O convite veio numa tarde abafada, quando Rayca limpava os vestiários da academia.
— Rayca — a voz de Nico a tirou dos pensamentos.
Ela se virou e viu aquele sorriso torto que ele só usava com ela. Suado, com as luvas penduradas no ombro, ele parecia um adolescente nervoso prestes a fazer uma pergunta importante.
— Você vai estar livre sábado à noite?
Ela arqueou uma sobrancelha, tentando disfarçar o coração acelerado.
— Depende... por quê?
— Vai ter uma luta no ginásio da cidade. Não é oficial, mas vai ter imprensa, patrocinadores, essas coisas. Eu vou lutar. Queria que você fosse.
Ela parou por um segundo. O coração deu um salto.
— Eu? Mas por quê?
— Porque vai ser importante pra mim. E... queria te ver lá. Com a Nina também, se quiser.
Rayca fingiu pensar, mas a verdade é que já estava dizendo “sim” dentro da cabeça desde que ele abriu a boca.
— Eu vou. Claro que vou.
No sábado, Rayca sentia que as mãos não sabiam mais o que fazer. O nervosismo era tanto que ela quase derrubou o batom no chão da pensão.
Vestiu seu melhor vestido — um que Paloma lhe dera tempos atrás, azul-escuro, justo na cintura. Nina dormia com a vizinha do quarto ao lado, e Rayca descia as escadas como quem ia para um encontro às cegas com o próprio destino.
Ela chegou cedo ao ginásio. O lugar fervilhava de gente: luzes, câmeras, música alta, cheiro de pipoca e suor. Sentou-se nas arquibancadas, perto do ringue, e aguardou com os olhos atentos, cheios de expectativa.
Nico ainda não havia aparecido.
O apresentador começou a aquecer a plateia. Rayca notou repórteres, flashes, e algumas mulheres que pareciam saídas de um catálogo de moda. Uma delas se destacava: loira, alta, sorriso de revista, um vestido vermelho que parecia ter sido feito sob medida para exibir poder.
E então ele entrou.
Nico.
Com a cabeça erguida, vestindo um moletom preto com o nome da academia nas costas. Caminhava com passos firmes, confiante, saudando o público. Rayca sorriu, o coração se aquecendo.
Mas o sorriso congelou segundos depois.
A loira caminhou até ele e o abraçou pela cintura. Em frente às câmeras.
Nico sorriu para ela. Beijou-lhe o rosto. Posou para as fotos.
O apresentador anunciou:
— Com vocês, Nicholas Santiago, o invicto das ruas! Ao lado dele, sua noiva, a modelo e empresária Fabiana Villar!
O mundo de Rayca parou por um segundo.
Noiva?
Ela sentiu como se tivesse levado um soco no estômago. A plateia aplaudia, gritava. Os flashes explodiam. Mas dentro dela, tudo silenciou.
O rosto dela ficou quente. O peito apertado. As mãos tremiam.
“Foi só um convite qualquer”, ela pensou. “Ele nunca disse que era especial. Eu criei tudo na minha cabeça.”
Mas mesmo tentando se enganar, as lágrimas vieram. Silenciosas. Teimosas.
Levantou-se antes mesmo da luta começar. Saiu com pressa, tentando não ser vista. No caminho, um dos repórteres trombou com ela, derrubando parte do material de gravação.
— Desculpa, senhora!
Ela não respondeu. Apenas caminhou rápido, como se o chão fosse desabar a qualquer momento.
De volta ao abrigo, sentou-se na cama sem acender a luz. Nina dormia tranquilamente, alheia ao turbilhão da mãe. Rayca tirou os sapatos, largou a bolsa no chão e desabou.
Chorou.
Como há muito tempo não chorava.
— Que burra, Rayca... — sussurrou para si mesma. — Que iludida...
Sentia-se pequena, ridícula, vulnerável. Como se todo o esforço para reconstruir sua dignidade tivesse sido em vão.
Ela confiara. De novo. E de novo, sentia-se descartada.
Não era só sobre Nico. Era sobre tudo. A vida, o passado, as perdas, o medo constante de ser esquecida.
E naquele momento, sozinha, com o vestido amassado e a alma ferida, Rayca prometeu a si mesma:
Nunca mais.
Nunca mais se deixaria levar pela fantasia. Nunca mais deixaria que um homem a desestabilizasse. Nunca mais se entregaria ao risco de acreditar.
Enquanto isso, no ginásio, Nico terminava a luta com os braços erguidos, a multidão em delírio. Mas havia algo faltando no sorriso dele.
Fabiana o puxava para as fotos, falava com os patrocinadores, mas seus olhos corriam o tempo todo para as arquibancadas. E o que não viu lá doeu mais do que qualquer soco no ringue:
Rayca.
Ela não estava mais ali.
E, sem saber por que, isso o incomodou mais do que deveria.