Desastre

1650 Palavras
Então a ficha caiu. Afinal de contas, ele se mostrara interessado pelo assunto desde o início, não é? Relaxei mais no banco, deixando meus pulmões descerem descansados, desfazendo minha postura rígida enquanto respirava fundo. Minha coluna agradeceu. Talvez ele realmente não quisesse me esquartejar e nem nada, mas só quisesse realmente saber sobre o acidente no Vienna. Claro. Por que mais um garoto me ofereceria carona? Ou por que mais viria falar comigo logo no primeiro dia de aula? Me limitei a dar de ombros de forma uma pouco mais relaxada, porém ainda nervosa. — Bom, se você realmente quer saber o que aconteceu naquela noite, eu sou a pessoa errada a quem perguntar. Tipo, a menos indicada. Ele arqueou as sobrancelhas escuras. — Você não estava lá? — Estava. — Então basta me dizer o que viu. Ofeguei. Certo. Eu realmente não queria entrar nesse assunto agora. Ainda mais com ele. Cara... já era difícil o suficiente falar disso com Ivi... — Esse é o problema — resolvi desembuchar tudo de uma vez, de forma clara para não precisar repetir. — Você ouviu sobre o que aconteceu comigo. O que Hanna disse tem apenas um fundo de verdade, a parte na qual fiquei soterrada.Devo ter... batido com a cabeça em alguma coisa... eu não sei, o fato é que, quando acordei, não conseguia me lembrar de nada. Nada desde o momento em que as estruturas do parque começaram a balançar... — me dei por satisfeita ao chegar ao fim da narrativa. — Se você quer mesmo saber sobre o que houve, vai ter que perguntar a outra pessoa... considerando que a cidade toda, praticamente, estava lá... Ele analisava o que eu tinha dito enquanto entrávamos na rodovia. — Está me dizendo que houve um terremoto? — ele ignorou a parte em que lhe pedi para consultar outra pessoa, que não tivesse desmaiado e nem tivesse tido uma experiência de quase morte. — Bom... foi o que eu senti... eu acho... — naquelas alturas, eu não tinha mais certeza de nada — Quero dizer, como você explicaria a forma que o parque todo desmoronou? Caminho das Estrelas 1 FALANGE Christyenne JottaA [75] Claro que só podia ter algo a ver com placas tectônicas, por mais que o garoto não parecesse exatamente convencido ao meu lado. — Então simplesmente acordou sem memórias? — Por que você está tão interessado nisso? — a pergunta rude saiu antes que eu me desse conta. A sombra de um sorriso fraco e zombeteiro se formou em seus lábios antes que pudesse realmente aparecer. — Acredite... eu não estou nem um pouco interessado. Apenas curioso. Só... — ele lutou para encontrar a palavra certa — tenho que estar... Enquanto lhe informava que morava no lado sul da cidade, pensei em lhe perguntar algo normal, do tipo que duas pessoas normais conversariam enquanto estivessem dentro de um carro. Mas bastava olhar a cena para saber que não havia nada de normal ali... Mas não custava nada tentar. — Então... de onde você foi transferido? Quer dizer, onde você morava antes daqui? — tentei fingir normalidade, mesmo tendo consciência de que eu parecia uma i****a, não conseguindo enquadrar de forma correta as palavras. Era como se eu estivesse apenas jogando um monte de palavras e torcendo para que ele captasse o sentido do que eu estava querendo dizer. Era angustiante não ser um gênio fora da sala de aula. — Acho que eu só quis perguntar de onde você veio... — remendei, me sentindo a pessoa mais otária do mundo. Mesmo assim, ele pensou um pouco antes de responder. — De longe. Tão longe quanto você possa imaginar. Certo. Uma grande resposta evasiva. Que bônus. Eu tinha a sensação de que nem Ivi, com seus dois metros e meio de língua conseguiria arrancar alguma coisa dele. Que ótimo. Ele se sentia a v*****e em saber de minha quase morte, mas não me revelava nem mesmo de onde tinha vindo. Não que me importasse de fato, mesmo sendo injusto... — Certo, eu não vou perguntar novamente. — Eu me sentiria grato. — Ótimo. — Ótimo. Caminho das Estrelas 1 FALANGE Christyenne JottaA [76] Eu o socaria se não estivesse tão relutante em chegar mais perto do que eu estava... ou seja, com a cara quase grudada nos vidros da janela da porta ao meu lado. — Eron. — ele disse de repente. Me virei atordoada para ele, piscando enquanto tentava entender o que ele disse. — O quê? — Meu nome é Eron. Para o caso de você precisar saber... Eu ia soltar mais uma pergunta b***a, do tipo “por que eu ia precisar saber do seu nome?”, quando percebi que já havíamos entrado de fato da rua dos salgueiros. Pedi para Eron parar o carro, usando a desculpa de que não queria que minha tia me visse desembarcando do carro de um menino. Não que não fosse verdade, principalmente quando esse menino era alguém como Eron. Mas lá no fundo, acho que eu só não queria que ele soubesse exatamente onde ficava minha casa... — Bem... — interpelei, o observando vigiar a rua dos dois lados enquanto pousava os dois braços musculosos no volante. Eu era péssima com essas coisas. —, quero dizer, obrigada. Pela carona. Foi estranho, mas parece que decidi confiar em você... — Dizem que pessoas inteligentes jamais cometem o mesmo erro duas vezes. Eu pisquei para ele. Não sabia se minha expressão era de medo, confusão ou surpresa. Na verdade, talvez fosse uma mescla estranha dos três. — Hum... talvez eu não seja tão inteligente... — Eu torceria para que fosse. Eu queria gargalhar, chorar, gritar, berrar... fazer qualquer coisa que me tirasse daquela situação maluca, ou que pelo menos me libertasse da influência daqueles olhos verdes. Podia parecer ridículo mas... eu podia jurar que por trás de todo aquele verde esmeralda parecia haver... um brilho. Parecia haver... algo queimando. — Certo. — simplesmente concordei com um gesto de cabeça. — Certo. E saí da Land Rover, ainda tentando entender o que tinha acontecido. Caminho das Estrelas 1 FALANGE Christyenne JottaA [77] Não que eu não estivesse preocupada com o que tia Peg ia me dizer quando me visse chegando àquelas horas em casa, mas quando deslizei pelos ladrilhos coloridos que antecediam as escadas da frente, percebi que eu não estava preocupada com isso. Pelo menos, não depois de ter vivido um dos momentos mais estranhos da minha vida. O que eu conseguia fazer enquanto caminhava para a porta de casa, era me perguntar de onde raios Eron havia saído. Tá, ele era assustador e tudo, mas, é só que parecia haver alguma outra coisa. Uma coisa óbvia demais, mas que claramente eu não estava conseguindo enxergar, e não importava o quanto me empenhasse. No fim, descobri que estar preocupada com a reação de tia Peg havia sido desnecessário, por que a porta da frente estava trancada, o que significava que minha velha tia cheia de truques não estava em casa. Ainda bem que eu conhecia pelo menos alguns dos truques dela, como o hábito de esconder as chaves no vaso de plantas ao lado da porta, por exemplo. Enfiei os dedos entre as folhagens, envolvendo o aço frio e o enfiando na fechadura da porta alta de madeira entalhada com abrolhos. Aquele cheiro aconchegante de avelãs me envolveu quando entrei em casa, e eu logo soube que haveriam biscoitos deliciosos na cozinha. E não estava errada. Havia também um bilhete ao lado do prato, e deduzi que era para o caso de mamãe voltar antes dela. Havana, fui ao mercado, caso você chegue antes de mim e precise saber. A geladeira precisava ser abastecida. Volto antes de Eveline chegar. Peg. Bem... ela não contava com a minha astúcia. Claro que na mente de tia Peg, uma geladeira precisaria ser abastecida urgentemente se de repente faltasse um dos sabores de molho de tomate que ela preferia para temperar o molho da carne. Ou talvez, tivessem apenas acabado as Caminho das Estrelas 1 FALANGE Christyenne JottaA [78] azeitonas. Não tinha como compreender a mente de minha tia, de forma que não seria eu a desperdiçar meu tempo tentando. Joguei minha mochila em um canto qualquer enquanto me empoleirava em uma das banquetas e começava a devorar os biscoitos. Eu ainda não havia tido tempo de perceber como estava cansada. Era esquisita a forma como eu vinha me cansando rápido ultimamente. Era como se eu tivesse sido atropelada por um 4x4. Me arrastei para a sala, onde liguei a TV e desabei no sofá. Bom, pelo menos isso era melhor que a academia, em todos os termos e de todas as formas. E que se danasse o resto. Eu provavelmente já teria problemas suficientes no outro dia quanto aos ferimentos de Hanna... quero dizer, não que alguém realmente pudesse suspeitar de mim, mas... Um tremor frio subiu por meus braços, me fazendo abraçar a mim mesma. A temperatura havia baixado novamente outra vez e... Espere ai... — pensei enquanto procurava minha mochila com os olhos. Ela estava jogada na bancada da cozinha. Mas, onde estava meu suéter? d***a. Puxei uma manta marrom enrolada aos pés do sofá, guardada exatamente para momentos como este, e me embolei nela, não percebendo, realmente, o que eu estava assistindo. Acho que na verdade, eu só não queria a casa em silêncio. Uma mente vazia fantasia com coisas, ás vezes... como arrepios gelados em volta do umbigo, a sensação irreal de estar levando choque de objetos banais, e a visão otária de um céu noturno e estrelado numa noite quente a beira do mar. Quanto a este último não tenho certeza, deve ter feito parte do sonho, por que caí no sono assim que comecei a ouvir os primeiros respingos de chuva no telhado. Ivi surtaria. — foi a última coisa na qual pensei antes de apagar.
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