Capítulo 12 – O Campeão Desconfiado

856 Palavras
O ginásio explodiu em gritos quando Nicolas ergueu os braços. O juiz apontou para ele, declarando sua vitória por nocaute no terceiro round. Era oficial: Nico era campeão sul-americano de boxe na categoria peso médio. Mas por dentro… ele não sentia nada. O som da multidão parecia abafado. As luzes dos holofotes o cegavam. Nem o sorriso largo de seu treinador, Villar, conseguia apagar a sensação incômoda que o corroía desde a ligação com Rayca. Ela estava diferente. Fria. Cautelosa. E ele sabia reconhecer quando alguém que amava estava se afastando. Horas depois, no camarim, Nico trocava de roupa enquanto jornalistas o aguardavam do lado de fora. Villar entrou com dois copos de uísque. — A noite é tua, campeão. Vamos comemorar. Nico pegou o copo, mas não bebeu. — Eu vou voltar pra casa hoje. Villar arqueou a sobrancelha. — Hoje? Você tá maluco? Tem coletiva, jantares com patrocinadores, entrevistas marcadas! — Cancela tudo. Eu já fiz o que você queria. Eu lutei. Agora quero ver minha filha. Minha mulher. O treinador engoliu o uísque de uma vez. — Aquela mulher é um problema. Tá te tirando o foco. — Tá me dando paz. — Paz não enche estádio. Nico se aproximou, encarando Villar nos olhos. — Se você tiver metido a mão na minha vida enquanto estive fora, eu juro que não fico calado. — Eu só protejo seu futuro, garoto. — O que você protege é o seu bolso. Sem esperar mais, Nico pegou a mochila, passou pela porta e ignorou completamente os repórteres que gritavam seu nome. Ele precisava voltar. Agora. Rayca estava sentada no sofá, com Nina no colo, quando ouviu o barulho do portão se abrindo. Seu coração deu um salto. Ele entrou rápido, suado, o olhar procurando por ela como se fosse a única coisa que importasse. Quando a viu, deixou a mochila cair no chão e atravessou a sala num segundo. — Rayca. Ela levantou-se com cuidado, e ele a envolveu em um abraço apertado, como se quisesse provar que ela ainda era real. — Você tá aqui — ela sussurrou. — Eu voltei. O silêncio que se seguiu dizia mais do que qualquer palavra. Havia um espaço entre eles. Algo novo, que não existia antes. E Nicolas sentiu. Ele a soltou devagar, olhando-a nos olhos. — O que aconteceu enquanto eu tava fora? Rayca hesitou. — Muita coisa. Ele franziu o cenho. — Alguém te procurou? Ela não respondeu. Pegou Nina e se afastou um passo. — A Nina piorou, precisei levar ela à emergência. Passei noites em claro. Mas ela tá melhor agora. — Rayca… não muda de assunto. Me diz o que você sabe. Ela respirou fundo. — Recebi um envelope. Documentos. Fotos. Do seu passado. Da cadeia. Dos acordos. Do… Rogério Villar. Nico sentiu um frio na espinha. — Quem te mandou isso? — Não tinha nome. Depois disso, a Fabiana apareceu aqui. — O quê?! — Disse que você tá preso num jogo de interesses. Que você nunca vai poder me escolher. Ele passou a mão no rosto, frustrado. — Ela tá certa, em parte. Mas só em parte. — E qual parte você quer me contar agora, Nico? Ele a conduziu até o sofá e sentou-se ao lado dela. — Quando fui preso, achei que minha vida tinha acabado. Eu era só um moleque ferrado, preso por tráfico, e ia apodrecer numa cela. Mas o Villar apareceu com uma proposta. Ele me tiraria dali. Em troca, eu assinaria contratos, obedeceria a certas regras. Faria parte de um plano pra criar uma estrela do boxe. — E você aceitou. — Eu não tinha escolha. Mas sim, aceitei. E por um tempo, achei que aquilo era tudo que eu queria: fama, dinheiro, respeito. Mas depois que te conheci, Rayca, eu percebi que eu só queria uma vida de verdade. Ela baixou os olhos. — Você me escondeu isso todo esse tempo. — Eu tentei te proteger. Acreditei que se deixasse esse passado enterrado, ele não nos atingiria. Mas o Villar não é homem de esquecer seus investimentos. E agora ele tá usando você pra me controlar. Rayca segurou a mão dele. — Então me deixa te ajudar. Não me esconde mais nada. Eu prefiro a verdade feia do que uma mentira bonita. Ele a olhou com intensidade. — Eu tenho medo de te perder. — E eu tenho medo de nunca saber quem você realmente é. O silêncio entre eles foi quebrado por Nina, que acordou assustada com uma tosse seca. Rayca correu até ela e a pegou no colo. Nicolas a acompanhou com o olhar cheio de ternura. — Essa menina é minha família, Rayca. Vocês são tudo o que importa pra mim agora. E eu juro que vou dar um jeito nisso. Ela assentiu, mas o peso da desconfiança ainda pairava no ar. Naquela noite, Nicolas dormiu na casa com elas, mas o clima já não era mais o mesmo. Pela primeira vez desde que se conheceram, havia um abismo entre eles. E o pior: não sabiam se conseguiriam atravessá-lo juntos. Mas uma coisa era certa… A luta verdadeira, agora, tinha começado.
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