Com os olhos fechados e tampados pela seda vermelha, a garota se abaixou na sala, sentindo o vento vibrar quando mais uma faca passou próximo ao seu rosto, o suficiente para lhe cortar a beirada do cabelo. Aquilo não era boa coisa, e definitivamente, era um mau presságio.
Não se surpreendeu quando não notou o chute lhe acertando com toda a força na boca do estômago e de joelhos no chão, assim como as palmas aguentando o peso, ela sentiu tarde demais a pisada forte em sua coluna, finalmente beijando o lugar que seus pés deveriam estar apoiados.
A menina girou e destampando o rosto, encarou o homem que era seu pai desde que se lembrava a olhar, levemente surpreso. Os cabelos loiros agora se confundiam com flashes grisalhos e foi enquanto percebia o contraste que a idade começava a causar que, mais uma maldita vez naquele dia, recebeu uma pisada. Dessa vez, Luigi estava sobre sua perna, soltando o peso como se não se importasse e foi com a sensação de que ela seria partida que a menina finalmente reagiu, erguendo-se de uma vez para bater de forma certeira por trás, nos joelhos do mais velho, o vendo desmontar no chão ao seu lado.
Luigi fez um som grotesco quando tocou no chão e Bianca quase achou graça, mas suas falhas durante o treino não lhe permitiam.
— Está mais lenta e pouco perspicaz. O que tem te distraído? — O mais velho perguntou, se sentando no tatame da sala de treinos que desenvolveu de forma exclusiva para a garota, como um presente aos dezessete.
Seu corpo a distraía, ela pensou. Suas células e seu sangue correndo por suas veias. As bactérias em seu estômago se amontoando. O batimento do seu coração, que tantas vezes a alertava do perigo, hoje estava descontrolado e tirando-a dos eixos.
Para uma pessoa comum seria apenas um leve incomodo e ansiedade, mas não para ela. Todos os seus sentidos eram ampliados, cada sensação e era por isso que a menina estava sufocada, faltando cair dura no chão de tanto pavor.
Sua rotina seria destruída completamente porque seu pai havia aceitado trazer um drogado para casa.
— Seu garoto problema me distrai.
— Ele ainda nem chegou. Não seja mimada. —, disse e dando o assunto por encerrado, começou a se levantar.
Mas chegaria, ela queria responder. Chegaria para causar problemas como sempre causou e como sempre causaria.
A menina escolheu o silêncio em vez disso. Pelos cálculos de sua mente, Luigi perguntaria o que aconteceu entre os dois que se davam tão bem quando pequenos, não mais se suportarem e por mais que sua resposta não existia, dentro da sua cabeça, a garota começaria a enumerar os fatos que os afastaram. Os fatos que os fizeram virar completamente estranhos um do outro.
Não, definitivamente não estava pronta para aquilo.
— Não sou mimada, só... — E deixou as palavras morrerem. Por algum motivo, terminar frases não era bem seu estilo e a menina apenas balançou a mão de qualquer jeito, como se isso deixasse as coisas mais claras para o mais velho ou qualquer outra pessoa com que mantivesse o mínimo possível de conversa.
— De qualquer maneira, vai ser bom ter alguém para treinar que não seja eu. Talvez, seu autocontrole de alguma forma inspire o garoto.
Inspirar. Ela quis rir, mas apenas deu um meio sorriso amargurado. Não era aprender, era necessário precisar e Dante Martinelli precisaria de muito mais que uma porção de cocaína para poder ter o tipo de autocontrole que a morena tinha desenvolvido.
— Sempre bom chutar a bund4 de um ou outro... — cara, ela iria completar, pela primeira vez, mas em vez disso, a porta se abriu e de lá, uma empregada fez sinal para Luigi.
Só pessoas convidadas entravam naquela sala, todos sabiam. Só pessoas de confiança ficavam ali. Se você não era e entrasse, é bom que se preparasse para perder meia dúzia de dentes.
Desenrolando a fita preta dos dedos que impediam que se quebrassem, Luigi D'Angelo caminhou até a porta e trocou algumas palavras com a empregada antiga antes de sair sem avisar mais nada. Se fosse outra pessoa, a menina iria atrás só por curiosidade, mas ela não se rendia a esses caprichos a muitos anos e foi por isso, que a garota permaneceu no lugar, socando algumas vezes o saco de pancadas feito de areia.
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Sua pele formigava quando Bianca resolveu parar. Em carne viva, seus dedos reclamaram e suspirando, ela olhou para o teto antes de ir em direção ao filtro de água no canto da sala e se hidratar um pouco antes de sair, pingando suor.
Dois mil e quinze socos, ela contou. Sua pele se rasgou antes dos cem, pelo que se lembrava, mas isso não era nada. Ela queria aquela dor, ela a controlava e foi com esse alívio em mente que ela enxergou pela primeira a carcaça de Dante D'Angelo, sentado meio reto no sofá enquanto conversava com Luigi.
Os fios escuros dos seus cabelos penteados para trás pareciam molhados, como se tivesse acabado de sair do banho. A camisa branca, larga e que ela jurava que deveria ficar mais apertada antes, evidenciou a magreza exagerada, bem como os ossos da clavícula e do nariz torto. O vício não lhe caia bem.
Foi só quando os olhos cor de breu vieram sobre a menina que ela realmente se sentiu incomodada. Dante se levantou num pulo, solícito e estendeu a mão para a menina como se fossem desconhecidos.
Talvez ele não esteja te reconhecendo, a sua mente alertou mas ela ignorou, permanecendo no lugar até ele se cansar.
Os anos haviam transformado seu corpo infantil, era fato. Bianca com toda a certeza ainda era uma tábua reta, mas os traços maduros e o jeito curvado que a cintura tomara, trazia-lhe o ar que só mulheres formadas tinham. Os s***s estavam maiores agora, apesar de que, não se desenvolveram completamente graças a tudo que havia passado.
Seu corpo todo, nunca seria o seu máximo graças a todo o trauma que enfrentara.
— Bianca, venha aqui. — Luigi disse e foi graças ao tom forte que a menina movimentou os pés, indo em direção a dupla mesmo que não indicasse que gostaria. Seu pai pediu e foi ele quem salvou sua vida, a menina lhe devia tudo... Um oi a um esnobe não era nada.
Os olhos de Dante a estudaram quando ela flutuou em direção a eles, feito um fantasma. O menino m*l confiou nos próprios olhos quando percebeu que ela já estava em frente a ele.
— Se lembra do meu afilhado? — Luigi perguntou com um sorriso quase falso no rosto e a menina correspondeu, ainda séria, balançando de leve a cabeça quando retornou os olhos para o moreno.
Ele parecia o breu. Sim, essa era a definição. Tudo nele a lembrava escuridão. Não que as sombras lhe causasse medo, ela até gostava de quando podia se tornar invisível antes de ceifar a vida de algum inimigo ou outro.
— Claro, já fazem uns seis...?
A confusão passou pela cabeça dele por um momento, ela percebeu e se caso se importasse o suficiente, a menina teria se amaldiçoado por não terminar a frase, mas esse não era o caso também.
— Anos? — a voz um tanto rouca, forte e, ao mesmo tempo macia e acolhedora atingiu-a em cheio, mesmo que fosse cheia de dúvidas. A garota piscou duas vezes antes de perceber que era direcionado a ela e apenas balançou a cabeça de forma breve.
Seis anos desde as últimas férias que a família tinha estado ali. Em seguida, mais ninguém veio. Ninguém morava ali, exceto por Bianca que se recusava a sair do lugar. De alguma forma, se sentia presa nas terras vastas e mesmo que Luigi morasse no apartamento na cidade, a garota não conseguia passar mais do que poucas horas no meio da agitação antes de se sentir esquisita, prestes a surtar de tão fora do ninho, totalmente perdida. Quase insana.
E ela não podia aguentar ser motivo de risada de mais ninguém.
Sabia que sua reputação em todos os lugares era de que tinha se tornado louca, esguia e meio selvagem de tanto ficar no meio do mato. Uma vez, enquanto ainda gostava de Serena, a menina escutou uma piada sobre si mesma e lá se foi a última consideração que tinha de uma amizade. Talvez, naquela época, ela confiasse em alguém além de Luigi mas hoje não lhe restara nada, nem mesmo o reflexo do espelho.
— Luigi contou que tem cuidado da fazenda. Estou aqui por isso também.— ofereceu um sorriso simpático demais, confiante demais como se a mentira deslavada não se revelasse no tremor de suas mãos causados pela abstinência.
Também... Ela achou graça, mas não riu. Guardou para si. E deixou o garoto iludir a se próprio, a língua coçando para não cuspir na ferida.
— Vai ser bom. Amanhã, cedo, por volta das cinco, você alimenta os porcos. — decidiu, se levantando de uma vez, sem ter mais o que falar, e definitivamente, não querendo estender aquela conversa. Não sabia como fazer isso, sendo sincera consigo mesma. Tinha muito tempo que falara com alguém da sua idade e por mais que talvez ela pudesse se dar bem com essa versão problemática e tão fodid4 que Dante era, ainda não era hora.
Seus muros estavam altos, e isolando-se na torre de sua mente, a menina botou o seu dragão para vigiar.
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Um bicho do mato e adestrado, foi o que o garoto pensou assim que a menina, sem dizer mais muita coisa, se virou e saiu, dura feito uma porta enquanto seguia em direção as escadas.
Um bichinho adestrado por Luigi, seu padrinho que se ofereceu e o acolheu no momento delicado, mas ele não queria pensar nisso agora quando seu corpo pedia tanto por um pouco mais e os calafrios tomavam suas mãos.
De forma até um tanto descarada demais, e demorando-se no olhar, o rapaz continuou a encarar na direção em que a garota sumiu. Não que estivesse com segundas intenções, seu cérebro estava torrado demais para sentir qualquer vontade de f0der alguém ou ser fodid0, mas, a sensação de sentir curiosidade em relação a algo pela primeira vez em tantos meses era deleitosa.
O que era Bianca, afinal?
Além de ser filha postiça do homem mais odiado da família e apenas aturado por todos, o que era ela?
Ela é boa com facas, seu cérebro, de algum modo, lembrou e isso o fez ainda mais interessado. As mulheres da família não deveriam aprender a usar armas assim, e definitivamente não deveriam cuidar de terras tão grandes sozinha também. O alerta, brilhando demais para um cego, foi inútil. Ele estava mesmo curioso.
Dante, de forma quase robótica voltou a encarar o mais velho a sua frente.
Ele não estava muito diferente desde os poucos meses atrás que se encontraram, quando Luigi o visitara no hospital. O padrinho do garoto, na verdade, foi quem o encontrou espumando no chão, se engasgando com o próprio vômito. Seria eternamente grato.
— Bianca está bonita. Diferente. — O elogio foi simples e discreto enquanto voltava a olhar para o padrinho, que apenas balançou a cabeça de leve.
Luigi era ciumento. Possessivo e ciumento, psicótico. Mas não ali, não quando o bocado de ossos e pele quase não parecia se aguentar nos próprios pés. Dante não era uma ameaça.
— Se tornou mulher, as coisas são assim. Só não está aqui conosco porque deve ter alguma outra coisa para fazer. — Balançou as mãos, como se não fosse nada e, Dante mais uma vez encarou as escadas.
— Pretende casá-la logo?
— Não é o que desejamos. — que soou mais como um "missão impossível" na cabeça do menino, que simplesmente balançou a cabeça num aceno breve. — E você? Pronto para começar com os porcos?
A careta de Dante foi impagável. O garoto, nunca nem precisou trocar a água de seus cachorros durante a infância. Nenhum mínimo esforço era seu. Depois dos dezoito, sua única obrigação era de estudar um pouco, administração e direito para tomar a frente dos negócios quando a hora chegasse. Aos vinte e dois, não sabia nem se havia completado o primeiro semestre de cada uma.
Ele tinha tempo, tinha recursos e esperava que logo, tivesse cabeça.
— Pronto.
O sorriso que veio do seu padrinho em seguida o assustou, mas ele resolveu relevar. Já tinha visto aquele mesmo olhar em todos os homens antes de matarem alguém e nunca tivera essa necessidade, exceto quando foi iniciado. Uma obrigação que o assustava até hoje. Ele não gostava de m***r, não via prazer, não via necessidade nem mesmo com seus piores inimigos.
Luigi se ergueu e em seguida fez um movimento de cabeça para que fosse seguido até o lado de fora. Em silêncio e no escuro, os dois caminharam por algum tempo. Tempo demais. Dante não tinha fôlego e estava quase pedindo por uma pausa quando o padrinho finalmente parou.
O cheiro era inconfundível.
Merda era característica demais.
O estômago sensível do garoto girou e, com a visão mais acostumada, ele finalmente deu um passo a frente para ver o pequeno celeiro com porcos.
Distraído o suficiente para não ver o mais velho lhe empurrar para dentro e no instante seguinte, estava com a cara na lama, na m***a e na lavagem. Ele vomitou sobre si mesmo e então, conseguiu se erguer de qualquer jeito, indo para um canto acuado enquanto os bichos se acomodavam a sua volta.
— c*****o!
— A boca suja... — O alerta veio baixo, quase distante. — Vai passar a noite aí. Eles estão alimentados, mas podem tentar te comer durante a noite por isso não durma demais. Você pode sair amanhã, depois de cuidar deles e alguém verificar se fez tudo certo.
E os passos de repente se afastaram antes que o cérebro do garoto conseguisse processar. Passou a noite em claro, tremendo de frio e medo. Perdeu o jeans para umas boas mordidas e quando o sol finalmente nasceu, pulou o pequeno cercado para alimentar os bichos.
É claro que o Luigi, ou qualquer pessoa, só apareceu depois do meio dia, só para dizer que nada estava limpo.
Com fome e sede, o garoto limpou todo o pequeno celeiro e e quando notou que a noite já caia mais uma vez e ninguém voltaria ali, afundou a cabeça na água dos animais e bebeu, cheio de sede. Não estava pronto para comer aquilo, então, se deixou sentir o corpo reclamar e para ele tudo bem, havia tempo que não sentia tanta fome.
No dia seguinte, Luigi apareceu mais tarde, pouco depois das três com pão seco e água. Primeiro lavou as mãos do afilhado e então, lhe alimentou.
— Você não vai me deixar ficar na casa, não é? — Constatou de imediato e recebeu finalmente o olhar do mais velho sobre si.
— Vou te por com os cavalos essa noite. Imagino que esteja cansado.
E ele estava, exausto. Poderia facilmente dormir se encostasse a cabeça em algum lugar em que algo não se atrevesse a tentar comê-lo.
— Tem uma cama lá? — Fez graça, um tanto amargurado e recebeu mais uma vez um olhar incriminador.
— Bianca estava certa... Não deveria trazer nem mesmo comida para você, está muito fácil. Se leve naquela mangueira e vá antes de que escureça. Depois do jantar, eu apareço.
Jantar... O que não faria por um pedaço de carne assada? Seria interessante.
Dante se lavou na água fria, tentou ao máximo tirar o cheiro podre de seu corpo mas sem um sabonete aquilo seria difícil. Quando enfim estava limpo, marchou em direção ao celeiro de cavalos e, achando uma baia vazia, resolveu ficar por lá.
Não deu tempo de fechar os olhos até ouvir os passos de Luigi mais uma vez, e assim que o encontrou, notou um chicote de adestramento em suas mãos. A primeira chicotada acertou no rosto, as próximas nas pernas e então, o corpo todo.
Dante foi cortado e surrado pelas cerdas em silêncio. Aceitou calado o castigo e só depois de ser chutado e cuspido é que teve seu momento em paz. Agonizando e queimando de dor, ele se encolheu na palha e dormiu. Gemendo. Faminto. Com frio.
Aquele era o preço que deveria pagar então?