Biblioteca

1453 Palavras
— Você sabe, — ela se apressou em explicar — Como no Hotel Califórnia. Dizem que as pessoas que morreram presas no elevador, ainda estão lá. Dizem que se você ousar entrar lá dentro, nunca mais poderá sair... — ela cruzou os braços de repente — Credo... aquela musica dos Eagles me causa calafrios... Não consegui impedir que um calafrio de medo também me dominasse. — Não. Não acho que existam fantasmas ai... Eu não queria voltar ao X das questão. Não queria voltar a cutucar no assunto de sempre, não queria voltar a perguntar “Por que você acha que eu não morri”, quando obviamente, deveria ter sido uma das muitas vítimas fatais. Não queria perguntar a ela se achava estranha as coisas que vinham acontecendo comigo por que queria me convencer de que não era nada. Vai passar... — garanti a Caminho das Estrelas 1 FALANGE Christyenne JottaA [49] mim mesma pela milésima vez — Tudo vai ficar bem. Tudo vai ficar perfeitamente bem, como sempre foi... Agarrada a essa esperança mais uma vez, eu quase sorri. — Vamos, — eu a cutuquei com o cotovelo nas costelas. Ivi reclamou — Ainda temos que terminar a nossa coluna HCDF. Ela elevou os olhou para cima, como que agradecendo, e deu meia volta na mesma hora. — Puxa, até que enfim. É tão bom pensar em fazer alguma coisa normal novamente e lembrar que o mundo ainda é completamente normal e nada assustador... Nada de Hotéis da Califórnia e nada de Parques amaldiçoados... apenas uma coluna para nossa escola sobre uma Hanna Cabeça de Fuinha... — ela sorriu aliviada — que vida perfeita... Mas eu ainda não havia conseguido me mexer de meu lugar, e por uma fração de segundos, as palavras de Ivi ricochetaram em minha mente. Parques Amaldiçoados... Mesmo a contra v*****e, meus olhos se elevaram uma última vez em direção aos restos do parque antes de me mover também, e com uma assombrosa disparada no coração, pude jurar que vi uma das cortinas da torre do Castelo da Cinderela se movendo. Arregalei os olhos, engolindo a respiração e acelerando o passo logo em seguida. Tudo vai ficar bem. Tudo vai ficar perfeitamente bem, como sempre foi... Apertei meu novo amuleto da sorte entre os dedos enquanto reforçava a afirmação mentalmente e ignorava a sensação esquisita e desconfortável de frio ao redor do umbigo. — Olá Sra. Hernessa. — Ivi cumprimentou quando adentremos biblioteca a a dentro. — Olá, garotas... — ela cumprimentou sem desviar seus olhos do livro aberto a sua frente. Hernessa era uma velha sem rugas dos cabelos quase brancos, que usava óculos quadrados e muito grandes para seu rosto pequeno e pálido. Ela já estava acostumada com a nossa presença constante na biblioteca, o que já era de se esperar, considerando que os amontoados de mesas redondas estavam sempre vazias e sem vida. Se não fosse por nós duas, provavelmente áquea biblioteca já havia fechado por falta de uso há muito tempo. Ivi gostava de procurar sinônimos Caminho das Estrelas 1 FALANGE Christyenne JottaA [50] nos livros, saber mais sobre os lugares dos quais escrevia, saber mais dos assuntos sobre os quais falava, e por isso suas matérias eram sempre impecáveis. Ivi era a melhor colunista de todos os tempos do jornal George’s Cometa. Fora que o ar quente do sistema de ar condicionado do local convidava qualquer um a ficar ali o dia todo. Suspirei de satisfação enquanto tirava o casaco mais pesado e o descansava no encosto de uma das cadeiras da nossa mesa preferida. Ivi depositou seus materias de trabalho em cima da mesa e também tirou seu gorro, luvas e blusas. — Seria tão mais incentivador se nossa sala de aula também tivesse ar condicionado... — ela se lamentou, a ponta de seu nariz completamente vermelha. — Pena que nenhuma alma piedosa pensou nisso ainda... — ela caiu na cadeira com um suspiro, e me alojei a sua frente. — Eu concordo. Ela sorriu ao me olhar novamente. — Então, já se decidiu o que vai querer de presente de aniversário? Eu apenas sorri de volta, chacoalhando a cabeça. — Vamos... sabe que não vai poder fugir disso para sempre... mamãe já está trabalhando nos preparativos de sua festa, e não diga que não, — ela apontou o dedo para meu nariz assim que percebeu que eu estava prestes a negar — por que essa festa vai acontecer da mesma forma... lamento. Chacoalhei a cabeça novamente. — Ivi, você sabe que eu não gosto de festas... eu preferiria apenas ver um filme e comer um cupcake. Ela rolou os olhos. — Por que os librianos tem que ser tão infernalmente teimosos? — Por que temos o nosso próprio mundo... — eu brinquei enquanto ela sorria, abrindo sua agenda de anotações. — Tanto faz... apenas escolha seu presente a tempo de eu poder comprá-lo. — E qual seria a graça? A graça de receber um presente está em não saber qual é o presente. Aí você abre a caixa e faz aquela cara de surpresa. Essa é a essência de ganhar um presente. — eu pisquei para ela. Ela entortou uma sobrancelha. — Desde quando você aprendeu a ser tão sarcástica? — Ontem. Caminho das Estrelas 1 FALANGE Christyenne JottaA [51] Ivi chutou meu tornozelo por baixo da mesa. — Ora, vamos lá... deixe-me trabalhar. Eu sorri enquanto me espreguiçava na cadeira. Eu não seria de grande ajuda enquanto apenas a olhava enquanto ela escrevia e colocava sua mente brilhante para trabalhar, de forma que mirei as fileiras de livros e me dirigi para qualquer uma delas. Eu gostava desses momentos. Momentos em que eu não precisava pensar em nada, nem precisava me lembrar de nada desagradável. Ali, eu podia ser qualquer pessoa que eu quisesse. Eu gostava de bisbilhotar nos livros, eu gostava de descobrir coisas novas, fatos que eu não conhecia... gostava apenas de esquecer que eu vivia em uma dimensão completamente diferente. Nesses momentos eu não precisava me preocupar com quem eu era ou como andava minha vida. Nesses momentos eu podia apenas esquecer. Os livros empoeirados estavam quase em decomposição nas prateleiras velhas, pelo seu pouco uso. Eram essas prateleiras que eu preferia. Andei mais algumas fileiras, procurando pelos títulos mais velhos possíveis, aqueles que provavelmente não eram abertos a anos. Deslizei pelo carpe cor de creme da biblioteca, m*l escutando meus próprios passos surdos enquanto tateava as capas poeirentas com folhas amareladas. Uma enciclopédia sobre Gatos, Recortes do Mundo dos Répteis, Um Abecedário das Feras mais Perigosas do Planeta, Cinco Curiosidades da Galáxia, Uma Verdade Sobre Raios, Consequências de Uma Tempestade, O Significado de um Trovão, Os Elementos Naturais, Substância do Fogo... Arqueei as sobrancelhas, curiosa, percebendo que eu nunca havia estado naquela estante de livros antes. Era a última fileira, na estante mais retirada do restante da biblioteca. Muito aos fundos, eu podia visualizar Ivi debruçada sobre sua agenda, visivelmente distraída com sua matéria, e Hernessa nem piscava enquanto corria os olhos por seu livro, absorta em sua leitura. Me pus de joelhos, acompanhando com os olhos o restante dos títulos mais próximos ao chão. Havia tanta coisa que parecia absurda, mas parecia ter uma dose de fundamento. Havia até um encarte dos Sete Pecados Capitais. Chacoalhei a cabeça, me abaixando mais enquanto tentava acompanhar cada título de livro com os dedos. Um Guia Completo sobre A Ordem chamou minha atenção, fazendo com que eu me arqueasse mais, no mesmo instante que a luz em cima de minha cabeça piscou por um instante. Com um sobressalto, me esquivei com o susto, Caminho das Estrelas 1 FALANGE Christyenne JottaA [52] empurrando sem querer a fileira de livros, que despencou silenciosamente para o lado, abrindo uma espécie de pequena passagem para o interior da estante, bem aos pés da enorme prateleira. Aquela pequena parte colada ao chão, que sustenta toda a estrutura da estante, aquela que todo mundo acha que é selada. Mas aquela não era. A madeira havia caído aos meus pés, revelando a textura áspera e empoeirada de um encarte volumoso e escuro. Apreensiva, levantei a cabeça para visualizar Ivi e Hernessa, mas ambas estavam longe demais para terem consigo captar o barulho. Estiquei o braço para pegar o livro, o parando no meio do caminho enquanto mordia os lábios, com aquela sensação esquisita de que eu estava fazendo alguma coisa que não devia. E devia mesmo. Por qual outra razão aquele livro estaria escondido? Ou talvez... talvez tivesse apenas sido esquecido ali quando construíram a enorme estante de livros... talvez tivesse caído e permanecido ali... talvez... talvez eu apenas não devesse mexer. Mas minha curiosidade era maior e se sobrepunha a qualquer pensamento. Dane-se...
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