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2587 Palavras
Luigi D'Angelo era apaixonado por cavalos, isso era uma das únicas certezas, os animais foram de fato os primeiros a receberem qualquer afeto que ele fora capaz de dar na vida. E esse amor era de uma maneira tão irracional que manteve um dos que causara tanta dor e sofrimento em sua família após um acidente com sua mulher ainda grávida, tendo que dar cabo do animal apenas quando ele levou mais do que seu filho no útero, matando também um dos cuidadores em um acidente. Seu amor acabou sendo passado para a menina que tomara como filha e agora, anos depois, o mais velho parou ao lado da garota e juntos, encararam o celeiro de longe. Qualquer afeto que ela era capaz de sentir pelos animais agora era quando alguém os trazia até ela e definitivamente não quando ela tinha que ir até eles. Seu maior medo era o celeiro e as baias onde os animais dormiam. E esse medo, ela ainda não estava disposta a enfrentar. O pai, de forma milagrosa não insista. No tempo certo, os dois se obrigavam a dizer. - Ele está com febre? - Bianca perguntou, virando a cabeça brevemente para o lado do pai que estava suado, o chicote não usado em suas mãos. - Desintoxicação, eu acho. Uma sombra de um sorriso atravessou o rosto da morena que cruzou os braços e apertou os lábios. - Ou a surra bem dada que deu nele. Escutei o barulho daqui. Ela tinha leves tendências a apreciar a violência. Gostaria de participar de perto, morder, socar e arrancar um pedaço do reizinho da família mas, pelo lugar que ele estava, sabia que não poderia participar da diversão. Luigi tinha feito essa escolha de maneira consciente. - Eu gosto dele, estou tentando ajudar. - Imagino se não gostas... - E riu, de um jeito m*****o que as vezes, assustava o pai. Ele era familiarizado com demônios vivendo nas sombras de cada um, mas o da própria filha era assustador. Controlado, mas desesperadamente lutando para se liberar. - Devo levá-lo para casa hoje. Mais tarde tenho que sair e como vocês estarão sozinhos na propriedade, melhor deixá-lo em algum lugar acessível a você. - A medida era só para caso Dante tivesse um derrame, ou um ataque do coração, apesar de que suspeitava que Bianca acharia graça de ele agonizasse a sua frente para morrer, pedindo ajuda. - Pode cuidar disso para mim? De costas, a menina se esticava para alcançar dentro do carro o aparelho celular que m*l usava, mas o céu estava bonito e queria tirar uma foto. Quando conseguiu acessar a câmera e mirar a imensidão azul, ela voltou-se ao pai. - Cuidarei do seu garotinho de ouro. Vai pegar Ruan para mim? - Lambeu os lábios como se falasse de uma refeição apetitosa. Ruan Giuseppe era, literalmente, um romeu. Quase como Gaspar do filme a Bela e a fera, só que muito mais caipira e insistente. Por vezes, quando Bianca se dava ao luxo de tentar sair das terras da família sozinha e ir ao mercado, era cercada pelo rapaz. Seu instinto dizia para matá-lo, não por reconhecer o m*l nele, mas por não suportar a atenção de qualquer homem. A atenção era perigosa, letal. A primeira vez que chamou demais a atenção de um homem foi aos treze, quando seus olhos castanhos já eram, na verdade azuis como os do pai biológico. Em menos de uma semana, ele a furou, arrancou qualquer inocência que a menina tinha e calou sua boca com uma boa dose de ameaça. E isso durou anos. Aos quinze, ele trouxe os amigos que também acharam seus olhos bonitos demais e graças a isso a garota era estéril. O que restava do útero estava massacrado. A violência fluía dela, havia sido introduzido junto a meia dúzia de pênis se forçando ao seu corpo sem seu consentimento. - Se for ser justa e o m***r de forma rápida, posso pensar. Mas tenho mesmo que resolver alguns assuntos com Santino... Ele quer ter pegar uma cadeira maior, eu te comentei. Bianca balançou a cabeça. Ela se lembrava vagamente do rosto do homem, preferia deixar em sua memória espaço para a influência que mais espaço dentro das decisões da sede trariam. O conselho estava formado e pronto para uma nova votação. Dante com toda certeza era o dono da cadeira, mas pai e filha esperavam que, com um pouco de conversa e uma compra ou outra de votos, a garota fosse a próxima a se sentar lá. Um Dom que não era puro de sangue, homem e nem tão conciliador era o que eles precisavam. Era o que eles queriam. Cabeças iriam rolar mas a família seria imponente de novo graças a Bianca, e seu conselheiro direto Luigi. Juntos trariam um pouco de ordem. Ou ao menos esse era o plano. - Não acho que seja boa ideia. É a terceira vez... Isso é ganância, logo vai querer crescer mais do que deve. Luigi juntou as sobrancelhas e ponderou. - Talvez eu traga para você um velho em vez de um pobre apaixonado por você. A menina balançou os ombros e deslizou o dedo pela tela. - Leve seu garoto para a casa... Antes que morra de um jeito sem graça demais. + Dante Martinelli tremia mais que vara verde enquanto a noite o engolia. É claro que estava agradecido pela cama macia, mais ainda pelo cheiro de sabonete, muito mais pelo fato de ter escutado conversas sobre o padrinho ir embora por alguns dias - esperava não apanhar tanto- mas ainda sim, odiava o estado que se encontrava. Já havia se urinado, vomitado sobre si mesmo e tinha uma leve certeza que Bianca estava começando a se irritar quando ainda não era nem meia noite e ela já estava o segurando debaixo do chuveiro morno pela terceira vez. Quando estava limpo e cheirando a shampoo mais uma vez, sentiu seu corpo se acalmar. Não iria durar muito, ele sabia, mas era bom. Foi arrastado para o quarto mais uma vez e deixado próximo ao guarda roupas. - Escolha o que... - e se calou, indo arrancar os lençóis da cama. Em dor, Dante sorriu e arrancou a camisa para deixá-la no chão e em seguida as calças. Não estava usando cueca, mas não era como se Bianca tivesse qualquer interesse e ele, qualquer vontade para quebrarem alguma regra. Se virou de costas para a garota e dentro do armário, onde suas roupas estavam, pegou uma calça de flanela para subir pelas pernas magras. Em seguida, quando não achou nenhuma blusa limpa, apenas moveu os pés em direção a cama quente e se deitou, quase em posição fetal para aliviar o frio que sentia, mesmo com a filha de seu padrinho o cobrindo, após apagar a luz do quarto. A garota também colocou um pano úmido sobre a testa e em seguida, se sentou numa poltrona no canto, de modo que pudesse olhar diretamente para ele durante a noite. Ela dormia pouco, apesar da exaustão dos dias e era bom ao menos ter um drogado em recuperação para lhe manter entretida mesmo com tanto vômito envolvido. Não demorou para que Dante voltasse a tremer e Bianca viu quando ele apertou os olhos, fazendo força como se fosse para se controlar, inutilmente. - Quando você provou pela primeira...? - A pergunta lhe escapou sem cerimônias. Talvez isso o distraísse, é fato mas não era essa a boa intenção dela. Era só curiosidade. - Você se lembra de quando o ex noivo de Serena a sequestrou? A garota marcada. É claro que se lembrava. - Vagamente. - Bem... Ele cheirou um pouco e me ofereceu. E ele era bem descolado na época. - O rapaz se virou na cama, os ossos da clavícula ficaram mais evidentes Bianca notou graças a pouca luz que vinha do corredor. - Foi direto e escolheu seu veneno, huh? Achei que essas coisas aumentam. - Não gostei da sensação das outras coisas. h*****a é bom, mas tenho medo de agulhas. Foi a primeira vez que o rapaz viu a sombra de um sorriso atravessar o rosto da garota mesmo que não dessa para ver muita coisa de onde ela estava sentada. - Já comi um bolinho com maconha, mas fiquei muito lesada. - Ela murmurou, e a lembrança cruzou sua mente. Tinha catorze anos e estava desesperada para ter algum amigo para contar suas dores. Infelizmente, enquanto se sentia mole e sorridente, foi alvo de piadas. Na época ela ainda se esforçava a ir a escola, e depois disso, começou a receber os tutores em casa. - A coca trás mais uma agitação, sabe? As vezes eu ficava eufórico, feliz... As vezes m*l, meio logomaniaco. Não é legal ficar perto com um cara que parece um doido. Bianca estalou a língua e se moveu na poltrona, suspirou e deu de ombros. - Gosto de que você, mesmo que num quarto escuro e com uma casa vazia converse sem parar comigo. - Está insinuando algo? - Estou dizendo que todos pararam de falar comigo depois que cresceram. E já me chamaram de doida. - Selvagem. - Ele corrigiu, ainda com um sorrisinho incrédulo. Talvez ele tivesse vergonha dela, de fato. Antes de ela ter limpado sua urina, obviamente mas, não realmente ligava para muita coisa. Talvez tivessem ignorado a menina, a excluído mas ele não se lembrava. Ela não valia sua atenção na época, era provável. - Ainda bem que não tô nem aí... Não pareceu convincente. - Desculpe. Não era intencional. - Era sim. Vocês vinham para cá, jogavam cartas, iam nadar pelo rio e nunca me chamavam. Eu ficava perto, esperando, mas só me davam oi por causa do meu pai. - Pra jogar as coisas na cara você completa frases então? Bianca grasnou meio irritada por ele estar levando o assunto que machucara seu peito por tanto tempo com piadas e quase se levantou, mas gostava de estar trocando palavras com ele. - Você se saiu bem sem a gente, acredite. Ficamos muito piores do que você pode imaginar. - Matteo está indo bem. - Ela retrucou. - A gente ignorava o Matteo também. E então ela riu. Meio leve. Dante guardou o som para si, não achava que iria ter a chance de escutar muito mais dele. - Amanhã você quer treinar comigo um pouco? - Ela perguntou baixo, depois de algum tempo em silêncio. Ele ainda estava acordado, o corpo tremendo. - Se eu aguentar. - Prometo não pegar pesado. E ele riu. Ela era pequena demais. Duvidava que pudesse causar qualquer dano. + Pela manhã eles não treinaram juntos. Bianca estava se preparando quando escutou os passos na escada, e esperou paciente por minutos, enrolando e tirando a fita dos seus dedos, mas quando tempo demais se passou, apenas socou sozinha o saco de areia da sala. Dante estava ocupado. Minutos antes, ainda no seu quarto m*l se aguentando de pé e doido por uma aspirina para a dor de cabeça, ele escutou o som de um carro chegar e desceu, correndo para a porta e dois segundos depois, a prima saltou de lá. Serena estava em um dos seus vestidos de veraneios, com óculos escuros e os cabelos longos como gostava de manter soltos em ondas nas costas. Se aproximou de Dante e o abraçou, o puxando para dentro. - Quando tio Luigi apareceu lá em casa, não resisti. - Ela riu e tampou a boca antes de cochichar: - Ele está ficando doido de te deixar sozinho com aquela maluca. Infelizmente só posso ficar até a noite e o resto você vai ter que fazer força de vontade para ela não te m***r. O veneno de Serena era quase bem vindo, mas um leve incômodo atravessou o rapaz, mesmo que ele não tivesse a intenção de corrigir a garota. E daí se Bianca esquisita tivesse limpado seu vômito? Lhe dado banho e comida? Tivesse passado a noite o distraindo da dor que a falta de cocaína fazia em seu sistema e da surra que tinha levado? Aquilo não era nada. Nada... Logo ele iria embora e a garota esquisita ainda ficaria ali, logo ele se sentaria na cadeira de seu pai e os dias de recuperação seria apenas algo que almejava esquecer. - Ela é assustadora, de fato. Parece um fantasma, não dá para escutar quando chega ou sai. - Ele comentou e os dois subiram juntos. Serena contou sobre sua vida para o primo, enquanto penteava seu cabelo que crescia sempre rápido demais e Dante, se distraía, esquecendo-se dos problemas. Na hora do almoço, quando desceram, os dois encontraram Bianca pondo a mesa. No domingo, por ordem da garota, os empregados tinham sua folga e ela geralmente se virava sozinha, dessa vez... Para três. Fez um macarrão simples, com molho e salada, bifes temperados com sal e pimenta. Nada elaborado ou pesado demais. Por via das dúvidas, deixou um mingau pronto para Dante e seu estômago sensível. E quando Serena se sentou na mesa comentando do cheiro, Bianca levou os olhos em direção ao rosto da garota e quase sorriu se não fosse pela careta que recebeu em seguida. - Perdeu alguma coisa aqui? Mas ela não estava olhando as cicatrizes que atravessavam o rosto bonito da loira. Não estava sendo incoveniente. Engoliu a vergonha súbita que só sentia quando mais nova e se sentou na ponta da mesa e já que qualquer interação estava encerrada, serviu a si mesma em silêncio. Não soube se era maldade, mas eles só comeram quando ela acabou e se levantou, começando a conversar sem parar. O Dante da noite anterior só era humilde depois de uma boa dose de humilhação própria. Talvez ele devesse lidar com tudo sozinho essa noite. Bianca não esperou a comida assentar no estômago para sair pela propriedade e alimentar os animais e até seu bichinho de estimação preso na casa de máquinas recebeu um pouco de sua atenção. Ela abriu a porta de madeira e adentrou no lugar, vendo o corpo esguio e forte do rapaz deitado na palha. Haviam dois meses que ele estava ali e por conta própria, sendo acorrentado e subjugado pela garota. De dentro da pequena bolsa ela tirou a pequena vasilha com comida e se aproximou, tocando nos ombros dos seu bichinho que se levantou assustado. Seu rosto estava marcado e ela sorriu. - Tire a camisa? Estou precisando relaxar. E ele tirou, não falou nada como ela gostava, e não gemeu quando sentiu o chicote de montaria bater contra suas costas e lhe arrancar sangue mas se deleitou quando a língua dela subiu por suas costas para limpar o rastro vermelho. Repetiu tantas vezes até se cansar e quando acabou, pôs o rapaz de joelhos e lhe bofetou a face. Duas vezes, de forma dura. Esperava que ele durasse e não morresse rápido como os outros. Quando estava satisfeita, ela se virou para sair, mas sentiu a mão em sua perna. - Fica um pouco. - A voz baixa do seu brinquedo soou e foi o chutando, que ela saiu. Enquanto fechava a porta, o viu avançar sobre a comida. Estava menos tensa quando voltou para casa, bem a tempo de ver o carro de Serena se distanciando. Suada e cansada, ela não fez alarde ao subir para o próprio quarto e se limpar. Deitou na própria cama e cochilou por uma hora antes de acordar ouvindo Dante e sua solidão vomitarem e gemerem. Não era seu problema.
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