Dias Molhados

1498 Palavras
― Muito molhado... ― eu sorri, me afastando e surrupiando um bolinho de queijo de cima de uma das travessas da pia ― Ivi me deu carona em seu guarda- chuva, mas Itham é tão grande que quase não havia espaço para nós duas... Havana sorriu. ― Devia ter me ligado. Eu podia buscar vocês de carro. Mas eu não queria incomodar Havana com meus problemas adolescentes. Eu já havia esquentado demais sua cabeça dormindo por uma semana inteira sem dar sinais de vida. Ela já tinha coisas demais na cabeça para se preocupar. Era raro os dias em que eu podia contar com minha mãe em casa, sendo que a maior parte do seu tempo era usurpada por seu emprego em tempo integral. Havana era a melhor médica do Hospital Comunitário da cidade, e era h******l saber que seus pacientes precisavam mais dela do que sua família, mas era verdade. Quando eu chegava em casa, eu nunca sabia se iria encontrá-la ou se ela estaria atendendo alguma emergência. Seu rosto bonito para seus trinta anos também não podia esconder seu cansaço: seu corpo pequeno e magro resumia toda a sua batalha em manter nossa família de pé. As marcas de expressão e as linhas fundas em seu rosto também dificilmente poderiam ser ignoradas. Havana era uma batalhadora, e eu tinha muito orgulho dela. Apenas me culpava mentalmente por não haver nada que eu pudesse fazer para diminuir a dor que ela discretamente carregava nos ombros todos os dias. ― Tá tudo bem, mãe. O guarda chuva de Ivi não é tão r**m assim... ― Ei, sua traficante de bolinhos de queijo, trate de se secar antes que pegue o belo resfriado de Ivi. Acredite, você não vai querer espirrar daquele jeito pelo resto da semana... ninguém gosta da ideia de ter o nariz ardido nessa casa... ― Peg ordenou, me apontando com sua colher de p*u. Havana sorriu com cumplicidade enquanto me empurrava para as escadas. ― Vamos lá, querida. Vá trocar essa roupa e tomar um banho quente. Conversamos depois. O bolo de carne está quase pronto. Corri em direção as escadas ainda sorrindo. Era estranho pensar que eu quase havia perdido tudo aquilo. Comecei a tirar as roupas úmidas pelo caminho, as jogando no chão de meu quarto quando cheguei até ele. As paredes cheias de desenhos de minha infância contavam um pouco sobre mim. Os papeis rabiscados e colados em todas as partes também revelavam ainda mais sobre tudo que eu sentia e tudo que eu era. Meu Caminho das Estrelas 1 FALANGE Christyenne JottaA [37] quarto também era uma espécie de área restrita apenas a minha família. Era impossível entrar ali sem saber de tudo que se passava comigo em todos os momentos que passei. Minha estante de livros estava bagunçada, assim como a cama, a escrivaninha em frente a janela, e o pequeno criado mudo ao lado da cama. d***a. Eu tinha que dar um jeito naquilo tudo. Não ia poder fugir de arrumar o quarto pra sempre. Rumei para o banheiro, só conseguindo pensar na água quente escorrendo por meu corpo gelado. Me enfiei debaixo do chuveiro ainda com a metade das roupas, as tirando a medida que água quente me esquentava. Aos poucos, o frio foi dando lugar a um calor aconchegante. Aquilo fazia tudo valer a pena. Os problemas da escola, minha quase morte, a falta de lembranças, Hanna... não existia nada em baixo do chuveiro, apenas eu. Era meu lugar de confissão. Suspirei ao sentir a água quente me levando para longe de todos os meus problemas, fechando os olhos enquanto me deixava ficar, pensando em tudo que me deixava feliz. Pipoca achocolatada, o barulho da roleta na entrada do cinema, um cobertor quentinho de orelha, as folhas de um livro sendo folheadas, o cheiro de alecrim de Havana, o bolo de carne de tia Peg, o cheiro de tinta da caneta, a maciez do meu suéter favorito, os espelhos de Itham, o barulho da lapiseira enquanto eu escrevia... o crepitar das chamas, o calor das chamas, uma fogueira quentinha, fogo, fogo, fogo... Abri os olhos de repente, confusa. Desde quando eu passara a gostar de fogo? Quem sabe o frio estivesse me fazendo cultuar as chamas. Quase ri ao pensar na ideia, mesmo que meu coração tenha se contorcido de uma maneira estranha ao me fazer admitir que não era isso. Encarei o chuveiro por alguns momentos. Fagulhas amareladas começaram a saltar em direção ao teto. Meus olhos se arregalaram. Parecia haver alguma coisa criando estática no meu chuveiro. Sai de debaixo da água quase que instantaneamente, sentido uma agulhada repentina no pulso direito. Ai! ― Ai! ― verbalizei o pensamento, sacudindo o pulso dolorido enquanto encarava aquela cicatriz horrenda. Estava ardendo, como se estivesse realmente pegando fogo. Desliguei o chuveiro numa pressa maníaca, me enrolando em uma Caminho das Estrelas 1 FALANGE Christyenne JottaA [38] toalha pendurada no cabide ao lado da porta e enfiando o pulso rapidamente em baixo da água gelada da torneira da pia. E depois de alguns segundos, passou. Encarei o chuveiro mais uma vez. Me parecia normal, mesmo que meu coração estivesse acelerado e minha pulsação estivesse quase no limite. Droga. Será que eu havia levado um choque? Será que eu estava ficando maluca? Me debrucei sobre a pia do banheiro, sentindo meu cabelo molhado se grudando em meu rosto, esperando que as batidas de meu coração voltassem ao normal. Elevei meus olhos para o espelho embaçado, o limpando com as costas das mãos. Eu estava pálida. Os cabelos escuros geralmente volumosos estava lisos e baixos, diminuindo a musculatura pálida do meu rosto. Meus olhos castanhos estavam estranhamente escuros, me fazendo pensar em todas as coisas estranhas da minha vida. Nas lembranças que haviam se perdido em alguma parte sombria da minha mente. Escuro. Escuro. Escuro. Era só nisso que eu podia pensar enquanto tentava chegar a alguma conclusão. Não importava que eu parecesse uma mariposa me jogando desesperadamente em direção a luz. A escuridão de não saber sempre me tragava para seu refúgio novamente. Antes que eu pudesse conter, já estava rabiscando em linhas tortas no espelho embaçado do banheiro com a ponta do dedo. NO ESCURO NOVAMENTE. Por que, de repente, eu não conseguia mais parar de escrever coisas absurdas. Não que ultimamente minha vida não andasse completamente absurda, mas por quê as coisas estavam ficando absurdamente bestas demais. Suspirei fundo enquanto tentava, mais uma vez, sozinha em mim mesma, me lembrar de qualquer coisa que tivesse acontecido um segundo antes do acidente. Por que eu não me lembrava de bater a cabeça? Ou pelo menos, de cair em algum lugar e de apagar segundos depois? Fechei os olhos, forçando as lacunas de minha mente a se abrirem, a me permitirem o acesso a todas as coisas que eu não sabia se queria saber, mas que me assustavam mesmo assim. Vamos lá, Eve! Você consegue! Apenas se concentre... ― Eve? ― a voz de Havana interrompeu meus pensamentos depois que a porta de meu quarto se abriu. Suspirei fundo, tentando me recompor. Caminho das Estrelas 1 FALANGE Christyenne JottaA [39] ― Estou aqui, mãe. ― avisei, saindo de dentro do banheiro, esbanjando meu melhor sorriso. Havana examinou meu rosto molhado enquanto fechava a porta, sua roupa branca de médica me avisando que ela estava prestes a sair. Meu sorriso desapareceu. ― Está tudo bem? Ouvi você gritar. Que ótimo. ― Tudo bem... ― chacoalhei a cabeça de forma exagerada ― Eu só... acho que encostei o dedo na tomada sem querer... ― menti, desviando os olhos, por que Havana me flagraria se eu continuasse olhando pra ela. ― Nada pra se preocupar, mãe. É sério... ― garanti, caminhando para meu criado mudo e revirando a gaveta, na esperança de achar meu secador de cabelo. Não adiantou. ― Está muito pálida, querida. Tem certeza que está tudo bem? O problema em ter uma mãe médica, é que ela sempre ia descobrir quando você estava mentindo que estava bem. Desisti de fingir normalidade, afagando meu pulso direito e me sentando na cama. ― É que eu só... queria lembrar. Havana me enviou um olhar preocupado por alguns instantes, mas depois suspirou e sorriu. Minha mãe caminhou até minha cama, se sentando do meu lado enquanto afagava meu ombro nu e molhado. ― Querida... não existe nada para lembrar. Foi... apenas um acidente. Isso é tudo. Eu queria me forçar a acreditar. Mas apenas não conseguia. ― Você já vai? ― mudei de assunto. ― Parece que uma paciente está tendo crises de hipotermia... ― A mesma que caiu no lago central ontem a noite? Havana riu. Aquele sorriso que só ela tinha. ― Sim. A mesma. ― ela encarou o relógio digital em cima da cabeceira da minha cama com uma ruga entre as sobrancelhas ― Você vai com Ivi até a Biblioteca hoje? ― Vou. Precisamos terminar a sua matéria ainda hoje, o jogo já é na semana que vem.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR