O ginásio explodiu em gritos quando Nicolas ergueu os braços. O juiz apontou para ele, declarando sua vitória por nocaute no terceiro round. Era oficial: Nico era campeão sul-americano de boxe na categoria peso médio.
Mas por dentro… ele não sentia nada.
O som da multidão parecia abafado. As luzes dos holofotes o cegavam. Nem o sorriso largo de seu treinador, Villar, conseguia apagar a sensação incômoda que o corroía desde a ligação com Rayca.
Ela estava diferente. Fria. Cautelosa. E ele sabia reconhecer quando alguém que amava estava se afastando.
Horas depois, no camarim, Nico trocava de roupa enquanto jornalistas o aguardavam do lado de fora. Villar entrou com dois copos de uísque.
— A noite é tua, campeão. Vamos comemorar.
Nico pegou o copo, mas não bebeu.
— Eu vou voltar pra casa hoje.
Villar arqueou a sobrancelha.
— Hoje? Você tá maluco? Tem coletiva, jantares com patrocinadores, entrevistas marcadas!
— Cancela tudo. Eu já fiz o que você queria. Eu lutei. Agora quero ver minha filha. Minha mulher.
O treinador engoliu o uísque de uma vez.
— Aquela mulher é um problema. Tá te tirando o foco.
— Tá me dando paz.
— Paz não enche estádio.
Nico se aproximou, encarando Villar nos olhos.
— Se você tiver metido a mão na minha vida enquanto estive fora, eu juro que não fico calado.
— Eu só protejo seu futuro, garoto.
— O que você protege é o seu bolso.
Sem esperar mais, Nico pegou a mochila, passou pela porta e ignorou completamente os repórteres que gritavam seu nome. Ele precisava voltar. Agora.
Rayca estava sentada no sofá, com Nina no colo, quando ouviu o barulho do portão se abrindo.
Seu coração deu um salto.
Ele entrou rápido, suado, o olhar procurando por ela como se fosse a única coisa que importasse. Quando a viu, deixou a mochila cair no chão e atravessou a sala num segundo.
— Rayca.
Ela levantou-se com cuidado, e ele a envolveu em um abraço apertado, como se quisesse provar que ela ainda era real.
— Você tá aqui — ela sussurrou.
— Eu voltei.
O silêncio que se seguiu dizia mais do que qualquer palavra. Havia um espaço entre eles. Algo novo, que não existia antes. E Nicolas sentiu.
Ele a soltou devagar, olhando-a nos olhos.
— O que aconteceu enquanto eu tava fora?
Rayca hesitou.
— Muita coisa.
Ele franziu o cenho.
— Alguém te procurou?
Ela não respondeu. Pegou Nina e se afastou um passo.
— A Nina piorou, precisei levar ela à emergência. Passei noites em claro. Mas ela tá melhor agora.
— Rayca… não muda de assunto. Me diz o que você sabe.
Ela respirou fundo.
— Recebi um envelope. Documentos. Fotos. Do seu passado. Da cadeia. Dos acordos. Do… Rogério Villar.
Nico sentiu um frio na espinha.
— Quem te mandou isso?
— Não tinha nome. Depois disso, a Fabiana apareceu aqui.
— O quê?!
— Disse que você tá preso num jogo de interesses. Que você nunca vai poder me escolher.
Ele passou a mão no rosto, frustrado.
— Ela tá certa, em parte. Mas só em parte.
— E qual parte você quer me contar agora, Nico?
Ele a conduziu até o sofá e sentou-se ao lado dela.
— Quando fui preso, achei que minha vida tinha acabado. Eu era só um moleque ferrado, preso por tráfico, e ia apodrecer numa cela. Mas o Villar apareceu com uma proposta. Ele me tiraria dali. Em troca, eu assinaria contratos, obedeceria a certas regras. Faria parte de um plano pra criar uma estrela do boxe.
— E você aceitou.
— Eu não tinha escolha. Mas sim, aceitei. E por um tempo, achei que aquilo era tudo que eu queria: fama, dinheiro, respeito. Mas depois que te conheci, Rayca, eu percebi que eu só queria uma vida de verdade.
Ela baixou os olhos.
— Você me escondeu isso todo esse tempo.
— Eu tentei te proteger. Acreditei que se deixasse esse passado enterrado, ele não nos atingiria. Mas o Villar não é homem de esquecer seus investimentos. E agora ele tá usando você pra me controlar.
Rayca segurou a mão dele.
— Então me deixa te ajudar. Não me esconde mais nada. Eu prefiro a verdade feia do que uma mentira bonita.
Ele a olhou com intensidade.
— Eu tenho medo de te perder.
— E eu tenho medo de nunca saber quem você realmente é.
O silêncio entre eles foi quebrado por Nina, que acordou assustada com uma tosse seca. Rayca correu até ela e a pegou no colo. Nicolas a acompanhou com o olhar cheio de ternura.
— Essa menina é minha família, Rayca. Vocês são tudo o que importa pra mim agora. E eu juro que vou dar um jeito nisso.
Ela assentiu, mas o peso da desconfiança ainda pairava no ar.
Naquela noite, Nicolas dormiu na casa com elas, mas o clima já não era mais o mesmo. Pela primeira vez desde que se conheceram, havia um abismo entre eles. E o pior: não sabiam se conseguiriam atravessá-lo juntos.
Mas uma coisa era certa…
A luta verdadeira, agora, tinha começado.