o dia q muda

646 Palavras
As duas filhas de um bilionário cresciam dentro de uma mansão que por fora parecia luxo, mas por dentro era silêncio e frieza. Tifany era a filha perfeita aos olhos dele. Loira, olhos azuis, magra, bonita, 24 anos. Sempre bem vestida, sempre sorrindo quando precisava. Ela sabia exatamente como conquistar o pai, como manter o lugar dela no topo. Nunca questionava, nunca se colocava no lugar de ninguém além dela mesma. Lia era o oposto disso… ou melhor, era o que restava. Com 21 anos, também loira, olhos azuis e de uma beleza delicada, ela parecia feita de fragilidade. Magrinha, sempre de cabeça baixa, como se já tivesse aprendido desde cedo que não tinha voz dentro daquela casa. A mãe dela morreu no parto, e desde então tudo mudou. O pai nunca conseguiu olhar para ela sem lembrar da perda. E a irmã nunca conseguiu olhar para ela sem desprezo. Para Tifany, Lia era um erro que respirava. E para o pai, ela era um problema silencioso que ele simplesmente suportava. Até o dia em que ele decidiu o destino das duas como se fossem peças de negócio. Ele chamou as filhas ao escritório. O ambiente era pesado, frio, e o silêncio parecia cortar mais que qualquer palavra. Ele falou sem hesitar, como se estivesse fechando um contrato. “Vocês vão casar.” Tifany foi a primeira a reagir, com um sorriso contido, quase vitorioso. “Quem vai querer ela, pai?” disse ela, olhando de lado para Lia como se ela fosse algo menor. Lia apenas abaixou o olhar. Já tinha aprendido que ali, falar só piorava tudo. O pai continuou, impassível. “Tifany, você vai se casar com Antônio Pedrosa. Chefe da máfia do lado sul. Poderoso. Influente. É o melhor para os negócios.” O sorriso de Tifany cresceu. “Ótima escolha, pai.” Então o olhar dele caiu sobre Lia. “E você… vai se casar com Rodolfo Fagundes. Chefe da máfia do lado norte. c***l. Carrasco. Destemido.” O nome pareceu pesar no ar. Lia congelou. Por um segundo, o mundo ficou silencioso demais. Depois, ela caiu de joelhos. “Não, pai… não me manda pra lá…” a voz saiu quebrada, desesperada. “Dizem que ele… ele é um carrasco… ninguém sobrevive à noite de núpcias com ele…” “Cale-se, Lia.” “Por favor… me deixa no porão… eu fico lá… só não me manda pra ele…” A resposta veio dura, sem emoção. E então veio a dor. Um gesto de punição, rápido, violento, deixando claro que não havia espaço para resistência naquela decisão. O pai não discutia. O pai determinava. “Eu disse para se calar. Vocês se casam em uma semana. Já está tudo acertado. Cada noivo já concordou.” Lia ficou no chão, tremendo, com a sensação de que não era mais uma filha, nem uma pessoa… apenas uma obrigação empurrada para fora da casa. Tifany levantou-se com calma, satisfeita, como se tivesse acabado de ganhar algo valioso. “Eu quero o melhor vestido de noiva do mundo, pai.” “Você terá, minha princesa.” O olhar dele nem sequer voltou para Lia quando completou: “E o seu também será bonito. Agora levante-se. Você tem uma semana para cobrir essas marcas no seu corpo. E ai de você se contar ao Rodolfo como foi sua vida aqui.” Lia não respondeu. Só assentiu, como sempre fazia. E saiu do escritório com passos fracos, voltando para o único lugar onde se sentia invisível: o porão da mansão. Lá embaixo, uma das poucas servas que ainda tinha coragem de ser gentil a encontrou e a abraçou com força, como se tentasse segurar o mundo inteiro no lugar. “Calma, amiga… vai dar tudo certo, tá?” Mas no olhar de Lia, não havia certeza. Só medo. E um casamento que já parecia uma sentença.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR