O silêncio da casa parecia ainda mais profundo sem Nicolas. Desde que ele viajou para São Paulo para o campeonato, Rayca tentava ocupar a mente com os cuidados de Nina, com as tarefas domésticas, com qualquer coisa que não a fizesse pensar em como sentia sua falta.
Ela dizia a si mesma que era por poucos dias. Que ele voltaria. Que a promessa dele bastava.
Mas o destino, impiedoso como sempre, tinha outros planos.
No terceiro dia de viagem de Nico, Rayca recebeu uma visita inesperada. Bateram à porta da casa com força.
— Quem é?
— Tem uma encomenda pra dona Rayca Wilmer. Precisa assinar.
Com Nina no colo, ela abriu a porta. Um homem de terno, óculos escuros e olhar frio lhe estendeu um envelope pardo.
— Isso não é meu.
— Tá com teu nome, senhora. Só assina aqui.
Sem escolha, ela assinou e o homem foi embora sem dizer mais nada.
Com o coração acelerado, trancou a porta e abriu o envelope. Dentro, uma carta anônima e uma pasta cheia de cópias de documentos. A primeira frase já a fez tremer:
"Você sabe mesmo com quem está se envolvendo?"
A cada folha que lia, os olhos de Rayca se arregalavam mais. Era o dossiê completo de Nicolas Santiago: registros policiais, um histórico da época em que ele esteve preso na fronteira por tráfico de drogas, detalhes do acordo que o liberou com a ajuda de um empresário ligado ao submundo.
Um nome em especial chamou sua atenção: Rogério Villar.
— O treinador dele…
Mais do que isso, ali havia fotos. De Nico, ainda adolescente, com armas na cintura, entregando pacotes suspeitos a homens armados do lado venezuelano da fronteira. Imagens que pareciam ter sido tiradas por câmeras escondidas, como se alguém o estivesse vigiando desde muito antes da fama.
Rayca sentiu as pernas fraquejarem. Sentou-se no chão da sala, com os papéis espalhados à sua frente.
— Por que você não me contou nada disso, Nico?
Durante o dia, tentou fingir normalidade por Nina. Mas sua cabeça latejava. Pensou em ligar para ele. Mandar uma mensagem. Dizer que precisava conversar. Mas como?
Ele estava prestes a lutar o campeonato da vida dele. Um campeonato que, agora, ela suspeitava que envolvia muito mais do que apenas boxe.
À noite, Rayca recebeu outra visita. Dessa vez, de alguém que ela esperava menos ainda.
— Fabiana?
A loira estava impecável como sempre, usando um vestido justo e maquiagem impecável. Atrás dela, um carro de luxo estacionado.
— Vim conversar. Só nós duas. Não se preocupe, não trouxe câmeras nem repórteres.
Rayca hesitou, mas a curiosidade foi maior. Deixou Fabiana entrar.
— Você sabia?
— Sabia o quê, querida? Que o Nicolas não é nem metade do santo que você pensa?
Rayca ficou em silêncio.
Fabiana caminhou pela sala com um sorriso debochado.
— Você é uma mulher inteligente, Rayca. Consegue ligar os pontos. Nicolas só está onde está porque fez acordos com gente perigosa. Villar? Ele é só o começo. Tem políticos, empresários, até policiais envolvidos na imagem que criaram pra ele.
— Por que está me dizendo isso?
— Porque você precisa cair na real. Você e sua filha são um problema. Um risco. E se você acha que ele vai largar tudo isso — contratos, fama, dinheiro — por amor… então é mais ingênua do que parece.
Rayca sentiu o sangue ferver.
— Ele não é como vocês.
— Ele é pior. Porque ele finge que não é.
Fabiana sorriu, satisfeita por ter plantado a dúvida. Antes de sair, deixou um recado.
— Quando ele voltar, pergunta a ele sobre o acordo que assinou. Pergunta o que ele prometeu em troca da liberdade. Talvez isso te ajude a decidir se quer mesmo continuar nessa história.
Rayca passou a madrugada em claro. Pegou os papéis do envelope, olhou para as fotos de Nico jovem, perdido, sujo nas ruas. Era ele, sim. Mas ao mesmo tempo, não era.
— Será que ele ainda carrega tudo isso dentro dele?
Nina acordou chorando. Febril de novo. E Rayca, sozinha, sem respostas, teve que cuidar da filha sem a menor ideia do que fazer com tudo aquilo que descobrira.
Na manhã do dia seguinte, Nicolas ligou.
— Rayca? Como tá a Nina? Vocês tão bem?
Ela hesitou.
— Estamos… sobrevivendo.
— Sua voz tá estranha. Aconteceu alguma coisa?
Ela quis despejar tudo. Contar sobre o envelope, a visita de Fabiana, os documentos, as fotos. Mas algo a impediu. Talvez o medo. Talvez o amor.
— Depois a gente conversa. Quando você voltar.
Silêncio do outro lado.
— Você confia em mim?
Ela fechou os olhos.
— Eu quero confiar.
— Então só me espera. Eu tô voltando pra vocês.
Mas Rayca sabia… quando ele voltasse, a conversa não poderia mais ser adiada. E talvez, apenas talvez, o que ela descobrira fosse forte o suficiente para colocar um ponto final no que construíram.
Ou o começo de uma luta muito maior.