardar o celular dentro do estojo, percebendo que talvez, hoje houvessem possibilidades de ele ser confiscado pelo Sr. Encharpe. Ignorei a forma como um aluno olhava para o outro, como se a sentença de morte de cada um tivesse sido redigida no quadro ao invés de prova surpresa. Bom, para a maioria podia ser exatamente isso. ― Parece que nós já terminamos nosso assunto inicial de Introdução a Astronomia, o que me leva a pensar que se sujeitos que estão com seu caderno em branco ou todo preenchido com palavras erradas e claramente não condizentes a matéria já podem ter apreendido tanto a ponto de não ter absolutamente nenhuma dúvida sobre o conteúdo. ― Encharpe tagarelou da forma mais acadêmica possível, e quando ele chegou ao fim de sua explicação nada razoável, percebi que meu queixo havia caído escancarado. Quero dizer, desde quando ele havia apreendido a falar melhor do que a professora Howard, de língua portuguesa? Encharpe estava também gaguejando como um altista maluco e desequilibrado, e as vezes rolava os olhos castanhos como se eles fossem de vidro. ― Nossa mais recente aula nos mostrou o talento de alguns alunos em ficar moscando na sala de aula ao invés de procurar possíveis erros de lógica nas explicações, e já que não houve nenhum, estou bastante convencido que todos podemos fazer hoje uma auto-avaliação sobre nosso conhecimento precário sobre Astronomia. ― ele coçou a testa como se estivesse tendo tiques nervosos, espalhando as folhas pela mesa de maneira simétrica ― Então, primeiro, diga-nos Srta. Yohanna Winchester: Quem foi GEORGES LEMAÎTRE, o ilustre nome de nossa escola? Todos os pescoços entortaram para Hanna, que não expressou o menor sentimento ao murmurar: ― Eu não faço ideia. Enquanto a turma inteira ria, eu tentava me recompor no assento, tentada a fazer alguma piada da Cabeça de Fuinha. Ela podia ser melhor que garotas como eu e Ivi em termos de ser sexy numa quadra de basquete, mas com certeza não era lá muito impressionante em uma aula de geografia. Encharpe expressou isso em uma careta de desânimo. Caminho das Estrelas 1 FALANGE Christyenne JottaA [23] ― Será que existe alguma mente que funcione nesta classe a ponto de saber me dizer a resposta para esta pergunta? Mordi o lábio para segurar a v*****e de rir quando Ivi levantou a mão: ― Foi um famoso Astrônomo teísta Belga. ― Deve ser o mesmo que perdeu as botas dele lá na sua casa. ― Hanna completou, meio segundo antes da turma cair na gargalhada novamente. ― Ou aquele que espiou debaixo dessa sua minissaia ridícula semana passada. Ah não, espere, não foi ele. Foi a equipe de basquete inteira. ― Ivi cuspiu entre dentes, alto o suficiente para que apenas eu ouvisse, e tivesse que tapar a boca com uma das mãos para esconder o riso. ― Isso está completamente certo, Srta. Ivileine. Imagino que saiba também me dizer o que são cometas e quais as constelações mais famosas do hemisfério boreal? Fechei minha agenda enquanto observava o maneirismo estranho de Encharpe enquanto ele ouvia Ivi falando sobre Taurus e suas estrelas. Havia um modo estranho no jeito como ele olhava, como se seus olhos fossem dois buracos negros que absorviam tudo ao invés de olhos, e foi exatamente isso que eu senti quando ele perguntou o que era um buraco n***o a mim. ― Ele aparece quando uma estrela desaparece ― expliquei de forma rápida, pois odiava falar na frente da classe toda. Eu ia provavelmente baixar minha cabeça enquanto falava, como normalmente eu faria, mas havia algo no modo como os olhos de Encharpe pararam em mim, que não me deixou desviar meus olhos nem baixar minha cabeça. ― E qual a maior estrela conhecida? ― havia algo de especial na maneira como ele dirigiu a pergunta, como se a tivesse usado apenas para saber outra resposta, e isso me fez gaguejar enquanto tentava me lembrar da próxima resposta, por que eu não me lembrava de saber alguma coisa sobre estrelas enormes, por que ainda não havíamos nos aprofundado no tema para saber coisas como essas. Mas então por que... por que eu sabia? ― Ahn... a Epsilon Aurigo, eu acho. ― espera, de onde exatamente havia saído aquele nome esquisito? ― E em que constelação ela está localizada? ― ele levantou uma sobrancelha, como se estivesse me desafiando a saber a resposta, e eu não devia mesmo saber, mas...
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