Charlotte tropeçava nos próprios pés ao que voltava para o dormitório com o braço da melhor amiga sobre seus ombros às quatro da manhã. Os amigos tinham acabado de deixá-las na entrada, não muito diferente do estado em que elas estavam, preferindo assegurar que chegariam inteiras ao destino final. No entanto, eles deveriam ter subido, esperando até que ambas trancassem a porta e estivessem em total segurança.
Por alguns minutos, a ruiva ficou sentada em um degrau, recuperando a força de vontade depois de ter batido os dedos com força quando não levantou direito o pé esquerdo. Do jeito que estava, m*l sentiu dor, apenas pareceu certo se agachar enquanto, também, desejava que tudo ao seu redor parasse de girar. A verdade era que tinha uma hora desde o último copo de cerveja que tomou, começando a sentir os efeitos com mais clareza, assim como Roux.
Louise puxou a mão da melhor amiga quando esta apoiou os dedos no topo da sua cabeça, tentando se apoiar ali ao invés da parede ou corrimão, fazendo com que ela sentasse desajeitadamente — quase que em cima dela.
— Lou — a mais nova murmurou, encolhendo-se para abraçar os joelhos, pensativa.
Fontaine virou o rosto em resposta, percebendo tardiamente que não faria diferença nenhuma já que ela não a olhava, então, inclinou o ombro até que encostasse na melhor amiga, ficando com a cabeça apoiada na dela. Contudo, o silêncio continuou por minutos infindáveis, a mais velha achou que a morena tinha cochilado naquela posição confortável.
Ela fechou os olhos, sentindo o calor que emanava do corpo da morena contra o seu, um sorriso pequeno aparecendo em seus lábios com os flashes de alguns dos momentos em que dançaram horas antes aparecendo em sua mente nebulosa. E quando achou que o sono a levaria ao mundo dos sonhos, uma voz a chamou de volta para o presente, mas ela não entendeu de primeira, resmungando para que Charlotte repetisse.
— Quero adotar um gato.
Louise teve dificuldade de assimilar o que aquela frase realmente significava, uma careta foi feita ao que tentava pensar com clareza, não surtindo efeito.
— Filhote ou adulto? — perguntou, achando esse um ponto muito importante de saber antes de tomar qualquer decisão.
— O que você prefere?
Charlotte evitou responder qual seria sua opção, querendo que a melhor amiga pudesse escolher — dependendo, até mudaria de ideia. E Louise riu, achando graça como se tivesse escutado uma piada muito boa, abrindo os olhos.
— Não tenho preferência, ma bichette — disse a ruiva, a voz arrastada ao que erguia o braço para colocar ao redor dos ombros da morena, apertando levemente. — Todo mundo prefere os filhotes, eles são fáceis de encantar qualquer um, mas os adultos nem tanto e muitos estão na rua, totalmente abandonados.
A mais nova sentiu seu coração apertar com a verdade c***l que acabou de ouvir, uma tristeza a preenchendo quase que completamente. E fazia sentido, ninguém realmente queria um animal de estimação que já tivesse manias, ainda mais se fossem complicadas de conviver e um tempo mais curto com os donos. Isso mudava tudo, Charlotte precisou de um tempo para falar de novo, a indecisão tomando conta da sua mente.
— Estou dividida, podemos ter um de cada idade? — disse finalmente, abrindo os olhos para encarar a ruiva, que sorriu instantaneamente.
— Claro! — Era óbvio que a mais velha não pensou direito sobre o assunto, concordando sem pestanejar com algo que ela teria analisado os prós e contras. — Quanto mais, melhor, né?
O brilho no olhar da morena foi tão intenso que Louise se sentiu quente e envolvida pela felicidade da amiga apenas por estar sob a mira dela.
— Okay, sem pânico — a mais nova gritou, achando que seu tom era normal. A ruiva arregalou os olhos, fazendo o contrário do que Charlotte tinha dito. — Qual nome daremos para eles?
— Se for macho, Biche — A Fontaine murmurou, o indicador levantado enquanto pontuava suas ideias. — E fêmea, Bichette.
A Roux abriu tanto a boca quanto as safiras, completamente impressionada pela genialidade da melhor amiga. Fazia tanto sentido, combinando perfeitamente com elas.
— Você merece um beijo de tão incrível que é — a morena confessou, puxando a ruiva pelos ombros até que sua testa alcançasse os lábios da outra, causando risadinhas envergonhadas em Louise. — Não é à toa que o título de mulher mais inteligente do mundo inteiro é seu, né?
Mas Charlotte não deu espaço para que ela respondesse nada, logo emendando que tinham que chegar no dormitório, alegando estar morrendo de sede e a puxou pela mão, a ruiva quase caindo pelos tropeços que dava a cada degrau que pulava ao tentar acompanhar a amiga.
A mais velha não sabia como a morena conseguia andar tão rápido depois de todas as bebidas que tinham ingerido ou talvez ela que fosse mais fraca para qualquer drink. Pelo menos, em sua cabeça, nada mais girava como antes, o estômago calmo. As risadas recomeçaram e elas nem se importaram caso acordassem os vizinhos, imersas no que tinham que fazer — entrar em casa.
No entanto, ficaram encostadas de lado na porta assim que chegaram, cada uma esperando que a outra abrisse a passagem, achando que a chave estaria em algum canto do corpo, já que não seguravam bolsa nenhuma.
Os olhos estavam conectados, sorrisos desenhando os lábios bonitos de cada uma. Elas poderiam ficar ali o tempo que fosse, mas um alarme soou em Louise — precisava usar o banheiro.
— Vamos ficar aqui para sempre? — ela indagou, piscando algumas vezes em um mecanismo do qual acreditava que aliviaria a urgência que sua bexiga insistia em lhe perturbar.
— Não estou com a chave — Charlotte murmurou, os ombros e mãos erguidas, como se dissesse que não ela fazia milagres. — Achei que estava com você.
A ruiva tocou o corpo inteiro com os dedos, verificando se realmente não as tinha consigo, como se fosse uma policial revistando um criminoso, uma careta de confusão e quase desespero no rosto.
— Se quiser posso ajudar — a morena cantarolou, a língua para fora em uma expressão divertida. — E desde quando você guarda as coisas por dentro da roupa?
— É a primeira vez.
— Então está com você?
— Não.
Charlotte franziu as sobrancelhas, nada daquilo fazia sentido e Louise piscou cinco vezes, sua cara de paisagem mostrando o tilt que sua mente tentava superar depois desse minutos de pura confusão. Estava apertada e nenhuma solução viria do seu cérebro entorpecido, começando a trocar o peso dos pés na famosa dança de quem tinha a bexiga cheia e sairia espontaneamente a qualquer segundo.
A mais nova, percebendo o apuro da melhor amiga, deu as costas para ela, andando até a porta mais próxima. O vizinho abriu na quinta batida, a cara de sono dele só mostrava o óbvio, Charlotte tinha acordado o coitado de um sono maravilhoso.
— Salut! — saudou ela, sorrindo de forma meiga para que loiro a sua frente não batesse a madeira espessa bem na sua cara antes de conseguir o que queria. — Poderia nos ajudar? Preciso de um favor, estamos trancadas para fora e precisamos muito de um banheiro e um copo de água bem gelado.
Phillip piscou algumas vezes, um pouco perdido na fala da morena devido ao sono, contudo, não pediu que ela repetisse, apenas dando espaço para que as duas entrassem, indicando onde ficava cada uma das necessidades da qual Roux pontuou, por mais que o espaço fosse igual o dormitório delas. Louise riu com a ousadia da melhor amiga, não esperando menos da capacidade dela de a surpreender quando precisava de alguma coisa, fazendo tudo ao seu alcance para tal.
Depois de agradecer o vizinho mais gentil que tinham naquele prédio, a mais nova o abraçou apertado, bagunçando o fios curtos dele, achando uma graça a forma como ele ficou vermelho quando, também, segurou suas bochechas com apenas uma mão para no fim dar um beijo gelado no nariz dele. A ruiva descobriu que a melhor amiga era um perigo para a sociedade até bêbada, porque sóbria não bastava — suas ideias eram ainda mais loucas do que imaginava. No entanto, sempre que achava ser impossível ser surpreendida, Charlotte subiu o nível — o que não era de todo r**m. Agora, por exemplo, estavam no terraço espaçoso do dormitório.
Estava um pouco frio, porém, não o suficiente para tremer ou precisar descer, um clima gostoso de aproveitar a experiência que teriam em minutos — ver o sol nascer pela primeira vez na vida. Era muito melhor do que ficar sentada em frente a porta como se ela fosse abrir magicamente — o que não aconteceria, a menos que Pierre ou Thomas subissem com suas bolsas.
— Tenho que admitir uma coisa — Louise murmurou, quebrando o silêncio que as envolviam.
Charlotte, que abraçava seus joelhos, a cabeça que estava apoiada no braços foi virada para a ruiva, o olhar avisando que estava ouvindo. Naquele momento, ambas já sentiam que o álcool não mais predominava seus corpos, a consciência clara e alguns momentos da noite aparecendo aos poucos.
— Aprendi a respeitar suas ideias malucas — confessou, o semblante sério. — Se não fosse isso, eu teria feito xixi nas calças.
— Você está de vestido, Lou — apontou a morena, um sorriso de canto crescendo ao ver a reação dela. — O que seria bem pior.
A mais velha usou o pé, sem o salto há muitas horas, para tocar o coturno da outra, aproveitando para esticar as pernas no colo da Charlotte, que teve que abaixar os joelhos. Louise se ajeitou, chegando bem perto da melhor amiga, apoiando sua cabeça na dela.
— E...
A mais nova esperou ela continuar, seu coração batendo rapidamente de repente, uma expectativa crescendo desde a boca do estômago até a garganta, um frio interno a deixando ansiosa. Lottie se pegou imaginando se a ruiva também lembrava do que quase fizeram quando a mais velha seguiu para o banheiro ou todas as sensações de quando dançaram coladas. Ela não sabia o que vinha acontecendo, apenas que gostava muito de todos os estímulos que criavam juntas, a maioria terminando em selinhos.
Talvez devesse agradecer ao Thomas por ter impedido o que quer que iria acontecer, ainda estava em dúvida se era realmente algo que devesse ficar longe ou não. Aquele desafio foi feito para conquistar Pierre, o crush supremo que ambas tinham, não a melhor amiga. O que ele acharia disso tudo? Tempo perdido, que ela mentiu sobre seus sentimentos ou a terrível ideia de que era tudo uma aposta que os adolescentes faziam entre si, chegando na humilhação no final? Charlotte não queria nem imaginar as consequências se isso realmente acontecesse.
— Nós vamos mesmo adotar dois gatos?
A mais nova riu soprado, uma tensão saindo de seus ombros. Sua filosofia era a seguinte: se não conversasse sobre o assunto, colocando as cartas na mesa, não existia e ela não tinha que lidar com o problema. Funcionava até certo ponto, mas a m***a jogada no ventilador depois era bem pior. Charlotte procurava se resolver com as coisas que entendia e nada daquilo que sentia com a ruiva fazia sentido, apesar de não ser boa com as palavras.
— Estou disposta a negociar — disse suavemente, percebendo que o sol começava a nascer naquele instante. — Izzie, olha.
Louise ergueu primeiro os olhos, depois a cabeça para conseguisse observar direito o espetáculo bem diante de si. O céu mudava as cores lentamente, misturando um tom com o outro até que se transformasse na manhã ensolarada que aquele dia seria. A luz banhou a dupla, fazendo com que ambas semicerrassem as safiras e esmeraldas, para depois terem que usar as mãos para se protegerem.
Ainda era muito cedo, Paris inteira estaria dormindo por pelo menos mais duas horas, nada melhor do que se aconchegaram uma na outra para enquanto eram veladas pelo sol, entregando-se ao cansaço. Quando acordassem mais tarde, quente demais pelo calor direto que tinham sobre seus corpos, iriam até os amigos para recuperar a chave perdida. Sim, era um bom plano.