Um Passo Mais Escuro

1772 Palavras
I, VAI UM POUCO MAIS PRA LÁ... ― IVI CUTUCOU Itham enquanto nós três nos espremíamos no minúsculo guarda chuva de Ivi a caminho de casa depois de ter descido do ônibus ― é só que, estou dizendo. Se você continuar crescendo desse jeito, logo teremos problemas em dividir o guarda-chuva. ― Como se fosse algo que eu pudesse controlar. ― Itham se retirou mais para o outro lago, passando a mochila para o outro ombro. Seus cabelos ruivos voavam em todas as direções, e seus olhos pareciam mais verdes que nunca. Haviam respingos de chuva nas mangas de seu moletom _intitulado em letras tremidas FOI SÓ MAIS UMA FASE _, assim como nas barras de minha calça e meu braço direito. Ivi estava no meio, e por isso, estava mais seca que todo mundo. ― Estamos quase chegando... ― os acalmei enquanto tentava vislumbrar nosso bairro por trás das gotas de chuva que caíam com força na calçada. -E Caminho das Estrelas 1 FALANGE Christyenne JottaA [32] O amontoado de casas alinhadas estava completamente encharcado, e as cercas brancas de madeira pingavam com insistência. Os postes de luz já estavam acesos, e percebi que os céus estavam muito escuros para a hora do dia. Eram apenas 01hr da tarde, mas já pareciam ser 06hrs, o horário em que eu e Ivi costumávamos ir até a biblioteca municipal para elaborar as matérias do GEORGE´S COMETA. Naquele dia em especial, não havia como saber se a chuva cederia o suficiente para nos permitir sair. Tanta água me deixava sonolenta. Tanto, que eu m*l via a hora de chegar em casa, me embolar em um cobertor e dormir na frente da televisão. E quem sabe comer uma balde enorme de pipocas achocolatadas e assistir a um filme que saiu de moda a muito tempo. E também, nada de temas. Nada de química e Pauling, e com certeza nada de geografia também. Minha lista de pretensões para o dia só ia aumentando mentalmente quando o barulho de uma caixa de correio sendo fechada com uma pancada me despertou para a realidade novamente. Era Sra. Greice, fechando sua caixa cinzenta a beira dos arbustos a alguns metros de distância. Ela era presidenta da Associação de Moradores do bairro, e seu cabelo escuro em estilo chanel era famoso por lhe deixar parecida com a Louis Lane, principalmente quando ela colocava aqueles saltos scarpin enormes e aqueles blazers escuros. Seu guarda chuva estampado com rosas balançava visivelmente irritado, e suas enormes unhas vermelhas agarravam o punhado de cartas úmidas com violência. ― Ah, olá crianças. Espero que tenham tido um bom dia molhado. ― Ola, Sra. Greice. Sem dúvidas um ótimo dia de chuva. ― Itham acenou com a cabeça. Ela revirou os olhos enquanto torcia o nariz para o tempo chuvoso. ― Acho que minha próxima petição na segunda feira devem ser canoas para os moradores da Vila. E possivelmente alguns remos. Vocês deverão passar a ir a escola numa barca. ― Que tal algumas nadadeiras e pés de pato? ― Ivi me cutucou as costelas. Sra. Greice a mirou de forma cética e rabugenta, como ela sempre fazia com todo mundo. ― Ei, mocinha, não se esqueça de dizer a sua mãe para aparar a grama esta semana e se livrar de todos aqueles pêssegos podres. Se não, os turistas poderão Caminho das Estrelas 1 FALANGE Christyenne JottaA [33] acabar pensando coisas indevidas sobre a nossa vila. Não vou perder minha medalha de Melhor Presidenta da a*s por causa de sua mãe e seus pêssegos. Ouvi Ivi bufar em silêncio, e eu a conhecia bem demais para ser i****a o suficiente a ponto de lhe dar tempo para falar. ― Claro, Sra. Greice, diremos a Sra. Metodins. Tenha um ótimo dia... ― sorri, empurrando Ivi antes que uma catástrofe maior acontecesse. Meu dia já havia sido suficientemente r**m. ― Humpf. ― Greice bufou antes de dar meia volta, jogando a água de seu guarda chuva em nossa direção. Ivi lhe mostrou o dedo médio depois que ela se virou. ― É uma promessa de Ivileine Metodins: um dia, vocês ainda irão encontrar os restos mortais de Greice no meu jardim. E possivelmente uma placa intitulada Aqui jaz Greice Levithan, a abelhuda do bairro que queria ser Louis Lane e não tinha um Superman. ― ela terminou mostrando a língua, e logo depois se direcionando a mim ― É isso que a falta de namorados faz com as pessoas, sabe Eve. ― Então você será a próxima abelhuda? ― cutuquei. ― Dããããã. Eu já sou. Mas não é culpa minha que os caras da escola sejam todos um bando inadmissível de idiotas, ok? ― Eu não sei por que você só pensa em namorados, Ivi. As pessoas estão falando dos pêssegos podres no nosso jardim e você só consegue pensar em namorar... ― Itham rolou os olhos. ― Ah, claro Sr. Atleta. Para você, falar é fácil, já que parece que todas as meninas da escola estão grudadas como chicletes no seu tornozelo. ― Ivi mostrou a língua para Itham também, lhe dando um leve empurrão ― Eu também não ia querer saber de relacionamentos se Hanna Winchester estivesse rastejando na minha sombra e beijando meus pés. Itham lhe enviou um olhar claramente irritado. ― Isso não é verdade, e eu não disse que não quero saber de relacionamentos. ― ele encerrou a conversa com um dar de ombros. Depois da esquina encharcada e deslizante, entramos na nossa rua. Os enormes pés de salgueiro plantados a beira da calçada de forma enfileirada, fazia com que eles se abraçassem no topo, criando uma espécie de túnel folhado ao longo dos quatrocentos metros até a próxima esquina. Era a rua mais bonita do Caminho das Estrelas 1 FALANGE Christyenne JottaA [34] bairro. O teto criado de folhas bloqueou um pouco dos pingos, me deixando mais aliviada ao constar que meu braço direito já estava ensopado, por que Ivi não conseguia caminhar, manter o guarda chuva no lugar e falar ao mesmo tempo. ― Ah, lar doce lar. ― Ivi suspirou aliviada ― Só espero que mamãe ainda não tenha morrido afogada nem nada do tipo... Arrumei melhor a mochila nos ombros ao me aproximar de meu portão, o único da rua em formato de V virado. Eu e Ivi costumávamos nos dependurar nele quando éramos pequenas, e por isso, as dobradiças dele nunca funcionavam direito, deixando o meio torto, pendido para a esquerda. Abri a caixa de correspondência 602 antes que de abrir o portão, enroscando minhas unhas no mecanismo da caixa enquanto Ivi e Itham prosseguiam correndo para a casa 603. ― Ei, Eve, até depois. Passo por aqui para irmos até a biblioteca. ― Ivi gritou enquanto eu corria para a porta de entrada, deslizando pela calçada de ladrilhos coloridos e molhados e enfiando as cartas em baixo da blusa. ― Tudo bem, ― gritei de volta, dando um salto para chegar a varanda mais de pressa. Parei quando cheguei a porta, sem ar e baixando a cabeça para visualizar a mim mesma. Bem, eu não estava pingando. Já era um progresso. Enrolei os cabelos molhados de qualquer forma antes de erguer o braço molhado para abrir o trinco e entrar no calor aconchegante de casa. O cheiro de bacon e ovos cozidos dominou meu olfato assim que abri a porta. Suspirei de satisfação ao entrar e fechar a porta. Não havia nada como chegar em casa, e perceber que toda a sua vida ainda estava bem ali, ao seu alcance novamente. Mesmo que você não se lembrasse de muitas coisas de sua vida, você chegava em casa e percebia que apesar de tudo, ela ainda era a mesma. ― Estou dizendo, Havana, você colocou muito orégano nessas batatas de novo... Pois é, completamente a mesma. Pendurei meu casaco molhado no hall de entrada, pendurando a mochila úmida no outro ombro enquanto segurava as cartas na mão ao mesmo tempo, rumando com pressa ao encontro do cheiro quente e delicioso que me seduzia, enquanto escutava as vozes de minha tia e de minha mãe virem do mesmo lugar. ― Estava na receita, Peg, não seja rabugenta. Caminho das Estrelas 1 FALANGE Christyenne JottaA [35] ― Ora, céus... é exatamente por isso que sou eu quem faz comida nessa casa... por que você apenas não continua com essa sua lista incompleta de pacientes e deixa a cozinha comigo? Estou lhe dizendo, nada seria mais inteligente... ah, e tire suas mãos do meu bolo de carne! Sorri comigo mesma enquanto cruzava o corredor que levava até a cozinha. Minha mãe e minha tinha sempre discutiriam na cozinha. Elas sempre iriam demonstrar o amor através de xingamentos e cutucões, mas iriam. Eu amava nossa família de três pessoas. Não era um número muito grande, mas era o suficiente. Aquele era o meu mundo, a única coisa que fortalecia de forma a enfrentar tudo de i****a que eu enfrentava. Não havia nada como minha casa. Adentrei cozinha a dentro retirando as cartas de debaixo da blusa, e as jogando no tampo do balcão, praticamente no mesmo momento em que tia Peg me visualizou de baixo em cima, arregalando seus olhos enquanto os corria por mim e minha situação deploravelmente úmida. ― Oh, céus, Eve! Veja só, você está molhando toda a minha cozinha! ― ela ajeitou mais os óculos redondos fundo de garrafa enquanto enxugava as mãos no avental. Seus cabelos curtos e brancos cuidadosamente penteados para o lado. Contornei o balcão e lhe dei um beijo estalado no rosto. ― É nossa cozinha, tia Peg. Ela ajeitou os óculos no rosto enquanto tentava fingir um descrédito que não existia. ― Ora, você e essa sua senilidade prematura. Sempre tive medo disso... Sorri para Havana ao me dependurar em seu pescoço. Era como se eu não visse minha mãe a duas décadas. Era estranha essa falta repentina que eu estava começando a sentir dela. Como se algo dentro de mim me dissesse que eu não a tinha o suficiente. Ela era a única pessoa que não se importaria em me abraçar em um dia frio se eu estivesse encharcada, e foi exatamente isso que ela fez, afagando meu cabelo úmido enquanto me apertava contra ela. ― Ei, querida. ― ela sorriu em meu ouvido, seus cabelos castanho escuros fazendo cócegas em minha orelha, seu cheiro de lavanda e alecrim perfurando o ar ― Teve um dia molhado? Ninguém tinha um sorriso mais bonito que o sorriso de minha mãe, mesmo que seus profundos olhos cor de chocolate ainda demonstrassem todos os dias a falta que ela sentia de papai.
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