Dante estava ligeiramente incomodado quando se sentou a mesa para almoçar naquela quarta-feira, exatos três dias sem ouvir um lamúrio se quer de Bianca e ele não era fã do silêncio.
No primeiro dia, o moreno m*l havia se tocado porque estava ocupado demais tentando fazer a comida descer em vez de voltar por sua garganta. No segundo, achava que era coisa da sua cabeça quando a garota trouxe um livro a mesa e foi só no terceiro dia que se sentaram para almoçar que Dante se sentiu incomodado com o silêncio.
Ela m*l levantava os olhos em sua direção.
Esperou paciente enquanto era servido, mas quando reparou que ela começou a comer, o rapaz bateu os dedos na mesa, de forma ritmada para irritá-la.
Bianca que se incomodava tão facilmente com quase tudo a sua volta que não estivesse normalmente em seu lugar, começou a se mexer de forma pouco confortável na própria cadeira, movendo a b***a como se a pequena mudança fizesse o som soar menos irritante do que era.
E então ela levou os olhos até ele. O azul intenso cor de mar brilhou na direção do rapaz que sorriu por conseguir um pouco de atenção.
- Não está falando comigo?
- Achei que não gostasse de falar enquanto come. - Murmurou friamente e de forma quase estúpida, ele quis bater na própria cabeça contra a mesa.
É claro que ela estava chateada. Uma noite revelou o que tanto incomodava nos comportamentos do garoto e em seguida, se simplesmente fez de novo? Aquilo era óbvio! Ele girou os olhos para si mesmo e cortou o bife em seu prato enquanto bufava, feito um cavalo.
- Sinto muito.
Foi Bianca que girou os olhos dessa vez.
- Está tudo bem, sério. Eu não ligo.
- Fui m*l agradecido, injusto... Não deveria ter deixado Serena ser grossa com você daquele jeito e...
- Eu não ligo. Já passou, Dante. Está se sentindo melhor? Pode voltar ao celeiro.
E só de pensar nisso, ele ficou verde.
Fraco, ela pensou mas não falou nada e voltou a comer imóvel. Quando acabou e juntou os pratos para a empregada pegar, saiu logo em seguida para caminhar um pouco para verificar se tudo andava como deveria na propriedade.
Não demorou a ver que Dante estava no seu encalço, seguindo-a como um dos cachorros de rua que não podia receber uma afagada para achar que foi adotado e ela resolveu não se estressar.
Ele não tinha fôlego para acompanhá-la de qualquer modo.
Caminharam pelas terras repletas de grama, pelas plantações de café, uvas e até coca - uma pena não estar do jeito que Dante gosta-, até enfim chegarem a cachoeira.
O rapaz estava suado quando Bianca pareceu se cansar e quando jogou-se embaixo de uma arvore e se sentou, ele repetiu o movimento, só que de frente para ela que o encarou séria.
O som da água batendo contra as pedras era reconfortante, ele achou, olhando em volta e puxando o ar puro para dentro dos pulmões, meio apavorado pelo comportamento da morena, que agora parecia um bicho encarando sua presa.
Bianca estava p**a. Brava pela i********e que Dante forçava, pela familiaridade em que tomava seu espaço sem parecer perceber que estava incomodando. Sentia a inveja da desenvoltura e facilidade dele se sentir familiarizado e soar tão natural em seus movimentos. Era extremamente irritante.
Talvez, se ela cortasse a garganta dele e jogasse o corpo no rio, demorariam a encontrá-lo. Ou talvez ela devesse picá-lo e espalhar seus pedaços pelas terras e dizer que ele fugiu por aí e...
- Você quer que eu vá embora? - A voz macia do rapaz a surpreendeu mais uma vez e saindo dos pensamentos, ela piscou, tombando a cabeça para o lado como se não tivesse entendido. - Quer que eu volte?
E quando é que ela tinha o convidado a lhe seguir em primeiro plano?
- Você vai se perder. - Constatou o óbvio e cruzou os braços, mordendo a boca.
- Você parece que não gosta de mim.
- Já disse que não me importo. Fica quieto.
E ele ficou, tanto que incomodou. Era bom assim em receber ordens?
A garota estreitou os olhos.
- Tire a camisa e vá se refrescar um pouco. - Testou mais uma vez, sentindo um leve tremor nas mãos quando ele, mais uma vez obediente feito um cachorro se levantou meio sem jeito, puxou a camiseta por sobre o corpo e, cambaleou em direção as pedras.
Ele quase escorregou ao entrar na água, mas em seguida, já com os pés molhados Dante se abaixou e fazendo uma concha com a mão pegou água para molhar o peito.
Bianca se esticou para frente, capturando com o olhar o momento certo em que as gotas gordas desceram pelo peitoral magro e pela primeira vez em dias, sentiu água na boca.
Mal se viu erguendo o próprio corpo e foi só quando chegou próxima demais da água é que parou e com o coração batendo forte em seu peito, ela o encarou nós olhos mais uma vez por debaixo dos cílios grossos.
- Entre na água, Dante.
E ele o fez.
Se afundou até metade do corpo, grato pelo refresco e alheio ao que a cabeça da garota tramava.
+
Naquela noite, ela apareceu em seu quarto. Se sentou na poltrona e o observou, calada.
O corpo do rapaz já não tremia tanto, os vômitos tinham parado mas mesmo assim ela estava ali.
No escuro, Dante forçou a visão e conseguiu a identificar pela penumbra, além do mais, a respiração leve que ela tinha, era perceptível. Bianca puxava o ar pela boca, tentando aplacar a ansiedade e a excitação que sentia correr por suas veias.
O pai nunca poderia saber os planos que rondavam sua cabeça. Apesar de fazer vista grossa com seus bichinhos de estimação, ele não parecia que autorizaria que Dante fosse transformado em um.
Teria que agir por debaixo dos panos, teria que ser cautelosa. Talvez, depois de provar o gosto dele, o leve comichão em seu peito sumisse. Esperava que sim, não sabia mais se conseguia suportar o abafar que aquilo estava lhe causando.
Seu último bichinho, ainda preso na casa de máquinas - tão sem graça agora- foi uma de suas obsessões.
O peão m*l tinha chegado a cidade e foi tomado pelo desejo absurdo e ela era bonita demais para se dizer não... Quando notou estava tão preso em sua teia que não tinha mais como sair.
- Vamos treinar amanhã. Às nove. - Ela anunciou, após escutar ele se mover levemente na cama. Sentia os olhos dele sobre ela, mas não tinha tanta certeza até aquele momento. - Te quero de pé, sem falta e já alimentado. Use aquele calção preto.
E no outro dia, lá estava ele. Do jeito que ela ordenara, igualzinho ela pediu.
O calção ficava largo nas pernas de Dante, amarrado com firmeza na sua cintura para não cair mas mesmo assim ele tentava parecer confiante quando adentrou do ambiente pessoal de Bianca.
Ela já estava lá, é claro e faltou pular como uma garotinha quando reparou que ele tinha feito exatamente como ela pediu e que o relógio marcava nove horas em ponto.
Caminhando até o fundo da sala, a garota pegou o tecido de seda e enquanto voltava em direção ao garoto, tampou os próprios olhos.
- Não vou bater em uma garota com os olhos tapa... - Ele não terminou. Bianca girou e ergueu a perna, acertando com força a lateral do rosto do rapaz que desprevenido, caiu para o lado, sentindo o ranger dos ossos. O maxilar pareceu meio solto de repente.
E então ele avançou. Bianca flutuava pelo lugar, desviando e batendo com tanta agilidade que quando reparou, já estava dolorido de tanto apanhar e ainda não tinha nem se quer acertado um soco na garota.
Era desengonçado perante a ela.
Quando foi acertado mais uma vez na face e sentiu o gosto metálico nos lábios, perdeu a paciência e sem seguir qualquer regra, avançou sobre a garota e lhe deu um soco com força no estômago antes de acertar seu rosto.
De forma incrédula, Bianca tombou para frente e puxou o ar, como se estivesse difícil demais de respirar e arrancou o tecido vermelho do rosto.
Seus olhos foram até Dante, que com seus olhinhos de cachorro pareceu culpado mas em vez de reclamar ela riu e ainda sem respirar, se ergueu. Não subestimava mais a capacidade dele de a por no chão e por isso, não voltaria a usar a venda.
Dante sentiu a leve onde de orgulho de si mesmo atravessar pelo corpo mas ignorou o fato de que vendo, a garota seria mais letal.
Dois socos e um chute e ele estava de joelhos no chão, gemendo enquanto a observava se aproximar. De forma quase íntima, ela pegou no maxilar dele e arrastou os dedos de maneira suave pela pelugem da barba por fazer que penicava seus dedos.
E então, esbofetou. Uma, duas vezes.
Ele quase escutou um "bom garoto" mas ela se controlou e se virou antes que arrancasse sangue dele antes da hora.
Se abaixou para pegar a venda e sem se virar, ela suspirou.
- Vá tomar um banho. Vamos dar uma volta.
E ele lhe obedeceu.
+
As ruas de paralelepípedo da pequena cidade que crescia em volta da fazenda eram definitivamente charmosas, pensou o moreno ao descer do carro ao lado de Bianca. O sol quente queimou sua cabeça e quando viu, estava se apressando para a calçada onde a sombra os ajudariam a se esconder do sol e no mesmo segundo percebeu uma centena de olhos sobre ambos.
Bianca nem pareceu se importar quando começou a caminhar a sua frente e ele tentou não se incomodar, mas era impossível. Cidade pequena era um inferno.
Quando enfim pararam, ele notou a pequena barbearia vazia, olhando um tanto surpreso para a garota que fez um movimento para que ele entrasse.
O barbeiro era o típico de filmes, quase caricato. Baixo, com bigode, cabeça raspada e usava branco. Dante achou graça ao se sentar na cadeira e por ser alto demais, sentir-se ser abaixado.
- O que você quer? - A voz um pouco fina demais veio leve e o rapaz botou a mão no queixo, como se pensasse mas pelo espelho notou que o barbeiro não estava falando com ele.
Pelo espelho ele encarou Bianca que parecia fazer pouco caso, foleando o jornal desinteressada.
- Corte um pouco o cabelo, não muito. Deixa a barba.
Quando acabaram e a aparência do rapaz dera uma guinada significativa, eles saíram. Deram uma parada na sorveteria e pediram dois gelatos de morando, se sentando na praça em seguida.
Bianca começava a se sentir esquisita pela leveza do momento, mas tentou dar o braço a torcer porque seu futuro bichinho parecia satisfeito em estar ali e isso agradava a garota.
Percebeu que tinha meses que não provada do seu doce favorito também, mas permaneceu séria enquanto saboreava.
Nenhum pouco distraída, ela notou de imediato quando Ruan se aproximou. O corpo forte, o sorriso brilhante e o chapéu de vaqueiro. Ele parou em frente aos dois, tampou o rosto com a mão e com um sorriso branco, olhou diretamente para ela.
Ele era bonito, não podia negar, mas não do tipo que lhe interessava.
- Que beleza... Estava quase com saudade. - Confortável demais, Ruan tomou a liberdade de se sentar ao lado de Bianca que automaticamente se arrastou para perto de Dante. Ela odiava o contato, mas era muito melhor que encostar no peão. - Não tem vindo mais por essas bandas.
- Sou muito ocupada para ficar passeando por...
E Ruan riu. Porque achava gracioso o jeito que ela falava, porque estava louco para provar o gosto dos lábios dela e descobrir o que se passava naquela cabeça.
Ele era pouco esperto, pouco atento se não já teria notado a pequena faísca nos olhos de Bianca que diziam: eu vou acabar com você.
- O que acha de sairmos sexta a noite?
Ela rangeu os dentes.
- Espere sentado. - Se ergueu e olhando para Dante, fez um movimento de cabeça que ele o seguisse.
- Se um dia se cansar de pele e ossos - o peão disse, se referindo a Dante até o momento calado, quieto e não interessado o suficiente naquilo. A clareza era evidente, ela não estava afim. Mas o rapaz enrigeceu, sentindo-se levemente humilhado ao perceber que o homem estava falando dele. - Posso ter algo que vá te alimentar.
Bianca virou a cabeça de forma breve.
- Não. - Respondeu sem muita emoção na voz. - Você não tem.
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- Cara interessante aquele. - O moreno provocou quando já entravam novamente na picape, prontos para retornar a fazenda.
Bianca nem mesmo virou o rosto para responder. - Cale a boca.
E como um bom garoto, ele obedeceu.
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No jantar, ela pediu a ele para usar jeans lavados e jaqueta de couro. Um pequeno fetiche, ela achava e se deleitou quando ele simplesmente fez o que ela pediu.
Desceu as escadas como um maldito playboy, quase fazendo pose para se sentar ao lado dela. Bianca até resolveu abrir um vinho e pingou meia taça para ele que ainda não devia se jogar muito em possíveis novos vícios.
Mas ela bebeu. Duas garrafas sozinha enquanto fazia planos e mais planos com uma pessoa ainda não comunicada sobre seus pensamentos.
Quando estava alta o suficiente, ela o olhou sob os cílios pesados incansável, violenta e intensamente. Aquele tipo de olhar era curioso para Dante e o garoto devolveu da mesma maneira sem ter ideia de onde estava se enfiando.
Estavam flertando? Ela queria algo? Ela queria ser sua mãe dando tantas ordens o deixando perfeito para cumprir seus caprichos?
- O que você quer? - Ele perguntou, encontrando sua voz no último gole de vinho. O silêncio dela se prolongou enquanto parecia se decidir de alguma coisa e por fim, ela enfiou os dedos dentro dos fios grossos dos cabelos, se sentando de forma ereta antes de responder em alto e bom som:
- Quero espancar você.
Ele esperou a revelação da brincadeira mas ela não veio. Não esboçou nenhuma reação, para não desencorajar a garota e se sentando do mesmo modo que ela, a encarou sério.
A lembrança do pai lhe ensinando como se portar em uma negociação veio forte a sua mente e como aos treze anos, ele manteve a pose como se mandasse ali. Não adiantou.
Era tudo dela, era tudo sobre ela.
- Como? - Dante balbuciou, preocupado. Se aquilo era um convite para um pouco de s**o selvagem, ele não poderia ajudar.
Não tinha uma ereção a meses.
A garota parecendo perceber a preocupação passando pelos olhos dele, se adiantou e estendeu a própria mão para alcançar o queixo do garoto. Os pelos pinicaram seus dedos.
Geralmente, ela gostava de que seus brinquedos estivessem lisos mas por algum motivo, ordenou para que os de Dante permanecessem. Ela também não entendia muito bem, mas não estava preocupada em entender quando tudo que tinha vontade era de provar o gosto dele.
- Não vamos precisar disso. - A voz saiu tão doce e convincente que até o d***o cairia.
Dante mordeu a própria boca.
- Me espancar, é?
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Dante sentiu a vergonha invadir suas células no instante em que deslizou a jaqueta de couro pelos braços, na sala de treinamento. Bianca tinha dito algo sobre não ser o lugar apropriado mas ele não tinha entendido muito bem.
Ela está bêbada, sua mente lhe alertou mas quando se virou brevemente para cancelar o que é que podia ser aquela situação constrangedora, é que ele a viu voltando com uma faca nas mãos, os pés descalços.
Se virou de volta para a parede e arrancou a camisa branca, sentindo em seguida os dedos dela passando por seus ombros pouco antes do rosto redondo e bonito ficar de frente ao seu.
Ela era centímetros mais baixa e ele tentava acompanhar o movimento dos seus olhos sem atrair muita atenção, o que era impossível quando ela arrastava a ponta afiada por cima das suas veias, contando baixinho os lugares fatais em que definitivamente, não deveria furar.
Quando a faca se arrastou até o meio do sei peito e subiu, arranhando a garganta e só parando no maxilar, Dante ergueu a cabeça para trás e temendo engolir em seco, perguntou quase sem mover os lábios : - Você não ia me bater?
-Está com pressa?
Ele se manteve em silêncio e pensou por um instante. A garota afastou a faca contra sua pele mas com a outra mão, virou com força na lateral do rosto do rapaz.
- Cachorra! - Ele xingou, movendo os lábios e ela riu.
- Eu gosto de cachorros. - Zombou. - Pode fazer pior?
- v***a!
- Hm... Vamos se esforce.
- c****a!
- Voltamos ao primeiro?
- Sua... - E ele não sabia mais o que dizer. Encarou mais uma vez os olhos nublados da garota e percebeu pela primeira vez o quão leve ela estava, o quão livre.
Dante queria beijá-la, notou após engolir em seco. Queria provar da boca avermelhada para saber qual o gosto dela naquela situação. Ele se inclinou para o fazer mas no momento seguinte ela se afastou com um passo cambaleante para trás e ergueu o próprio braço.
Ele não tinha ideia do que ela faria até a garota deslizar a faca e uma quantidade alarmante de sangue descer. Bianca molhou o dedo e então, levou até os lábios secos do rapaz.
Se amaldiçoou pelo universo ter lido nas entrelinhas erradas das suas vontades e enquanto o gosto metálico tomava conta da sua boca é que ele sentiu a faca passar de leve sobre seu peito. Rápido e certeiro, tudo que sentiu foi a leve pressão e ao olhar para baixo, notou que as gotas gordas pingavam no chão.
- O que...? - Se desesperou quando Bianca se ajoelhou a sua frente. Agora era ele o dono das meias frases.
Mas ela não tocou seu cinto. Ela não tentou descer suas calças.
Ela simplesmente lambeu o sangue que escorria do seu abdômen e subiu, até a fonte. Com vontade, com sede e com a boca ainda vermelha, ela puxou o ar entre os lábios e sorriu para ele, enquanto usava o dedo para impedir que mais sangue escorresse.
Ele não previu mais uma vez a bofetada e dessa vez, foi jogado no chão. Seu corpo foi firme e de joelhos, ele olhou para cima.
- Você está bêbada? - Quis saber, preocupado.
A menina se curvou sobre ele e com um bom humor desconhecido, murmurou : - Eu só gosto do meu novo bichinho.