— Você não devia estar na aula de Educação física com os outros? — me ocorreu perguntar.
— Eu podia perguntar a mesma coisa... — ele ergueu uma sobrancelha escura, dando de ombros com a ajuda de seus p****s poderosos.
— Pode ser... mas acho que eu perguntei primeiro...
Notavelmente surpreso pelo modo rápido com o qual o abordei, ele enfiou as
mãos nos bolsos da calça, parecendo estar se divertindo bastante com a situação. — Digamos que eu apenas não goste muito de jogar basquete. Acho que não
faz o meu tipo. O jogo me irrita, e não gosto de ficar irritado por que... bem, as coisas ficam meio quentes. — ele novamente parecia estar fazendo alguma piada particular, que eu claramente não entendi.
— Quentes? — minhas sobrancelhas se ergueram.
— Algumas pessoas usam a expressão “O circo pode pegar fogo”...
Ok, ele estava definitivamente tirando com a minha cara. Agora, ele me avaliava enquanto passava o dedo indicador pelo lábio inferior, e tentei ignorar a forma como seus olhos passeavam por mim, por que isso estava apenas fazendo com que eu tremesse ainda mais. Só uma garota i****a se assustava tanto um cara,
mas tudo bem. Eu era essa garota i****a.
— Olha eu... eu tenho que ir... — gaguejei enquanto dava alguns passos e então visualizava a única saída que ele bloqueava, mas ele não se mecheu.
— Algo me diz que você não vai para o ginásio.
— Isso eu ainda não decidi... agora, poderia me dar licença? — parei a alguns
centímetros de seu braço tatuado, pedindo gentilmente para passar.
Ele virou o corpo, ficando de frente e deixando apenas uma fina passagem,
onde me obriguei a passar, tentando ignorar sua proximidade intimidante enquanto saia do bebedouro.
Já no corredor e livre de sua influência, suspirei aliviada, piscando enquanto tentava recuperar a postura. Qual era o meu problema afinal de contas? E daí se o
cara era simplesmente um deus em pessoa? Eu não podia me deixar afetar dessa forma. O que ele pensaria quando percebesse que eu tinha tanto medo dele? Provavelmente, o que ele pensava não me importava, considerando que eu só podia pensar em ficar o mais longe que pudesse
....
por que era isso que eu tinha que fazer. Havia... alguma coisa certa demais nele. E isso definitivamente significava encrenca.
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Eu ainda estava pensando nisso quando corri para a sala pegar minhas coisas, e então, antes que pudesse pensar nas consequências do que estava fazendo, sai da escola.
Era i****a, eu sabia. Teria que caminhar muito até chegar em casa, mas qualquer coisa deveria ser melhor do que ficar na minha sala depois do que havia acontecido. Eu não podia deixar que um verme como Hanna me afetasse daquele
jeito, mas eu não conseguia evitar. Hanna sempre saberia como ferir, e nunca ia haver nada que eu pudesse fazer para impedir. A não ser sair correndo da escola.
O sol me acertou quando sai pelos portões da Academia, lamentando que a escola ficasse tão longe de casa e da cidade.
Mas mesmo assim, a fúria por tudo que havia acontecido me impeliu a caminhar, deixando a Academia para trás em poucos minutos. A estrada naquele trecho era completamente deserta até desembocar na cidade, já que a Academia ficava em um terreno próprio próxima as colinas. Não haveria nem um ponto comercial e nem mesmo qualquer pessoa viva pelas próximas três horas para conversar. Pelo menos, foi isso que conclui que precisaria até chegar na cidade, e depois, talvez mais uma hora para chegar até em casa.
Não que a temperatura estivesse quente, mas a caminhada começou a me esquentar, me obrigando a tirar o suéter branco.
Droga.
Enquanto eu vencia a rua deserta, comecei a me perguntar se havia sido uma
boa ideia, considerando que eu não estava com os melhores tênis para caminhada, e considerando que eu não havia pensado em quantos maníacos poderiam ter na rua àquela hora...
Você só pode ser mesmo muito idiota... — eu me acusava em pensamentos enquanto ouvia o ronco de um carro se aproximar, e meu coração disparava. d***a. Diante da possibilidade de poder ser um assassino ou um p********o qualquer no volante do carro, a ideia de ir caminhando para casa não me pareceu
mais tão inteligente, percebendo que eu estava vulnerável a quem quer que fosse que me abordasse agora.
Ignore o carro. Faça de conta que não está com medo... Mas eu estava morrendo de medo.
Apressei o passo, mesmo sabendo que isso seria inútil, e senti meu coração batendo nos ouvidos quando ao se aproximar, o carro diminuiu a velocidade.
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Não, não olhe, não olhe, não olhe...
— Se você pelo menos tivesse dito que queria uma carona, eu poderia ter lhe
oferecido uma... — a voz saiu de dentro do carro, flutuando até mim em forma coesiva.
Levantei o rosto. d***a. Não era um assassino e nem um p********o. Era muito, muito pior. O garoto das tatuagens estava no volante de uma Land Rover escura, que me acompanhava a três quilômetros por hora. Mas eu estava chocada demais para parar de andar agora. Até por que caminhar sozinha por uma rua cheia de bares a noite era muito mais seguro que entrar em um carro com ele.
E eu estava definitivamente apavorada.
— O que você está fazendo? Sabia que pode ser expulso da academia já no seu
primeiro dia por fugir?
— Sério? E o que você está fazendo de tão diferente? — o carro continuou me
acompanhando enquanto eu caminhava.
— Isso é... diferente... — rosnei enquanto acelerava o passo — Eu não podia
ficar lá.
— Entre, eu a levo para casa.
— Ahn, não obrigada. Eu posso ir andando...
— Não seja i****a. São cinco quilômetros até a cidade. Você n******e ir
caminhando.
—Bem, observe.
O garoto bufou. Realmente eu o estava irritando. E ele não gostava de ficar irritado por que as coisas ficavam quentes.
— Não seja teimosa, entre no carro. Não sou exatamente a pessoa mais indicada para te dar carona, mas não tenho opção.
— Eu já disse que prefiro ir andando...
E antes que eu pudesse terminar a frase, o carro guinchou ao parar pelo
poder do freio de mão, e em menos de um segundo, a porta havia sido aberta, e o garoto já estava me barrando com seu próprio corpo, os olhos verdes penetrando nos meus de todas as formas e maneiras possíveis.
Talvez isso tenha feito meus tornozelos tremerem, por que travei na hora. — Eveline, entre nesse carro agora mesmo.
Talvez algo em seus olhos sugerisse que ele me socaria no banco de trás caso eu não o fizesse por conta própria, de forma que engoli em seco e entreguei os
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pontos, caminhando para o outro lado da Land Rover. Se havia uma hora específica para realmente sentir medo, a hora era agora. E mesmo que a forma como ele dissera meu nome tenha feito minha garganta se trancar, eu ainda não tinha certeza se queria realmente vê-lo irritado comigo. Talvez vê-lo irritado e quente fosse pior, no fim das contas...
Já dentro do carro, tentei ignorar a forma como minhas mãos tremiam, e tentei achar uma forma de me acalmar, uma forma que não tivesse nada a ver com
me agarrar ao banco, pelo menos. O garoto dirigia em silêncio ao meu lado, e apenas as nossas respirações denunciavam que haviam duas pessoas vivas dentro do carro.
— Você sabia meu nome. — foi a única coisa que meu brilhante senso de comunicação soltou, dentre todas as outras coisas que eu poderia falar.
Ah, palmas para Eve! — Por acaso eu ouvi.
Ele devia estar se referindo ao aglomero na sala de aula, onde eu havia sido subjugada aos poderes dissuasivos ludibriadores de Hanna. Certo, nada m*l. Ele já sabia que eu era a aberração da academia, o que mais?
Depois de alguns segundos em silêncio, ele finalmente quebrou o gelo. — O que aconteceu naquela noite?
Céus... de onde vinha aquela voz? Era profunda, rouca, macia, aveludada, musical, tudo ao mesmo tempo. Mas eu não pude fantasiar com seu timbre impressionante por muito tempo, por que eu tinha muita consciência de que a palavra perigo parecia berrar em todas as direções quando meus olhos esbarravam
no perfil de sua imagem. Era i****a, mas era como se um alerta vermelho invisível tivesse disparado em minha mente desde o primeiro momento em que o vi parado nas escadarias da academia.
— Que noite? — minha confusão era evidente, o que não era exatamente minha culpa. Quero dizer, a garota tinha que ter uma coordenação motora muito
boa para conseguir pensar, falar e respirar ao mesmo tempo enquanto ele estava por perto.
E eu definitivamente havia descoberto não ser essa garota. Ponto para mim. Mais um motivo para me manter longe, quão logo pudesse pular daquele carro, pelo menos.
— Você sabe... a noite do Desastre.