Tia Peg

1428 Palavras
Seus dedos magros, longos e delicados de médica apertaram mais meu ombro, sua expressão facial claramente decepcionada. ― Ah, querida... me desculpe. Eu adoraria poder levar vocês duas até lá... adoraria poder passar mais um tempo com você, mas... ― Tá tudo bem, mãe... eu entendo. ― sorri para ela de maneira sincera, mesmo que ultimamente meus sorrisos parecessem vazios. ― Eu sei que você ficaria se pudesse. Havana sorriu mais uma vez antes de levantar. ― Obrigada, querida. Eu não vou poder ficar para o almoço, mas tia Peg com certeza vai ser uma EXCELENTE companhia pelo resto da tarde, eu GARANTO. ―EI! EU OUVI ISSO, HEIN? ― tia Peg gritou lá de baixo. Eu ri. ― Ta tudo, mãe... vai ser uma tarde maravilhosa... Havana sorriu mais uma vez, me dando um beijo na testa antes de rumar para a porta. ― Ah, e não esqueça de tomar cuidado, querida. Sabe como são essas ruas a noite. Diga a Ivi para levar Itham, se for possível... ― Tá-bom-mãe! Acontece que se as coisas dependessem de Havana, eu andaria sempre com um guarda costas maluco a tira colo... talvez até dois depois do que acontecera no Parque. Observei em silêncio enquanto minha mãe deixava meu quarto mais uma vez, me deixando novamente sozinha. Depois de dar um jeito nas roupas acumuladas nos cantos de meu quarto de pelo menos um mês, me dediquei a minha lição de casa. Infelizmente, a escola nunca seria a mesma sem Geografia, tão pouco minhas notas seriam alguma coisa Caminho das Estrelas 1 FALANGE Christyenne JottaA [41] sem um pouco de v*****e de estudar. A única coisa que me decepcionou, foi perceber que meus talentos em geografia só vinham crescendo. Mesmo sendo uma das alunas CDF da classe, eu não podia dizer que conseguia dominar tão bem todo o histórico de estrelas filhas e mães sem nunca ter realmente estudado sobre isso, mas estava conseguindo. De repente, eu não sabia de coisas que devia saber, tipo, minhas lembranças, mas sabia de coisas que não devia saber, tipo, o universo. Esquisito? Quem sabe um pouquinho. Eu estava embolada em um cobertor em cima da cama, completa e confusamente emaranhada em minha coxa rosa de cupcakes, debruçada sobre meus cadernos e roendo a ponta do lápis quando tia Peg entrou no quarto. Seus óculos redondos fundo de garrafa estavam desalinhados, como sempre, e seu avental creme estava coberto com farinha de trigo. Apesar de tudo, eu sorri. Tia Peg sempre ia ser minha tia rabugenta de 400 anos de idade. Aquela que se casou apenas uma vez e já era viúva há uns trezentos anos. Minha Tia Peg. Aquela que sempre iria olhar meu quarto com aquela expressão que só ela sabia fazer enquanto ajeitava os óculos. ― Bem, tudo bem para tudo isso... mas que tal se você desse um jeito nessa baguncinha? ― ela gesticulou com as mãos, apontando meu ambiente de trabalho. ― Tia Peg, por que a Senhora sempre me manda arrumar o quarto justamente quando ele está do jeito que eu quero? ― Mocinha Teimosa. No meu tempo, as moças não deixavam nem mesmo um papelzinho de balas caído no chão do quarto... Apenas dei de ombros enquanto direcionava minha atenção aos estudos novamente. ― Deve ser por isso que chamam essa era louca de “Século XXI”... Mesmo não olhando, eu sabia que tia Peg havia semicerrado seus olhos. ― Onde você está aprendendo a ser tão sarcástica, mocinha? Sorri mais uma vez ao levantar os olhos. ― Acho que em todos os lugares. Desculpe tia. Sabia que eu te amo? Dessa vez a peguei tão desprevenida, que ela não conseguiu disfarçar o sorriso. Tia Peg fechou a porta branca do meu quarto, com o enorme espelho do lado de dentro, e caminhou até minha cama, se sentando cuidadosamente ao meu Caminho das Estrelas 1 FALANGE Christyenne JottaA [42] lado. Sua expressão cansada e sobrecarregada estrangulava meu coração. Tia Peg era a força vital daquela casa. Sem ela, aquele lar simplesmente se desfaria. ― Ás vezes não me conformo com o tanto que você cresceu, minha menina... ― ela me concedeu aquele leve e raro sorriso. A última vez que tia Peg me chamou de “minha menina”, foi quando caí de bicicleta aos doze anos e esfolei o joelho. ― Ás vezes você ainda parece aquela menininha medonha que vivia se dependurando no portão com a vizinha ruiva. Vocês brincavam de astronautas, era isso? Um nó se gerou em minha garganta ao recordar daquelas tardes tão inocentes. Não existiam erros, medos ou duvidas. Apenas o sol e uma vida radiante... até eu crescer e entender que as coisas não eram bem assim. Até entender que não caia nenhum brilho do céu, que os contos da Dysnei eram apenas fantasias e que torrada com geleia não enche o estômago. Ri com tia Peg por alguns instantes. Era raro isso de ela te dizer realmente alguma coisa em que estivesse pensando. ― Éramos abelhinhas... ― corrigi. ― Oh, certo. ― tia Peg sorriu mais uma vez, recordando das mesmas coisas que eu. ― Eu só estava lá em baixo, pensando. O tempo passa tão rápido... não temos tempo para absolutamente nada nessa vida... De alguma forma, isso me atingiu. De uma maneira bem estranha e forte. Era verdade. Mais uma vez aquela sensação de ainda não ter minha família o suficiente me dominou. Era estranho. Eu já não tinha muito tempo com Havana, e era como se o tempo também passasse voando quando eu estava com tia Peg. O tic tac do meu relógio parecia estar correndo numa velocidade impar... parecia estar... procurando. Uma ansiedade estranha de não estar em nenhum lugar nem outro. Uma necessidade estranha de... querer alguma coisa. ― Tia, do que a Senhora está falando? ― o assunto realmente me atingiu, a ponto de instigar tia Peg enquanto ela ainda estava realmente conversando comigo. A chuva ainda caia contra os vidros de minha janela, nos deixando naquele silencio tenebroso e molhado. Ela deu de ombros, suspirando cansada. ― De tudo. Eu consigo sentir. Você não sente que tem alguma coisa errada? ― ela semicerrou mais os olhos claros, como se tentasse decifrar meus pensamentos enquanto me encarava. Caminho das Estrelas 1 FALANGE Christyenne JottaA [43] Me senti estranha ao chegar a conclusão de que ela tinha razão. E ainda mais estranha ao perceber que eu estava prestes a concordar. Que conversa estranha era aquela afinal de contas? ― Tia Peg, eu... ― Tudo bem, você não precisa me dizer nada... ― ela enfiou as mãos enrugadas no bolso lateral do avental sujo de farinha de trigo ― Eu apenas... queria lhe dar uma coisa. E pedir para que você usasse. ― ela tirou um lindo colar do bolso, o envolvendo nos dedos e o oferecendo a um ponto fixo de minha visão, para que seu pingente balançasse a frente de meus olhos. Era apenas uma corrente de prata segurando um condão dourado em forma de gota. Pequeno, simples... quem sabe até sem graça, mas conseguiu roubar toda minha atenção. A pedra dourada girava e brilhava a minha frente, como se tivesse vida própria. ― Eu... o que é isso? Claro que era uma pergunta otária. Estava meio óbvio que era um colar raríssimo... mas algo me dizia que... ― É um amuleto da sorte. ― ela piscou enquanto o transferia para minhas mãos, enrolando a corrente em meus dedos e fechando minha mão sobre ele. ― Sempre foi muito útil pra mim. Eu costumava depositar toda minha fé nele, e nunca falhava. Apenas quero que você continue com a tradição da família. Esse amuleto já pertenceu a muitas gerações, e a mim por que sou mais velha que Havana. ― Ela explicou. ― E você é única, Eve. Chegou a sua vez. Havia algo na forma que ela afirmou aquilo que fez meu estômago doer de uma forma pouco normal, mas antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, tia Peg sorriu e se levantou de minha cama, esfregando as mãos no avental enquanto recuava. ― Fiz um ótimo bolo de maracujá se estiver a fim de comer alguma coisa antes de ir encontrar sua amiga. Também tem alguns donuts no microondas se você quiser. Havana me deu ordens claras de não deixar você sair sem comer pelo menos metade do que está na geladeira. Ok. Eu estava chocada. Desesperadamente lhe mostrei o colar, ansiosa por resgatar a tia Peg que estivera comigo até momentos antes. ― Mas Tia, eu...
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