a decisão

609 Palavras
No dia seguinte, o clima na mansão parecia ainda mais pesado. O pai delas chamou as duas novamente ao escritório. A mesma sala fria, o mesmo silêncio dominante, como se nada ali fosse feito para acolher sentimentos humanos. Ele estava sentado atrás da mesa, como sempre, com aquela postura de quem não pedia nada — apenas determinava. “Eu entrei em contato com os noivos de vocês,” ele disse, sem rodeios. “Eles permitiram que eu envie uma serva com cada uma de vocês. Alguém para acompanhar, ajudar… e servir de companhia também.” Tifany soltou um leve suspiro, como se aquilo fosse algo óbvio demais. “Cada uma escolhe a sua,” ele completou. Tifany foi a primeira a falar, sem hesitar: “Eu vou levar a Brenda. Ela é minha amiga desde a infância, me entende perfeitamente.” Brenda, que estava ao lado da porta, apenas abaixou o olhar, como se já esperasse por aquilo. O pai assentiu. “Certo.” Então os olhos dele se voltaram para Lia. Por um instante, ninguém falou nada. Lia respirou fundo. “Eu vou levar a Jéssica.” Silêncio. Tifany soltou um riso baixo, quase de deboche. “Jéssica?” ela repetiu. “Claro… combina com você.” Lia não reagiu. O pai apenas anotou algo, indiferente. “Está decidido.” Ela engoliu em seco. “Posso me retirar, pai?” “Pode.” E isso foi tudo. Sem emoção. Sem despedida. Sem nada que parecesse humano. --- Lia saiu do escritório em silêncio e voltou direto para o porão. Quando desceu os degraus, encontrou Jéssica já lá, sentada na cama simples, como se estivesse esperando há horas. “Por que seu pai queria isso, amiga?” Jéssica perguntou na hora, levantando-se. “Ele disse que a gente vai ter o privilégio de levar uma serva…” Lia respondeu, com um sorriso fraco. “E eu disse que vou levar você.” Jéssica se aproximou e a abraçou sem pensar duas vezes. “Claro que eu vou com você. Sem pensar. Você sabe… eu só continuo nessa casa há anos por sua causa.” Lia fechou os olhos por um segundo, sentindo aquele abraço como um dos poucos lugares seguros que ainda tinha. “Se não fosse você… eu acho que nem estaria viva.” Jéssica afastou um pouco, olhando para ela com seriedade. “Eu consegui providenciar algumas maquiagens boas pra tentar cobrir essas marcas… mas algumas não vão ter como esconder.” Lia passou a mão de leve pelo braço, onde ainda havia vestígios do que tinha sido feito. “Eu sei.” Jéssica hesitou. “Você já pensou no que vai dizer pro Rodolfo?” Lia ficou em silêncio por alguns segundos. “Eu vou dizer que caí… que me machuquei.” Jéssica soltou um suspiro, preocupada. “Amiga… ele não é qualquer homem. Ele é conhecido por ser c***l. Carrasco. Você acha mesmo que ele vai acreditar nisso? Essas marcas… são claras. Fios, fivelas… isso não parece queda.” Lia abaixou o olhar. “Eu não sei…” A voz dela saiu baixa, cansada. “Mas eu já vou estar lá. Isso já vai acontecer.” Ela respirou fundo. “E… provavelmente ele vai ser igual ao meu pai e à minha irmã.” Um silêncio pesado caiu entre as duas. Lia então deu um pequeno sorriso triste. “Então não vai ser muita diferença.” Jéssica segurou a mão dela com força. “Vai ser diferente, sim. Porque agora… você não vai estar sozinha.” E pela primeira vez em muito tempo, Lia não respondeu com medo. Só apertou a mão dela de volta.
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