Os dias seguintes passaram como uma contagem regressiva silenciosa.
Na mansão, tudo parecia normal… mas para Lia, cada segundo era um lembrete de que algo dentro dela estava sendo arrancado aos poucos.
Ela m*l saía do porão. Quando saía, era só para cumprir ordens: provar vestidos, experimentar joias, ser medida como se fosse um objeto preparado para entrega.
Tifany, por outro lado, vivia como se fosse uma celebração.
Espelhos, provas de vestido, risadas altas no corredor.
“Esse aqui não combina comigo… quero outro mais caro,” ela dizia, girando em frente ao espelho. “Eu vou ser esposa de Antônio Pedrosa. Isso não é pra qualquer uma.”
E então olhava para Lia, que estava sentada num canto, calada, com os braços cruzados como se tentasse se proteger do próprio corpo.
“Você devia agradecer, sabia?” Tifany disse com desprezo. “Pelo menos alguém vai te querer.”
Lia não respondeu.
Ela já tinha aprendido que responder era só dar mais espaço para a dor.
Naquela noite, quando voltou para o porão, a serva amiga a esperava com um copo de água e um olhar preocupado.
“Lia… você não pode continuar assim. Você tá sumindo.”
“Eu já sumi faz tempo,” Lia murmurou.
A serva hesitou.
“Dizem que ele… Rodolfo Fagundes… nem aparece em público direito. Que ninguém sabe como ele é de verdade.”
Lia apertou os dedos com força.
“Eu sei o suficiente.”
O silêncio caiu entre as duas.
E pela primeira vez, a serva não tentou dizer que tudo ficaria bem.
Porque nenhuma delas acreditava nisso.
No outro lado da cidade, longe da mansão, o nome Rodolfo Fagundes não era pronunciado sem cuidado.
Ele não pedia respeito.
Ele causava.
Dentro de uma sala escura, homens falavam baixo, tensos. Um deles hesitava ao entregar um envelope.
“Chefe… o casamento foi confirmado. Filha do bilionário.”
Rodolfo não respondeu de imediato.
Estava de costas, olhando a cidade pela janela.
Quando virou, o rosto dele era frio, fechado, impossível de decifrar.
“Confirmado,” ele repetiu, como se testasse o gosto da palavra.
“Sim… em uma semana.”
Um dos homens arriscou:
“Dizem que ela é fraca… que nunca saiu do controle da família…”
Rodolfo deu um passo à frente.
O silêncio na sala ficou pesado.
“Eu não me importo com o que dizem.”
A voz dele era baixa, firme… perigosa de um jeito que não precisava ser alto para dominar.
Ele pegou o envelope e abriu.
Por alguns segundos, observou a foto.
Lia.
Olhos azuis.
Rosto baixo.
Como alguém que já tinha sido quebrada antes mesmo de chegar até ele.
Ele fechou o envelope devagar.
“Preparem tudo,” ele disse.
E antes de sair da sala, completou, como se fosse apenas mais uma decisão de negócio:
“Ela vai chegar viva. Do resto… eu cuido depois.”
Na mansão, Lia acordou no meio da noite com o peito apertado.
Não sabia explicar, mas sentia.
Como se o destino estivesse mais perto.
Como se algo estivesse vindo buscá-la… e não havia mais lugar para fugir.