Alcancei o livro pesado, o encaixando em meus dedos e o arrastando das sombras. Seu peso denunciava suas muitas páginas, e sua estrutura atemporal denunciava seus muitos séculos de existência. O que uma coisa daquelas fazia escondida em uma das estantes da biblioteca? Haviam três trancas em forma de cinto entrelaçadas na estrutura do livro, e as letras em alto relevo se sobrepunham a imagem danificada de uma balança, “O PUNHO DE CINCO DEDOS, A ORIGEM”. Meus olhos dançaram pelas dimensões esquisitas do livro, saboreando
o momento em que eu tentava abrir as trancas complicadas e um tanto
enferrujadas, como se a qualquer momento, o livro fosse pular de meu colo e sair correndo.
Suas páginas eram grossas e amareladas, com um aspecto engordurado e manchado. Havia um cheiro desagradável de mofo se desprendendo das linhas escuras traçadas com algum tipo muito velho de tinta. Um símbolo estranho ocupava todas as páginas, uma espécie de catavento de três pontas, torcido para dentro nas extremidades, dividido em três espirais no sentido anti-horário, ligados
a um triângulo pequeno no centro. O símbolo esquisito chamou minha atenção,
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junto com mais um segundo título entrelaçado em si, recriando o nome do livro, “O Punho de Cinco de Dedos, A Origem”.
Os textos que se seguiam nas próximas páginas, eram repletos de símbolos estranhos e rabiscos que pareciam ter sido extraídos de textos muito antigos, como
se tivessem sido traduzidos ou recriados.
“Caminhantes das Estrelas
Os Maoris sempre consideraram as estrelas uma p******o poderosa contra o m*l. Elas se relacionam de forma direta com a ida dos guerreiros a batalha. Povos como os nativos da Nova Zelândia, sempre tiveram suas portas decoradas com astros,
simbolizando a p******o e a arte. Assim como guerreiros marcados mediando entre o a terra e o Mundo de Cima, pois as tatuagens são mais que um amuleto, são a essência de
cada Caminhante, que se põe entre os tangata whenua e as trincheiras do
....
”
Um arrastar de cadeira me fez erguer os olhos, ansiosa por algum motivo. Era apenas Ivi se ajeitando em sua cadeira. Ela enrolou seu cabelo em um coque, enfiando um lápis no meio enquanto se dependurava melhor na cadeira. Depois de
um suspiro, ela virou a folha e continuou a escrever. Apressei minha leitura folheando as páginas do livro e dando uma olhada rápida nos símbolos pintados
nas descrições. Arqueei as sobrancelhas ao me deparar com um desenho em particular da deusa da Justiça, a deusa Têmis. Com os olhos vendados, ela segurava
a balança com a mão esquerda, e a Espada com a direita. As descrições do desenho eram muitas, espalhadas pela folha desbotada, e entre elas, apenas algumas frases saltavam em minha direção. “Pesado na balança”, “Pese na balança, e veja qual lado
pesa mais”, “Pesado fostes na balança, e fostes achado em falta.”.
A medida que ia virando as páginas, ia me deparando com símbolos, símbolos e mais símbolos. Algo em tudo aquilo me fazia querer gritar. Quando dei
por mim, eu já estava sentada no chão, com as pernas cruzadas em estilo borboleta,
com o livro no colo, o cabelo desgrenhado e o pescoço dolorido.
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“Os Maoris sempre viveram numa r*****o íntima e estreita com a natureza, por
isso plantas e animais faziam parte dos rituais e do cotidiano desse povo. Outra importante contribuição da cultura Maori, é no tocante ás tatuagens...”
— Ei, Eve, pode vir aqui por um momento? — a voz sinfônica de Ivi cortou o silêncio da biblioteca, chegando até mim como o disparo de uma a**a, me fazendo sobressaltar-me em meu lugar.
— Ahn... estou indo.
Fechei o livro ás pressas e ponderei sobre onde guardá-lo. Depois de pensar
por alguns instantes, o enfiei em seu lugar de origem, me pondo de pé e chutando
a lasca de madeira em seu lugar de origem, o trancando novamente dentro da estante de livros. Se era ali que ele devia estar, era exatamente ali que ele permaneceria.
Cai a sua frente na mesa novamente, ainda tonta com a imagem de tantos símbolos, tentando focar minha atenção em alguma coisa normal outra vez. Talvez normal como a embalagem amassada de um sonho de valsa que Ivi havia acabado
de descartar no tampo da mesa, a arremessando para perto de mim. Ignorei como
as coisas ao meu redor pareciam girar. Talvez eu devesse procurar um hospital psiquiátrico no fim das contas. Não há nada de anormal em admitir que de repente, você já não se sente mais normal. Concentre-se, implorei a mim mesma, batucando o tampo da mesa enquanto perguntava a Ivi qual era o problema. Ela
não notou meu estado torpe, apenas ergueu seu caderno a frente de seu rosto enquanto analisava sua resenha.
— Que tal isso: nossa h*****a com certeza prefere ficar o dia todo ouvindo
Justin bieber do que se dignar a estudar pelo menos três minutos por semana de algo sobre geografia, razão de ela ter tirado um zero tão redondo com o Sr. Encharpe numa prova surpresa, dá desculpas de ensaios da Turma de Animadoras
de Torcida justamente no dia do treino dos Tigres da ASAGL apenas para poder ver nossa estrela do time de basquete, Itham Metodins, em seus abdominais sem camisa... e olha só! — ela completa com um ar chocado, como se estivesse contando
um segredo que ninguém suspeitaria que um dia ouvisse — Parece que pelo menos
um terço de todo aquele cabelo cheio de gliter é apenas aplique, como afirma sua cabeleira particular, Emêraise Chostak! — ela sorriu triunfante, erguendo as sobrancelhas com um ar de vitória.
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Não consegui impedir o riso.
— Parece que você se sai muito bem nessa coisa sem mim — admito —, e de
onde tirou a história do aplique de cabelo, afinal de contas?
Ivi deu de ombros, com um certo orgulho desenhado em suas feições faciais
muito limpas e bonitas.
— Ah, você sabe. Tenho meu jeito de descobrir coisas; aliás, essa é velha...
acho que eu estava apenas esperando por uma boa oportunidade de usar essa informação. E que oportunidade melhor do que uma coluna no jornal da escola?
Eu sei, menos Gringer, apenas sei que sou estupendamente brilhante! — ela deu um beijo estalado na ponta dos dedos, um segundo antes de um espirro poderoso abalar toda a sua estrutura esteticamente ruiva. — Raios! — ela xingou.
Analisei seu trabalho por um instante, pensando em todas as coisas horríveis que Hanna poderia nos fazer se sentisse pessoalmente ofendida.
— Acha que ela vai se ofender? Sabe, por ter chamado ela de burra e de assediadora s****l pervertida?
Os cantos da boca de Ivi se abaixaram um pouco.
— Provavelmente? Talvez apenas pela história do aplique mesmo... talvez
devêssemos acrescentar apenas que a loja que ela frequenta está lhe vendendo minissaias cada vez maiores... você sabe, pela massa que ela está acumulando gradativamente na cintura...
Foi o momento em que eu verdadeiramente ri, lembrando-me de tê-la chamada de gorda ainda naquela manhã, no momento em que ela quase me assassinou com sua bolsa de quinhentos dólares.
— Essa foi boa, — gesticulei para Ivi — Talvez ela realmente se sinta ofendida...
— Obrigada, mas o gênio aqui foi você, Eveline. Afinal de contas, foi ideia
sua chamá-la de balofa na frente da classe inteira...
— E o que mais eu podia fazer? Adolescentes traumatizadas pela t*****a
constante de uma chefe de torcida tem que aprender a sobreviver num mundo como a Academia...
Ivi da um meio sorriso.
— Itham a odeia por isso. Ele jamais se envolveria com aquela ratazana. Caras como Itham tinham o que chamamos de “status indesejável”, ou seja,
ele era o galã sem querer realmente sê-lo, e podia ter qualquer garota que quisesse, entre elas a garota mais popular da escola, Hanna, mas ele apenas fingia que nada
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do que acontecia ao seu redor tinha realmente algo a ver com ele. E Itham era o tipo de garoto que tinha o coração puro demais para sequer olhar para alguém como Hanna. Eu o admirava muito por isso. Qualquer outro garoto estaria usufruindo de sua posição de maneira bem pouco honesta.
— Eu sei, — dou de ombros — e fico feliz por saber disso. Itham merece coisa melhor.
O olhar de Ivi se estreitou um pouco em minha direção, a fazendo se debruçar sobre o tampo da mesa enquanto batucava a ponta do lápis no tampo da mesa.