Week 8 - Famous Singer

2533 Palavras
A segunda ressaca foi melhor do que Pierre imaginou, nada comparado com a última. Ele chegou a pensar que, conforme a frequência aumentasse, mais acostumado e suportável ficaria. No entanto, o mais velho não sentia vontade nenhuma de testar sua teoria. Renaud perdeu a conta de quantos copos de cerveja e drinks destilados tinha ingerido na madrugada, o que não faria diferença nenhuma com o estrago feito. Agora que sabia o que esperar e sem aulas para comparecer, lidar com a dor de cabeça foi fácil. Ele teria ficado o resto do final de semana deitado, cochilando aqui e ali, mas Thomas tinha outros planos. Primeiro porque precisavam passar no dormitório das amigas para entregar suas bolsas, que de alguma forma acabou parando no apartamento quando chegaram, então assim que acordaram foi a primeira coisa que fizeram, passando na padaria no caminho para um café rápido. E depois de rodarem os cinco andares à procura da Charlotte e Louise, seguiram para o parque mais próximo. O mais novo tinha gostado tanto do passeio que fez com o melhor amigo quando ele o chamou alguns dias atrás que precisava tornar aquilo um hábito, a caminhada, o vento batendo no rosto, até mesmo o sol dificultando os passos cheios de exaustão, as conversas e risadas, tudo muito saudável. Foi inevitável que não arrastasse o zumbi que era Pierre naquele momento. — Cinco minutos, Tommy — afirmou Renaud, sendo praticamente puxado pela mão de tão sonolento e preguiçoso que estava se sentindo. — Acabamos de chegar, Perry — o outro disse risonho, achando fofo o jeito m*l humorado dele. — Vai querer mesmo andar tudo isso de volta? Pierre não respondeu de imediato, o outro achando que ele tinha desistido de argumentar, apressando o passo para o cantinho em que eles ficaram no outro dia. No entanto, o mais velho só estava pensando em um ponto que não deixaria nenhuma escolha a não ser voltar para o apartamento e sua cama macia e confortável. — Nós nem trouxemos um lençol, comida ou jogos. Thomas parou, fazendo com que o outro quase trombasse nele. Pierre devolveu o olhar que recebia, não tão divertido quanto o do amigo, que sorria abertamente. — Não precisamos disso — disse simplesmente, soltando a mão dele momentaneamente para amarrar o cabelo, o sol judiava sua nuca. — E você acabou de tomar café da manhã, então só vem comigo. Eles voltaram a se movimentar, o mais velho caminhando sozinho, a mão grande do melhor amigo encostando de leve enquanto elas balançavam uma ao lado da outra. E Leroy achou que tinha vencido, Pierre não teria mais nenhum argumento para fugir do parque, mas se enganou quando viu de relance que ele abriu a boca para falar o que queria. — Em silêncio chegaremos mais rápido. A careta emburrada que Renaud fez foi impagável, uma pena que Thomas não viu. No entanto, o mais velho não desistia tão fácil — dependendo do seu estado de espírito e força de vontade, o que no momento era quase nulo. — Eu só ia dizer que sua blusa está do avesso. O mais novo olhou primeiro para baixo, verificando a barra do tecido em seu corpo, depois a gola e rindo ao perceber que era verdade, contudo, deu de ombros, não se importando nem um pouco com aquilo. — Espero ficar rico — disse alegre, virando-se para o melhor amigo, mas ele tinha uma expressão confusa em seu rosto. — Nunca te falaram que ao vestir uma roupa do avesso sem querer traz dinheiro? — Isso é invenção do povo. — Pierre não era muito de acreditar em superstição, achando graça da capacidade das pessoas criarem coisas tão absurdas. — Se fosse assim, era para eu estar milionário. Thomas riu, sabendo bem como o mais velho era desatento ao se vestir, o que era um tanto engraçado já que ele era todo metódico com tudo em sua vida. — Só não venha pedir nenhum favor quando eu me mudar para uma casa chiquérrima de tão podre de rico que ficarei. Vou fingir que nem te conheço. Pierre se ofendeu, esticando os braços para bagunçar o cabelo do mais novo. Com um pouco de esforço conseguiu, seu amigo sendo bem mais alto do que ele, teve que ficar na ponta dos pés ou não conseguiria. Ele não teve tempo de retrucar, porque chegaram finalmente no lugar onde ficariam deitados a maior parte da tarde, outros assuntos tomando a atenção deles. Com as férias definitivamente iniciadas, Charlotte sentiu a necessidade de repor todo o sono do qual foi privada nos últimos meses. Ela acordava tarde, o rosto inchado de tanto dormir, a bateria recarregada para pentelhar a melhor amiga. Era a primeira vez que passavam todos os dias o tempo inteiro em casa, sem nenhum compromisso estudantil ou de trabalho. Até seria bom ter um dinheiro extra naquelas semanas de folga, mas a morena não conseguiria se despedir novamente de Émile e Amélie. Tinha se apegado mais do que necessário a aqueles dois, visitando-os sempre que dava. Chlóe vivia mandando fotos dos filhos, atualizando-a de todas as peripécias deles. E Louise apenas não queria, sabia que teria muitos clientes fixos precisando de massagem, no entanto, queria descansar. O semestre foi muito intenso, não somente com a grade horária que precisava cumprir, os trabalhos e provas, como também a parte emocional. Ela não esperava sentir a montanha russa de sentimentos novos com Pierre e, principalmente, Charlotte. Achou que sabia o que era estar apaixonada por alguém, contudo, era como se estivesse cega, tateando tudo ao redor, sem ter ideia de onde estava indo. No entanto, tinha um certo conforto familiar naquela bagunça toda, como um abraço quentinho. Louise tentava ser lógica, pensar bem antes de agir, tendo certo sucesso com o crush, mas ao ter a melhor amiga na jogada, ficava impossível e quando via, já tinha feito o que, aparentemente, seu inconsciente queria. E o pior de tudo, ela não se arrependia de nada, esperando por mais, como se estivesse sedenta. Elas ainda não sentaram para conversar sobre o que vinha acontecendo, a frequência aumentando cada vez mais, como se tivessem perdido o controle da situação. Charlotte engolia os sentimentos, preferindo não fazer nada para não estragar o que quer que tinham — e a amizade, o ponto mais importante a ser protegido. E Louise esperava ter mais conhecimento sobre o assunto, pensando em todos os aspectos, era como lidava com a vida — analisando os pontos para agir com sabedoria. Naquele momento, ambas estavam no sofá da sala do dormitório delas, a ruiva massageava tranquilamente os pés da melhor amiga, que fingia não estar cochilando ao ler um  livro do outro lado. Louise assistia atentamente a televisão, uma série de comédia para relaxar o cérebro. Tinham passado o dia assim, a calma e o silêncio entre elas não era nada mais do que um cobertor macio que as envolvia. Depois da noite no bar, as provocações e os estímulos, nada mais do tipo tinha acontecido. Não porque não quisessem, no entanto, era um pensamento em comum, ainda que não compartilhado, que precisavam esfriar entre si e focar no objetivo: conquistar Pierre. Repararam que não estavam se esforçando muito com ele, apesar da amizade crescer cada vez mais. O sentimento com o qual começaram não era o mesmo, preocupando-as com o final do desafio onde teriam que enfrentar a conversa inevitável sobre como se sentiam. Louise evitava pensar nisso, evitando uma boa dor de cabeça e uma crise de ansiedade, era tudo o que podia fazer naquele momento. E com um olhar de relance para o relógio na parede da sala, percebeu que se atrasariam para o encontro que marcaram com os amigos no karaokê perto do centro se não levantassem agora. — Char, temos que nos arrumar — disse, parando a massagem e desligando a televisão. — Mas já? — A morena se espreguiçou, dando um gritinho quando terminou. — Só mais dois minutos. Louise riu, bagunçando o cabelo da amiga ao passar por ela para chegar ao quarto. Estava se sentindo tão boazinha que deixou a mais nova aproveitar dez minutos de preguiça antes de perturbá-la para se vestir rápido. — A culpa é sua por ter me dado mais tempo do que pedi — resmungou, olhando-a com os olhos semicerrados. — Agora espera. — Eu realmente criei um monstro — Fontaine disse, mostrando a língua quando a outra fez questão de revirar as lindas safiras para si. O quarteto nunca tinha entrado em um karaokê, a experiência que tinham era puramente do que assistiam nos filmes e séries. No entanto, aquele em específico não era um bar, várias salas eram dispostas unicamente para cantar, além da recepção e banheiros. Ao entrarem, ficaram encantados com o aconchego que o cômodo lhes dava. Os sofás azuis eram macios e confortáveis, algumas almofadas ajudando na decoração. Todos sentaram e ficaram se encarando, perguntando silenciosamente quem começaria a passar vergonha. Pierre era certeza que não iria, balançando a cabeça o tempo todo que o melhor amigo erguia as sobrancelhas para ele. Louise se encolheu em seu lugar, a timidez a dominando por completo. Charlotte e Thomas levantaram ao mesmo tempo, sabendo que se dependesse dos outros dois, eles ficariam sentados apenas se encarando. Riram com a coincidência, batalhando com as expressões faciais para decidir quem iria, no entanto, em um acordo mudo, começariam com um dueto. A escolha da música foi mais demorada ainda, nenhum deles concordando com a sugestão do outro até que finalmente colocaram no aleatório. A ruiva conhecia muito bem a cantoria da melhor amiga, então não foi surpresa nenhuma ouvir a desafinação que Charlotte chamava de vocalizar. Já Pierre teve um leve susto, as sobrancelhas se erguendo ao que seu corpo foi para trás em reflexo. E Thomas, bom, podia ser colocado no mesmo grupo da morena, errando algumas partes da letra e do tom. O melhor de tudo era que ambos não se importavam com nada disso, as expressões e gestos que faziam deixava o ambiente mais divertido, como se estivessem em um clipe. Sem perceber, até Louise estava cantando com eles, mas sem sair do sofá. Quando a música acabou, o único intervalo de silêncio que tinham era o de clicar no botão do aleatório, desafiando os cantores nada profissionais presentes. As risadas às vezes ficavam mais altas que o som que saía dos altos falantes e gesticular já não era mais suficiente, eles inventaram passos de dança para incrementar o show, porque agora um público enorme os escutava — ainda que somente na cabeça deles. Pierre aplaudia ao final de cada performance, um sorriso alegre não deixava os lábios dele. E por mais que ele não quisesse participar da algazarra, estava se divertindo bastante. No entanto, sem pensar muito sobre e com uma troca de olhar com a morena, que piscou para ele, o mais velho levantou e escolheu a primeira música que seu dedo encontrou. Os outros berraram com a atitude ousada — vindo do Renaud, era muito corajoso —, sentando-se para o que viria a seguir. O trio ficou de boca aberta com a voz de anjo que ele tinha, apreciando como se Pierre fosse realmente um cantor famoso. — Entendi porque você não quis cantar antes — Charlotte disse, bebendo um pouco de água. — Não queria humilhar a gente. — Uma voz de anjo — Louise falou carinhosamente. — Devia largar a vida de fisioterapeuta e ser famoso — Thomar opinou, um sorriso nos lábios. — Imagina só assistir qualquer show de camarote. — E ter acesso ao backstage — a morena acrescentou, esticando-se para bater a palma da mão na do mais novo. — Iríamos ser famosos por tabela apenas por ser amigo dele. — Quantos outros cantores conheceríamos? — Os melhores, com certeza. Louise e Pierre intercalavam o olhar entre os dois, achando graça da empolgação deles. Como se fosse realmente tão fácil assim se lançar nesse mundo. O mais velho, introvertido do jeito que era, fugiria na primeira oportunidade de toda a atenção e estresse que imaginava que teria se realmente entrasse no mundo da fama. Preferia mil vezes ficar onde estava, na simplicidade do que o luxo e a vida agitada que provavelmente conseguiria. — Fiquem tranquilos que vou ficar famoso na fisioterapia — ele disse, uma certa ironia em sua voz. — Combina mais comigo. — Ah, isso não dá dinheiro, não, Perry — Thomas falou, abanando a mão como se o que o amigo tivesse dito fosse besteira. — Cantar, sim. — Você faz o mesmo curso que eu — Pierre murmurou, a expressão em seu rosto mostrava o quão contraditório o mais novo tinha sido. — Então esse é o que ele vai estudar no semestre que vem! — Charlotte quase gritou, apontando para Leroy, que a olhava confuso. — Não sabíamos qual era até agora. — Olha que você pode ser tão famoso quanto o Pier — Louise sugeriu, uma sobrancelha erguida. — Aproveita a chance. Thomas pareceu pensar na possibilidade, mas negou com a cabeça, ainda preferindo a ideia do melhor amigo ser um cantor de sucesso mundial. Foi uma tristeza quando o horário deles acabou, no entanto, tinham aproveitado cada segundo dentro daquela sala maravilhosa. Depois que descansaram, repondo o líquido no corpo para que cantassem ainda mais, voltaram a escolher duplas alternadas para darem seu show, às vezes acontecendo um solo — Pierre era sempre o escolhido. Agora, finalmente em casa, Louise recolhia as roupas espalhadas pelo quarto, que tinham usado apenas para escolher o look perfeito. Sua voz estava rouca e o cansaço pela noite agitada a fez decidir que dobraria no dia seguinte. Charlotte ainda estava no banho, cantando um pouco mais dentro do box. Sem saber o motivo, a ruiva sentiu a necessidade de deitar na cama da melhor amiga, querendo compartilhar seu sono com ela como faziam de vez em quando. A última vez foi no terraço do prédio, o sol as iluminando e aquecendo. Lembrar daquele dia trazia boas sensações, principalmente o rosto vermelho pelo contato direto que tiveram na pista de dança. E para aproveitar melhor, deitou a cabeça no travesseiro cheiroso da morena, fechando os olhos para visualizar com nitidez. Louise não percebeu quando dormiu, muito menos quando Charlotte sorriu carinhosamente antes de se aconchegar ao seu lado. Uma de frente para a outra, não tão perto, nem tão longe. Observar a melhor amiga era uma mania antiga que a morena tinha, aquecia seu coração sempre o que o fazia — era perfeito para desenhá-la, cada detalhe gravado em sua mente. A mais nova levantou, andando até sua mesa para pegar seu caderno de desenho e lápis, voltando para sentar na cama com cuidado, não queria que a ruiva acordasse e a pegasse no flagra, seria um presente para o futuro, assim como todas as outras folhas que tinha dentro da gaveta. Ela sabia que a amiga gostava de tudo o que rabiscava, mas não queria arriscar mostrar, que praticamente, só ela servia como inspiração. Charlotte se sentia o próprio j**k de Titanic, uma mistura de sentimentos a dominava, no entanto, a que predominava era amor.
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