― Auriga. ― minha resposta foi imediata ― a 465 anos-luz de distância. É mil duzentos e setenta e oito vezes maior que o Sol. ― ainda completei, piscando de maneira i****a enquanto ainda tentava entender como eu sabia disso. ― Ahn... é isso.
Encharpe assentiu de maneira satisfeita, e se eu não o conhecesse, poderia mesmo dizer que ele estava sorrindo.
― Perfeito, Srta. Gringer.
Ivi ainda me enviou um olhar esquisito antes de ter que responder ás outras
perguntas que a maioria dos alunos não conseguia responder, e eu tentava ignorar
os olhos subitamente esquisitos de Encharpe, que a toda hora pareciam varrer toda
a sala, como se realmente fossem dois buracos negros. O que havia de errado com a aula de Geografia de hoje? Será que o Sr. Encharpe havia caído da Roda Gigante
no Dia do Desastre? Ou batido a cabeça nas portas de vidro antes de entrar na escola? Era muito fácil esquecer que existiam duas portas na entrada, por que elas
eram de um vidro tão transparente, a ponto de realmente convencer que não existiam.
Eu havia aprendido isso da pior forma.
Apenas gostaria que Hanna se esquecesse lá de vez em quando.
Encharpe estava notavelmente satisfeito com Ivi, que obviamente respondeu tudo de forma categórica, enviando olhares superiores a Hanna a cada piada.
Mas quando tudo estava indo bem, um celular começou a tocar.
E Ivi não teria ficado estática se fosse uma aula de Geografia normal, mas
como não era, ela me enviou um daqueles olhares que claramente resumia um desespero súbito e completamente mudo.
Isso por que nós duas só conhecíamos um celular que tocava Ones and Zeros do Steven Klarc.
― d***a, por que esse tipo de coisa só acontece comigo? Quero dizer, como
é que eu vou explicar a mamãe que o Sr. Encharpe resolveu de repente confiscar meu telefone?
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― De repente? ― perguntei enquanto subia na frente de Ivi na arquibancada poeirenta e decadente do ginásio ― Eu não tenho certeza que esse seu argumento vai ser lá muito convincente.
― Ah, claro, como se eu fosse contar que ele tocou na sala.
Ao perceber que eu não conseguiria achar um lugar livre da poeira e das
marcas de tênis All Star, joguei minha mochila numa vaga, a usando para me sentar em cima. O treino do jogo de basquete estava quase começando, e havia chegado a hora de Ivi cobri-lo para contar em sua coluna como os Tigres do GL estavam se saindo e quais as esperanças de troféus da temporada. Abri minha agenda surrada com a capa rabiscada com um EU EVOLUÇÃO, enquanto Ivi também jogava sua mochila na vaga ao meu lado e abria seu bloco de anotações.
― Não acho justo que ele tenha resolvido confiscar celulares... quero dizer, parece que de repente ele resolveu virar professor, mas, ainda assim, ele não poderia ter esperado para virar professor num dia em que meu celular não tocasse dentro da sala?
Recostei as costas no cimento frio do próximo degrau, retirando a lapiseira da espiral da agenda.
― Pois é, você tem razão, sua mãe vai te m***r.
Um segundo depois, os guinchos de borracha na quadra anunciaram a
chegada dos Tigres, o time de basquete da escola. Ivi revirou os olhos enquanto rabiscava uma resenha de Boas Vindas no seu bloco, mas levantou sua cabeça no mesmo instante que eu ao ouvir também outros guinchos: os das animadoras de torcida.
― Que beleza! Elas vão ensaiar hoje também?
― Fala sério, Ivi. Hanna não perderia a oportunidade de ver Itham sem
camisa nem que um cometa caísse em cima da cabeça dela. ― a lembrei enquanto observava Hanna e as outras animadoras entrarem também na quadra correndo.
― Ah, certo. Acho que Itham prefere beijar uma lagosta infectada do que beijar Hanna Winchester.
― E qual a diferença?
Ivi jogou a cabeça para trás para gargalhar.
― Me lembre de adicionar isso a minha matéria.
Itham era o irmão mais velho de Ivi, e também a estrela no time de basquete.
Fora o cabelo apenas alguns tons mais claro que o dela, ele não se parecia muito
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com Ivi. Itham não era nenhum gênio, mas jogava bem, e seu físico também botava inveja em todos os outros caras do time. O problema era que seus ombros largos e todos seus braços musculosos apenas o deixavam meio deslocado no meio da quadra, por que Itham era tão grande, que parecia não saber direito o que fazer com tantos músculos. Nem com todas as garotas que viviam no seu pé, especialmente Hanna.
Ele apontou nas barras de p******o das arquibancadas assim que saiu do vestiário, usando a regata e o calção preto, vermelho e branco dos Tigres
― Ei, meninas. ― ele sorriu pulando as grades e se aproximando em dois passos, meio que como um Louva Deus...
― Hei, Itham. ― cumprimentei enquanto procurava pelo meu último rabisco inacabado.
― Eu não acredito que vocês deixaram essas Barbies pularem como marionetes aqui logo hoje, Itham. Era para ser o treino oficial do time, não das bonequinhas de pano ali... ― Ivi apontou a caneta para seu nariz quando ele se sentou um degrau a baixo.
Seus olhos verdes se abriram chocados, e sua boca pequena também se entortou em um leve sorriso sarcástico.
― Como se fosse possível controlar Hanna Winchester. Ela tem v*****e própria muito própria. Não é como se alguém pudesse dizer não.
Dava para entender por que Hanna era tão ridiculamente apaixonada por Itham. Ele era muito bonito, tanto que as garotas falavam coisas quando ele passava por elas. Mas mais que isso, Itham era um bom amigo. Eu já tinha perdido
as contas de quantas vezes ele havia feito minha lição de casa, ou de quantas vezes
ele guardou lugar para mim e Ivi na hora do intervalo ou num jogo dos Tigres, ou mesmo de quantas vezes ele deu uma má notícia a mamãe em meu lugar quando
eu me sentia incapaz... tipo na vez em que eu descobri ser uma decepção em química, e a professora também descobriu, mandando uma advertência a minha mãe por escrito para comparecer na escola e tratar de assuntos acadêmicos, e eu quis jogá-la na privada e puxar a descarga. Mas Itham entregou o bilhete por mim.
Itham e Ivi vinham constantemente salvando a minha vida, e isso era suficiente para que eu lutasse com todas as minhas forças para conseguir alguém melhor que Hanna Winchester para ele. Por que ele merecia. Não por que ele usasse uma corrente no pescoço com dois espelhos intitulados IVI E EVE, AS
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GAROTAS DA MINHA VIDA, mas por que ele era o Itham. Meu melhor amigo e irmão de Ivi, não o bichinho de estimação de alguma animadora de torcida.
― Tanto faz, só quero terminar isso e ir para casa antes que eu vomite. ― Ivi fez uma careta enquanto rabiscava algo de maneira furiosa em seu bloco.
― Podem me esperar e assim podemos ir juntos. ― Itham sugeriu enquanto amarrava os cadarços ―, vamos todos ter que ir com o ônibus das 13:00hrs mesmo, já que o da escola já foi.
― E já que temos só um guarda-chuva mesmo... ― Ivi deu de ombros ― só queria fingir que não tem só água por toda a parte que a gente vá apenas por um momento, mas não tem como com esse barulho de chuva no teto, então...
― Ei, Itham! Vamos lá, cara! ― o treinador Armim Preston gritou da quadra balançando seu apito e acenando seu boné com as cores do Tigre.
― Estou indo, Sr. Preston! ― ele gritou de volta antes de se dirigir a Ivi, ― e nem pense que dessa vez eu vou contar a mamãe que o Professor Encharpe confiscou seu celular na aula de Geografia hoje... ― e saiu correndo em direção a quadra, coçando a cabeça enquanto Hanna acenava pra ele.
Ivi abriu a boca surpresa ao meu lado, parando de escrever enquanto o fulminava pelas costas.
― Ei! Não era pra você estar sabendo disso.
Os olhos de Ivi encontraram os meus quase que no mesmo instante
enquanto nós duas chegávamos a mesma conclusão: ― Hanna!
Ivi apertou a caneta de maneira assassina enquanto fulminava Hanna com o olhar.
― Eu juro, Eve. Vou descer lá e fazer ela engolir aquele maldito pompom! ― Esqueça isso, Ivi, ela não vale a pena. ― falei observando as animadoras de
torcida treinarem sua Pirâmide, enquanto Hanna gritava frases absurdas como “Me deem um “I”, Me deem um “T”, me deem um “H”, me deem um “A”, me deem
um “M”. ― Tá, tudo bem, quem sabe eu concorde com você, mas nós somos mais espertas, lembra? Por que você só não escreve alguma coisa na sua coluna HCDF?
A HCDF era a coluna mais recente de Ivi, em homenagem a líder de torcida da nossa escola. Claro que Hanna não precisava saber que HCDF significava Hanna Cabeça de Fuinha, mas pelo menos, ela se achava uma celebridade por ter uma coluna só sua no jornal da escola, e isso era o suficiente para que Ivi pudesse
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manter agilizado seu m*****o plano m*****o contra Hanna Winchester. Afinal de contas, Ivi era um gênio.
― Você acha que isso realmente a afetaria?
― É... não. Mas eu faria da mesma forma. ― dei de ombros.
Ivi se debruçou sobre seu bloco de anotações, fazendo seu cabelo cor de cenoura cair sobre seu rosto, e isso demonstrava o quanto ela estava concentrada em seu trabalho. Sorri enquanto voltava minha atenção ao meu mundo. Dentro da minha agenda. Era mais que um diário, pelo menos, era isso que eu costumava achar. Não era só um lugar onde eu contava o que acontecia, mas onde eu tentava explicar o que eu sentia. Era por isso que eu era a única pessoa com livre acesso a
ela. Era ali que estava registrado tudo que Eveline Gringer era. Seria mortal que algum dia minha agenda chegasse a cair nas mãos de alguém como Hanna. Apenas cogitar a ideia me deixava arrepiada... assombrada.
Parei de folhear quando as páginas se abriram meio sem querer em alguns rabiscos do dia nove de setembro.
O que eu me lembro da minha quase morte: nada. O que eu me lembro de mais alguma coisa: nada.
Era esquisito ficar patinando nisso constantemente sem sair do lugar em nenhum momento, mas eu simplesmente não conseguia digerir isso da forma correta. Meus olhos correram para meu pulso direito, onde a manga da blusa havia subido, revelando a única cicatriz que não queria se curar. Aquela cicatriz h******l em forma de... bom, se parecia com uma renda, sem desenhos perceptíveis. Isso me fazia perguntar onde eu havia machucado o pulso e de que forma, mas era inútil, por que eu não me lembrava.
Folhei novamente as páginas até achar uma em branco e passei a escrever.
Hoje, 21 de novembro. “Silêncios imensos se respondem”
A frase de Raul Bopp. Resumia exatamente tudo que eu sentia, por que haviam silêncios dentro de mim respondendo a outros. Os ruídos continuavam,