A Magia do Caos

1750 Palavras
— A Magia do Caos, Chaos Magic ou Caoísmo, é uma forma de ritual e magia relativamente nova, utilizando-se de quebras de paradigmas e alterações do estado de consciência (hora de formas excitativas, hora de formas inibitórias). Como técnicas gnósticas, mediativas, sufis, orgásticas ou, com uso de substâncias psicoativas. Os praticantes acreditam que podem modificar a realidade através desta forma de magia... — ela ergueu os olhos — O que tem a nos dizer sobre isso, Srta. Winchester? — Pergunte a Eve... ela sabe tudo sobre bruxaria. Ignorei os risos ao meu redor, fechando os olhos com força e resistindo a vontade de bater com a cabeça no tampo da mesa, como normalmente teria feito em outras circunstâncias. — O que quer dizer com isso, Srta. Winchester? — Ora, a senhora não sabe? — Hanna levou as mãos ao coração como se isso fizesse parte de uma peça teatral de segunda, combinando o gesto com sua voz fingidamente melosa e solidária. — Do que exatamente está falando, Srta. Winchester? — Do Desastre... — Hanna disparou, e senti meus músculos se retorcendo sobre a menção de sua crítica — No Parque de Diversões... ao que parece, Eve ficou soterrada nos escombros do túnel do terror, e diferente do que todos esperavam quando a encontraram, ela estava viva, mesmo que devesse ter partido a cabeça ou qualquer coisa mais nojenta que isso... Caminho das Estrelas 1 FALANGE Christyenne JottaA [66] — Cale a boca, sua estúpida! — a voz de Ivi cortou o lamento de Hanna, antes mesmo que eu pudesse perceber que meus dedos se agarravam com força as veiradas da certeira, e que meus olhos começaram a se encher de água. Mas Ivi havia percebido, transformando sua reação estupefata em uma fúria assassina. — Meninas, acalmem-se... — a diretora interveio, não que Ivi ou Hanna fossem realmente lhe dar ouvidos. — É melhor ser estúpida do que uma nerd s*******o que anda junto com uma esquisitona que não morre! — Hanna cuspiu. — Qual é o seu problema? Fala sério! Ou você cheira cocaína ou é mesmo muito perturbada! — foi a vez de Ivi cuspir — Ah, espere, ou talvez você esteja apenas sendo você mesma. E eu tenho uma palavra significativa para isso. Começa com V e rima com Vaca. A sala caiu na gargalhada, mesmo sob os protestos da diretora, e o bate boca foi inevitável, e mesmo que eu estivesse tentando me levantar e falar alguma coisa, alguma coisa forte o suficiente que atingisse Hanna de uma maneira chocante a ponto de ela parar de tentar me ferir, eu não conseguia desfazer o bola que havia se formado em minha garganta, e também não conseguia evitar que meus olhos ardessem... tanto de raiva quanto de umidade. — Viu só? Estou falando, Sra. Trevor, Eveline Gringer está envolvida com magia! Ouvi minha mãe falando que a tia dela é uma feiticeira vodu que sacrifica galinhas no quintal todas as noites! — Claro — Ivi zombou — Talvez você seja a próxima escolhida da lista esta noite! Aliás, por que você não vai arranjar um emprego no Rei do Hambúrguer, fritando em alguma frigideira ao invés de perder seu tempo aqui? — Não negue, Ivileine! — Hanna insistiu enquanto eu tentava digerir o atentado contra a única família que eu tinha, contra a única coisa que me sustentava nesta terra. Em menos de meio segundo, a mágoa já havia se transformado em raiva, e evaporava quente por meus poros enquanto Hanna insistia em sua teoria. — A família dessa esquisita está envolvida com magia! Como mais você explica que ela esteja viva depois de um túnel ter caído em cima dela? Como você explica... Mas então Hanna parou de falar. Por que de repente, uma das luminárias se desprendeu do teto e se rachou em cima da cabeça dela. Caminho das Estrelas 1 FALANGE Christyenne JottaA [67] Molhei os pulsos na torneira do bebedouro enquanto sentia a água gelada se chocar de forma tensa com minha pele quente. Você precisa se acalmar, você precisa se acalmar, você precisa se acalmar, você precisa... Eu não sabia como Hanna estava, mas provavelmente ainda estaria na enfermaria cuidando da cabeça. Não que ela não merecesse ter a cabeça aberta por alguma luminária pesada, mas uma parcela de culpa ainda me dominava. Eu não sabia como, realmente não sabia, mas algo me dizia... bem, que havia sido minha culpa. Era i****a. Como eu poderia conseguir fazer qualquer coisa como essa? Como eu poderia fazer com que uma luminária caísse na cabeça de Hanna Winchester? Eu não fazia a mínima ideia, mas que outra explicação haveria? Haviam coisas demais acontecendo na minha vida para que eu não duvidasse que tivesse sido a culpada pelo acidente. Depois de Hanna ter sido levada aos berros para a enfermaria, eu apenas conseguia pensar em quão estranho tudo aquilo era. Até mesmo Ivi havia me lançado um olhar surpreso, e não aguentando mais ficar sobre os mesmo olhos que haviam presenciado Hanna me humilhando, também corri da sala e me enfiei nos banheiros, e fiquei lá por lá mesmo até a hora em que o sinal para o intervalo soou. Não que a diretora tivesse reparado no meu sumiço com todo o fuzuê da cabeça machucada de Hanna, mas ainda assim Ivi havia tentado me animar a voltar para a sala, mas me negando a contar a Ivi que eu achava ser a culpada pelo acidente, apenas a convencia de que eu estava bem, apenas muito envergonhada por tudo que Hanna havia dito sobre mim e minha família. É claro que Ivi me entenderia nesse aspecto, por isso, me deixou em paz até que o sinal soasse para o nosso intervalo, onde saí apenas alguns minutos com Ivi, e onde me neguei a comer qualquer coisa. Agora, na próxima aula, de educação física, a caminho do ginásio, eu havia dado um tempo nos bebedouros, o único lugar vazio naquela hora em que eu tinha certeza de que não seria incomodada. Eu não queria Caminho das Estrelas 1 FALANGE Christyenne JottaA [68] participar da aula... na verdade, não queria mesmo era ficar nem mais um segundo naquela escola. A ideia de ligar para Havana vir me buscar já havia se passado mais de mil e quinhentas vezes pela minha cabeça, mas aí eu lembrava que minha mãe poderia estar ocupada demais, e o que exatamente eu diria a ela? Eu queria Havana longe de meus problemas. Ela já tinha coisas demais para se preocupar. Não precisava também saber que sua única filha era um fracasso na escola. E também não precisava saber das coisas horríveis que Hanna havia dito sobre nossa família. Suspirei enquanto fechava a torneira, secando meus pulsos e descendo as mangas do suéter novamente, um segundo antes de um frio esquisito percorrer minha nuca. — Você estava lá. Com um sobressalto, levantei a cabeça numa fração de segundos, me jogando para trás com o susto. Havia uma sombra projetada na entrada dos bebedouros, que se moveu alguns passos, e só então reconheci as tatuagens escuras e os olhos verdes. Maravilha. As botas escuras de motociclista se moveram alguns poucos passos em minha direção, e havia algo de zombeteiro em seu olhar, algo que fazia meu estômago se transformar em água com gelo. Ele era, definitivamente o tipo de cara que fazia você querer olhar mais de duas vezes, mas que ao mesmo tempo, preferiria não estar sozinha com ele num ambiente fechado. — O que quer dizer? — encontrei um fiapo de minha voz enquanto recuava alguns passos, tentando não me concentrar no modo como sua boca redonda se abria levemente para avaliar minha reação. — Onde eu estava? — Você sabe do que eu estou falando... no Vienna, na noite do famoso desastre. Sua voz macia era tão boa de se ouvir, que resisti a v*****e de fechar os olhos e apenas escutar. i****a. — Todos estavam... — dei de ombros, tentando fingir normalidade e indiferença, quando toda minha v*****e me impelia a sair correndo dali — Você também veio me chamar de bruxa? Ele mordeu os lábios enquanto me avaliava com seu olhar divertido, e percebi que ele carregava uma corrente parecida com a minha, a não ser pelo fato Caminho das Estrelas 1 FALANGE Christyenne JottaA [69] de o pingente ser totalmente n***o, combinando com o tom de seu cabelo escuro, que apontava sensualmente em todas as direções. — Eu não correria o risco... — ele sentenciou. — Só estou... curioso. Ouvi dizer que foi a coisa mais macabra que já aconteceu por aqui. Dei de ombros. — Você não estava lá? É curioso considerando que a cidade toda estava. Ele observou minha reação com atenção enquanto semicerrava os olhos verdes, e eu notava que seus cílios eram cumpridos e escuros, e eu torci mentalmente para que ele não estivesse notado a forma como minhas mãos tremiam. Por que eu estava tremendo. E estava nervosa. E algo me dizia que não tinha nada a ver com o modo como sua roupa, sobretudo a calça jeans escura, parecia se ajeitar e se moldar aos lugares certos de seu corpo. — Digamos que eu estivesse... dormindo. — ele explicou de modo zombeteiro, como se só ele soubesse o significado da piada — eu só cheguei aqui depois. Estou... apenas de passagem. Achei interessante a sua a sua história, só isso. Mesmo nervosa, não consegui impedir que um riso sem emoção saísse enroscado da minha garganta. — A parte da minha quase morte ter algo a ver com bruxaria, como supôs Hanna? E me arrependi instantaneamente. d***a. Eu nem conhecia aquele cara. Eu tinha medo dele. Não podia estar batendo um papo com ele no bebedouro da escola como se o conhecesse e como se ele não me assustasse. — Não devia se importar tanto com o que aquela garota fala... — ele desaprovou, voltando a avaliar minha reação. — Pra você falar é fácil, não é você que teve sua vida infernizada por uma animadora de torcida convencida... provavelmente ninguém nunca te infernizou a ponto de te enlouquecer não é? Não era uma pergunta, mas mesmo assim ele analisou minhas palavras por um breve instante, e o olhar zombeteiro desapareceu. — Eu não apostaria nisso. Algo na forma como ele disse aquilo me incomodou, me fazendo encolher onde eu estava. Fora que aquelas tatuagens de garra que cortavam o seu pescoço deixariam qualquer um apreensivo. Recuei mais um passo antes que pudesse perceber.
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