Capítulo 11 – A Verdade que Machuca

829 Palavras
O silêncio da casa parecia ainda mais profundo sem Nicolas. Desde que ele viajou para São Paulo para o campeonato, Rayca tentava ocupar a mente com os cuidados de Nina, com as tarefas domésticas, com qualquer coisa que não a fizesse pensar em como sentia sua falta. Ela dizia a si mesma que era por poucos dias. Que ele voltaria. Que a promessa dele bastava. Mas o destino, impiedoso como sempre, tinha outros planos. No terceiro dia de viagem de Nico, Rayca recebeu uma visita inesperada. Bateram à porta da casa com força. — Quem é? — Tem uma encomenda pra dona Rayca Wilmer. Precisa assinar. Com Nina no colo, ela abriu a porta. Um homem de terno, óculos escuros e olhar frio lhe estendeu um envelope pardo. — Isso não é meu. — Tá com teu nome, senhora. Só assina aqui. Sem escolha, ela assinou e o homem foi embora sem dizer mais nada. Com o coração acelerado, trancou a porta e abriu o envelope. Dentro, uma carta anônima e uma pasta cheia de cópias de documentos. A primeira frase já a fez tremer: "Você sabe mesmo com quem está se envolvendo?" A cada folha que lia, os olhos de Rayca se arregalavam mais. Era o dossiê completo de Nicolas Santiago: registros policiais, um histórico da época em que ele esteve preso na fronteira por tráfico de drogas, detalhes do acordo que o liberou com a ajuda de um empresário ligado ao submundo. Um nome em especial chamou sua atenção: Rogério Villar. — O treinador dele… Mais do que isso, ali havia fotos. De Nico, ainda adolescente, com armas na cintura, entregando pacotes suspeitos a homens armados do lado venezuelano da fronteira. Imagens que pareciam ter sido tiradas por câmeras escondidas, como se alguém o estivesse vigiando desde muito antes da fama. Rayca sentiu as pernas fraquejarem. Sentou-se no chão da sala, com os papéis espalhados à sua frente. — Por que você não me contou nada disso, Nico? Durante o dia, tentou fingir normalidade por Nina. Mas sua cabeça latejava. Pensou em ligar para ele. Mandar uma mensagem. Dizer que precisava conversar. Mas como? Ele estava prestes a lutar o campeonato da vida dele. Um campeonato que, agora, ela suspeitava que envolvia muito mais do que apenas boxe. À noite, Rayca recebeu outra visita. Dessa vez, de alguém que ela esperava menos ainda. — Fabiana? A loira estava impecável como sempre, usando um vestido justo e maquiagem impecável. Atrás dela, um carro de luxo estacionado. — Vim conversar. Só nós duas. Não se preocupe, não trouxe câmeras nem repórteres. Rayca hesitou, mas a curiosidade foi maior. Deixou Fabiana entrar. — Você sabia? — Sabia o quê, querida? Que o Nicolas não é nem metade do santo que você pensa? Rayca ficou em silêncio. Fabiana caminhou pela sala com um sorriso debochado. — Você é uma mulher inteligente, Rayca. Consegue ligar os pontos. Nicolas só está onde está porque fez acordos com gente perigosa. Villar? Ele é só o começo. Tem políticos, empresários, até policiais envolvidos na imagem que criaram pra ele. — Por que está me dizendo isso? — Porque você precisa cair na real. Você e sua filha são um problema. Um risco. E se você acha que ele vai largar tudo isso — contratos, fama, dinheiro — por amor… então é mais ingênua do que parece. Rayca sentiu o sangue ferver. — Ele não é como vocês. — Ele é pior. Porque ele finge que não é. Fabiana sorriu, satisfeita por ter plantado a dúvida. Antes de sair, deixou um recado. — Quando ele voltar, pergunta a ele sobre o acordo que assinou. Pergunta o que ele prometeu em troca da liberdade. Talvez isso te ajude a decidir se quer mesmo continuar nessa história. Rayca passou a madrugada em claro. Pegou os papéis do envelope, olhou para as fotos de Nico jovem, perdido, sujo nas ruas. Era ele, sim. Mas ao mesmo tempo, não era. — Será que ele ainda carrega tudo isso dentro dele? Nina acordou chorando. Febril de novo. E Rayca, sozinha, sem respostas, teve que cuidar da filha sem a menor ideia do que fazer com tudo aquilo que descobrira. Na manhã do dia seguinte, Nicolas ligou. — Rayca? Como tá a Nina? Vocês tão bem? Ela hesitou. — Estamos… sobrevivendo. — Sua voz tá estranha. Aconteceu alguma coisa? Ela quis despejar tudo. Contar sobre o envelope, a visita de Fabiana, os documentos, as fotos. Mas algo a impediu. Talvez o medo. Talvez o amor. — Depois a gente conversa. Quando você voltar. Silêncio do outro lado. — Você confia em mim? Ela fechou os olhos. — Eu quero confiar. — Então só me espera. Eu tô voltando pra vocês. Mas Rayca sabia… quando ele voltasse, a conversa não poderia mais ser adiada. E talvez, apenas talvez, o que ela descobrira fosse forte o suficiente para colocar um ponto final no que construíram. Ou o começo de uma luta muito maior.
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