― Não discuta comigo. Você vai comer e pronto. Te espero lá em baixo, querida...
E antes que eu conseguisse dizer mais alguma coisa, ela já havia ido embora. Ás vezes, nem uma adolescente de dezesseis anos consegue ser mais rápida que uma velha de sabe se lá quantos anos... especialmente se essa velha for tia Peg.
Ivi escorregou em uma poça de lama pela vigésima vez.
— Ora... malditos acontecimentos climáticos. Há algo malditamente errado
sobre isso tudo... — ela chutou lama pra longe enquanto arrumava seus cachos ruivos em baixo da boina rosa novamente. — se eu der mais um espirro, vou me desequilibrar e acabar com a b***a bem em cima de uma dessas poças ridículas.
Pisquei contra o vento frio, que soprava meu cabelo em todas as direções, menos para a direção certa. Com as mãos enfiadas em punho nos bolsos do casaco,
eu tentava digerir pelo menos metade das coisas que vinham acontecendo em minha vida. Patético. Ao fim da tarde, os cafés ao ar livre que costumavam estar sempre cheios de gente bebericando coca gelada, agora era só um amontoado vazio
de cadeiras geladas. Os únicos ambientes habitados, eram os interiores das lanchonetes, onde pessoas tomavam seus chocolate quente ao redor de enormes lareiras.
— Isso já nem parece mais o Rio... está parecendo uma recriação patética de A Era do Gelo — Ivi resmungou entre dentes enquanto eu tentava constratar aquela cena congelante com minha fissuração bizarra por fogo. Talvez fizesse algum sentido. Talvez... — EVE!!! — Ivi berrou em meus ouvidos de repente, me fazendo pular por um momento.
Foi mais o menos como acordar de um transe.
— Que foi? — minha voz baixa repercutiu em meio ao vento que chicoteava
de um lado ao outro, levantando folhas secas do chão.
— d***a. Eu estou aqui falando sozinha a mais de uma hora. Será que da
para me dizer pelo menos uma vez na vida em que você está pensando?
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Ivi havia parado no meio da calçada, me encarando com seus olhos castanhos brilhantes e suas bochechas rosadas enquanto segurava seus cadernos com a outra mão enluvada. Engoli em seco enquanto refazia a pergunta mentalmente. Em que
eu estava pensando? Nem eu mesma sabia. Era estranho me perder em mim enquanto eu nem percebia de que forma estava perdida. d***a. Até quando eu teria aquela sensação esquisita de não estar totalmente acordada? Até quando haveria uma parte de mim malditamente adormecida, me deixando ver as coisas apenas pelo modo paralelo?
Gaguejei alguma coisa sem sentido enquanto pensava em algo que não fizesse me sentir tão estranha.
— Havana. — soltei o primeiro nome que me veio a mente. As sobrancelhas de Ivi se uniram.
— O que tem a sua mãe?
— Eu... sinto falta dela. Ás vezes...
Ivi me fitou por um momento, como se decidisse mentalmente se acreditava ou não, e depois de dar um suspiro profundo com ar de “tanto faz”, me deu um
leve empurrão enquanto recomeçávamos a caminhar.
— Tudo bem. Eu entendo. Deve ser difícil pra você não poder contar com sua mãe pra nada...
— Isso não é verdade... eu posso...
—Tudo bem, escute, — ela levantou uma mão — De qualquer forma, não foi
isso que eu quis dizer. Só ia dizer que lamento que Havana não tenha muito tempo pra você. Eu mesma sei o significado de precisar constantemente de uma companhia materna. — ela suspirou — Mas Havana faz o que pode pra manter sua família de pé, e eu a admiro muito por isso... você sabe.
Lhe concedi um leve sorriso.
— Obrigada. É a mesma coisa que eu costumo pensar... por isso ás vezes eu
acho que... d***a, acho que não faço o suficiente pra ajudar... eu não faço nada pra ajudar...
Ivi me olhou de forma estranha. — O que você quer dizer com isso?
— Olhe para mim. Eu podia ajudar com pelo menos... bem, pelo menos se não lhe trouxesse tantos problemas... talvez isso já estivesse bem.
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Quando achei que Ivi não ia reagir ao meu comentário patético, ela soltou uma pequena gargalhada.
— E quem foi que disse que adolescentes nunca iriam trazer problemas? Sua mãe provavelmente sabia disso... mas a quis mesmo assim.
Eu também sorri. Pensar na ideia me trazia certo prazer.
— Ora, Eve, você sabe... não dá pra simplesmente ficar longe de problemas.
Você sabe que eles sempre encontrão a gente de qualquer forma. Quanto mais você foge do perigo, mais ele te persegue. Então não se culpe por entregar atrasado os livros da biblioteca e nem por colar na prova do Sr. Encharpe... — ela riu da própria piada, mas depois, o riso morreu, e percebi que meu sorriso também tinha empalidecido.
E antes que eu me desse conta do que estava fazendo, percebi que havia me encolhido mais dentro do casaco, e algo cutucou minha mente, me dizendo que não tinha nada a ver com o frio a nossa volta.
— Você acha que ele ficou doente ou algo do tipo? — Ivi foi a primeira a se manifestar na causa divergente e desagradável do assunto — Talvez... o conselho tenha lhe dado uma dura ou sei lá...
Arfei ar gelado por um instante, mordendo o lábio.
— Parecia ser mais do que isso. Ele parecia... — engoli em seco — possuído. — Certo. Não vou discordar de você dessa vez... mas foi assustador.
— Não gosto da forma como ele olha pra gente... e também não gosto da
forma como ele fala. Não gosto da forma como ele menciona as leis, regras e nomes das estrelas... eu... não gosto. — balancei a cabeça com desgosto, me lembrando da sensação h******l de estar olhando pra dentro de um buraco n***o
ao olhar dentro de seus olhos.
Ivi me olhou de uma maneira esquisita, e depois, pensativa. Quando baixou os olhos para as mãos, estava determinada.
— Eve, você é minha melhor amiga. Uma irmã, e eu seria capaz de qualquer coisa por você. — ela sentenciou me encarando de maneira tangente — sabe que pode me contar qualquer coisa, não é?
Pisquei por alguns instantes, absorvendo o calor em suas palavras. Havia um toque de verdade em cada uma delas, e os olhos de Ivi confirmavam toda a sua afirmação repentina. Meu peito se inflamou de carinho por Ivi. Era ela quem sempre estaria ali, me impedindo de cair e me ajudando a me levantar. Ivi era
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aquela que nunca me deixaria, e não importava o quanto as coisas estivessem ruins... ela sempre estaria exatamente ali, me oferecendo tudo que ela tinha. Sorri para ela, meus cabelos se embolando em meu rosto enquanto eu assentia de maneira desajeitada.
— Claro.
Ivi também sorriu, aquele sorriso lindo que deixaria qualquer um
abobalhado, e me ofereceu o dedinho mínimo, com sua enorme unha cor de rosa. — Isso é um trato, certo.
Eu sorri enquanto lhe oferecia o meu, entrelaçando-os naquele pacto antigo
de crianças.
— Certo. Eu ainda levo isso a sério.
O ar cheirava sutilmente a cinzas e folhas secas. As ruas antes cheias casquinha de sorvete agora estavam cheias de folhas secas voando e rodopiando por todos os lados. Era incômodo observar o novo aspecto da cidade, e perturbador comparar ás águas congeladas do chafariz da praça Central com o que costumava
ser um chafariz quente e cheio de moedas da sorte. Onde haviam pessoas correndo, pulando e jogando disco com seus cachorros, agora havia apenas poucas pessoas escondidas em casacos e cachecóis, se escondendo ao máximo dentro das roupas pesadas. Mas eu não precisava dizer nada disso para Ivi. Ela observava as mesmas
cenas enquanto caminhávamos em direção a biblioteca, e provavelmente sentia as mesmas coisas também.
Mas talvez não sentisse o frio na espinha que eu senti ao nos aproximarmos da entrada interditada do agora destruído Vienna.
Um beco nos separava da via principal, que dava para os enormes portões pontiagudos e cercados pela fita zebrada, mas ainda assim, eu me senti perto demais, e não consegui acompanhar as passadas firmes de Ivi que prosseguiu em frente. Aos fundos, as armações pontiagudas do teto das torres e das construções dos brinquedos agora destruídos se pronunciavam inabaláveis no horizonte. Em um momento, toda a reprise se tornou ácido em minha mente, me obrigando a voltar no único momento que eu queria esquecer que havia vivido. Os gritos, coisas caindo, se rachando, partindo-se ao meio, e tudo desmoronando. A voz da jornalista no noticiário no dia seguinte, “Muitos mortos.”, “Não sabemos ainda
qual foi a causa do desastre.”. Assim que a noite ficara conhecida nas redes de
jornais de todo o país. “A Noite do Desastre”. A palavra ecoou em minha mente, se
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repetindo tanto a ponto de me deixar momentaneamente tonta. Desastre, desastre, desastre, desastre, desastre...
Eu devia estar morta. Eu devia...
Um aperto em meu braço me sobressaltou.
Com um leve pulo, dei com os enormes olhos castanhos de Ivi me examinando. Eu estava parada no meio da rua que levava para o beco, com as duas mãos enfiadas nos bolsos, revirando nos dedos o novo pingente que tia Peg me dera.
Soltei o ar, não me lembrando do momento em que o havia prendido. — Tudo bem? — Ivi perguntou.
Chacoalhei a cabeça enquanto suspirava.
— Não. Você sabe que não. Já faz muito tempo que nada está bem.
Os dedos de Ivi afagaram meu braço, e com relutância ela encarou o parque destruído. Ela também parecia ter dificuldades em olhar tudo aquilo.
— Ouvi dizer que ele jamais vai funcionar novamente. Alguns estragos são permanentes e ninguém quer voltar a se divertir no lugar onde desgraças demais aconteceram numa noite só. Essas fitas jamais serão tiradas daí...
Minha voz endureceu alguns tons. — Acho muito melhor assim.
Ivi concordou com um aceno de cabeça. — Acha que existem fantasmas ai?
Sibilei para Ivi.