O tempo tinha seu próprio ritmo dentro da academia. Os dias se misturavam entre pancadas no saco de areia, suor escorrendo pelas tábuas do chão, e a música rústica dos gritos de esforço. Mas para Rayca, aquele ambiente antes estranho se tornava, aos poucos, um refúgio.
Ela começava a se sentir parte de algo. E a razão disso tinha nome: Nicholas Santiago, ou simplesmente Nico, como todos ali o chamavam.
A amizade deles cresceu como as coisas verdadeiras costumam crescer: devagar, silenciosamente, enraizando-se em gestos pequenos e olhares sinceros.
No início, eram apenas conversas rápidas no intervalo do treino, mas logo se tornaram longas trocas durante as faxinas ou nos bancos da arquibancada, enquanto Nina brincava com uma boneca improvisada de meias velhas.
— Ela tem os olhos da Paloma... — Rayca comentou um dia, observando a filha.
— Paloma? — Nico perguntou.
Rayca hesitou, mas respondeu com um sorriso leve, como quem carrega saudade no bolso.
— Minha melhor amiga. Foi ela quem me deu Nina. Literalmente.
Nico não pressionou. Apenas assentiu, respeitando o tempo dela.
Esse era o tipo de coisa que fazia Rayca baixar a guarda com ele. Nico não a olhava como os outros. Não a via como a faxineira estrangeira, nem como uma mulher sozinha com uma filha e um passado complicado. Ele a via inteira. E, mais importante, ele escutava.
— Às vezes eu sinto que já morri e voltei — ela confessou, sentada com as pernas cruzadas no chão da academia, esfregando o piso com uma escova dura. — Tudo o que eu era, ficou na Venezuela.
Nico encostava-se a um dos sacos de pancada, suado, com as mãos envoltas em ataduras.
— Eu também. A versão que eu sou hoje… é uma reconstrução. Como se o velho Nico tivesse ficado na rua, lá em Pacaraima. Só sobrou o que deu pra salvar.
Rayca largou a escova e olhou para ele. Pela primeira vez, percebeu a sombra que morava atrás dos olhos castanhos dele. Havia dor ali. E não era pouca.
— E por que continua lutando?
— Porque é tudo o que eu sei fazer. E... porque tem gente que acredita em mim. Seu Dário, por exemplo. Ele me deu um motivo. Uma chance. E agora... você.
Rayca franziu o cenho.
— Eu?
Nico deu um leve sorriso, o primeiro sincero que ela viu nele.
— Você trabalha o dia todo, cuida da Nina, limpa o chão dessa academia cheia de marmanjos suados, e ainda sorri. Você é mais forte do que eu, Rayca.
Ela riu, tímida, tocando o lenço preso no cabelo.
— Se isso é força, então tô cansada de ser forte.
Ele se aproximou, ajoelhando-se ao lado dela.
— Mas é. E eu admiro isso.
Com o passar das semanas, a amizade deles floresceu de forma natural. Nico começou a trazer café da manhã para ela antes do treino. Rayca, por sua vez, levava frutas cortadas para ele comer após os treinos, dizendo que o corpo dele “não era de ferro e precisava de vitaminas”.
— Você vai acabar sendo minha nutricionista — ele brincou um dia.
— E você vai acabar sendo babá da Nina — ela retrucou, rindo, ao ver a filha subir no colo dele sem cerimônia.
Nico era gentil com Nina. Brincava com ela, fazia caretas, ensinava golpes de sombra, mesmo que suaves, como um jogo. A menina ria como não ria há tempos.
— Você tem jeito com crianças — Rayca comentou.
— Nunca pensei nisso, mas... com ela é fácil.
— Ela sente quando alguém é bom de verdade.
Ele desviou o olhar, desconcertado. Como se não soubesse o que fazer com um elogio assim.
Apesar da aproximação, nenhum dos dois falava de sentimentos. Ambos sabiam que carregavam cicatrizes demais para se jogar em qualquer coisa parecida com amor. Mas havia algo ali. Algo que crescia como uma faísca em palha seca.
Uma tarde, depois do expediente, Nico a esperou na saída.
— Te acompanho até o abrigo?
— Você vai a pé até lá?
— Melhor do que te deixar sozinha. Esse bairro não é exatamente seguro.
Ela hesitou, mas acabou aceitando. Caminharam lado a lado, em silêncio. Às vezes, as mãos se roçavam por acaso, e ambos fingiam que não tinham sentido. Mas tinham.
Chegando ao portão do abrigo, Rayca parou e se virou.
— Por que está sendo tão gentil comigo?
— Por que não seria?
— Porque... ninguém é. Não de graça.
Ele deu de ombros.
— Talvez porque eu veja você de verdade. E talvez... porque você me vê também.
Ela sentiu um aperto no peito. A vontade de abraçá-lo ali mesmo. Mas se conteve.
— Boa noite, Nico.
— Boa noite, Rayca.
Naquela noite, Rayca demorou a dormir. Ficou olhando para Nina, já adormecida ao lado dela, e se perguntando se era certo se permitir algo novo. Algo que não fosse dor ou luta.
Na academia, Nico batia no saco de areia com mais força do que o necessário, tentando tirar da cabeça aquela mulher de olhos doces e voz firme que parecia ter se infiltrado no coração dele sem pedir licença.
Ele não sabia se merecia alguém como ela. Mas sabia que queria tentar.
E assim, entre olhares silenciosos e gestos sutis, uma amizade que parecia improvável se tornava o alicerce de algo mais forte. Mais perigoso.
Mais verdadeiro.
Eles não eram apenas sobreviventes. Eram dois corações remendados tentando aprender a bater no mesmo ritmo.
E o mundo, lá fora, que esperasse. Porque dentro daquela academia, eles já estavam travando a maior das lutas:
A de confiar.