Era dia de faxina.
Louise acordou cedo, como sempre, e antes que chamasse a dorminhoca que era a sua melhor amiga para que começassem a limpeza, decidiu preparar o café da manhã. Suas habilidades culinárias tinham melhorado muito nessas férias, a morena sendo uma ótima professora. Panquecas americanas viraram sua especialidade, sendo uma escolha perfeita para começar o dia.
E com o espírito da noite do karaokê ainda presente em seu corpo e uma playlist tocando não muito alto, a cantaria iniciou conforme a ruiva pegava os utensílios e ingredientes para começar. Ela adorava limpar, deixando-a com o humor muito bom pelo restante da semana, por isso, não foi difícil começar a dançar passos improvisados para acompanhar a melodia.
Ao terminar de assar as massa, faltava apenas a cobertura e Louise estava em dúvida de qual usar. Estava tão entretida no que fazia que não notou a morena chegar silenciosamente na cozinha, coçando os olhos de sono.
— Quero a geléia de morango — sussurrou na orelha da melhor amiga, assustando-a.
— Charlotte! — gritou, colocando a mão no coração, tentando acalmá-lo enquanto a mais nova ria levemente. — Você ainda vai me m***r se continuar com essa brincadeira.
Roux pediu desculpas em forma de abraço, agarrando a morena pela cintura e apoiando o rosto no ombro dela já que estava de costas. Elas ficaram assim por alguns segundos, Louise demorando para perdoá-la de propósito. No entanto, estava com fome, então com um beijo na testa todo desajeitado pela posição, a mais nova soube que estava tudo bem entre elas. Apoiou o quadril na pia, observando-a colocar o doce em suas panquecas, depois o chocolate nas dela.
— Estou gostando de ver — confessou, um sorriso nos lábios mostrando o quão orgulhosa estava da ruiva persistir naquele hobbie. — Se continuar assim, só você vai cozinhar daqui para frente.
— E deixar de comer os pratos deliciosos que minha melhor amiga e chef faz? — Elas trocaram um olhar, Charlotte revirando as safiras para o exagero que a outra contava. — Acho que terei que voltar a queimar vários cupcakes...
Louise deixou a frase no ar, indicando que faria o que estivesse ao seu alcance para que a morena cozinhasse para ela sempre que possível. Charlotte piscou os olhos em surpresa, nunca imaginando isso da melhor amiga.
— Isso é jogo sujo.
— As regras são claras — disse enquanto pegava os dois pratos para colocar na bancada, sentando-se no banco. — Vale tudo.
— Peraí — pediu Lottie, ocupando a outra cadeira, confusão definia a expressão que tinha no rosto. — Não estava sabendo disso. E outra, não assinei nada, então, pode parar de pensar nos seus truques.
— Quando nos mudamos, ma bichette. — Louise gargalhava, achando graça da reação da amiga. — Está tudo nas letras miúdas.
Charlotte parou para tentar lembrar de algo do tipo que tenha sido dito alguns meses atrás quando começaram a universidade, mas nada vinha em sua mente. Ela tinha duas alternativas possíveis: a ruiva estava inventando aquilo ou o Alzheimer chegou mais cedo do que previu. No entanto, quando a Fontaine mordeu o lábio três vezes seguidas, a morena soube que era a primeira opção — elas nunca tinham feito um contrato formal sobre cozinhar para sempre.
— Sabe de uma coisa? — a mais nova perguntou, finalmente começando a comer e a ruiva a olhou, esperando que ela continuasse. — Acho que eu que criei um monstro.
Lavar o banheiro nunca foi a atividade preferida da Roux, ela saía mais molhada do que se tivesse de fato tomado banho. E, infelizmente, no sorteio que faziam toda vez que tinham faxina para fazer, conseguiu ser a azarada em ficar com o cômodo inteiro do quarto, que incluía seu maior pesadelo.
Dobrar as roupas limpas, guardando-as no armário e separar as sujas era fácil, assim como varrer, passar o pano e arrumar as camas — bem simples, por mais que enrolasse o quanto possível já que parava a cada trinta segundos para trocar de música e verificar se tinha mensagem nova em seu celular. Naquele sábado, optou por começar pelo mais sofrido, colocando uma roupa leve para ajudar na movimentação que tinha que fazer enquanto limpava.
Ainda que odiasse aquele serviço, era muito divertido fazer com a melhor amiga — a morena tinha aprendido muitas coisas nesse tempo em que morava com ela, ficando surpresa com o quanto não sabia sobre esse assunto, admitindo que era mimada até então. Geralmente, Charlotte cantava o tempo inteiro, tirando algumas vezes que xingava quando algo dava errado — como, por exemplo, ter aberto o chuveirinho do box quando a boca estava direcionada diretamente para o seu rosto —, no entanto, naquele dia a música estava abafada, seus pensamentos aleatórios dominando sua mente por completo.
Tinha começado em como gostava da banda que cantava naquela hora, depois tentou se lembrar de quem a tinha lhe mostrado, passando diretamente para o momento em que só escutava os álbuns deles — chegando a conclusão que só fez isso para tentar se aproximar de uma amiga, pensando em ser o que as juntaria. Agora, estava perdida em como tinha chegado nas calças jeans novas que precisava comprar.
Pelo menos, quando percebeu, o banheiro estava brilhando. Se ela soubesse que se distrair dessa forma passava o tempo mais rápido, teria usado isso ao seu favor há meses atrás. E antes que começasse a arrumar o quarto, usou sua toalha para tirar o excesso de água que pingava do seu corpo. Cantar as músicas que tocavam no celular em sua cama foi inevitável, uma vez que trocou a playlist para algo mais animador, deixando a mente livre para apenas lembrar as letras que sabia quase que por completo.
Charlotte terminava de colocar os travesseiros na cama da melhor amiga quando a própria entrou correndo no cômodo, indo direto para o banheiro. A morena riu da pressa dela, só percebendo uma coisa quando a porta foi fechada.
— Não ouse sujar nem mesmo o espelho desse maldito salle de bain, Louise Fontaine! — avisou com um grito, não se importando de chegar mais perto, sabia que a ruiva a escutou.
O serviço tinha finalmente acabado e o que mais queria era um banho quente para relaxar, talvez, conseguindo uma massagem da melhor amiga. No entanto, lembrou que era ela quem devia uma para Louise. Por mais que não fosse boa naquilo, a mais velha nunca reclamava da sua inexperiência, oferecendo seu corpo para treinamento o tempo todo.
— Foi só um xixi inocente — Fontaine confessou assim que saiu, revirando os olhos para o drama que a morena tinha feito. — Seu santuário está exatamente como deixou.
— Sorte a sua — disse Charlotte, os braços cruzados sobre o peito. — Ou você perderia a massagem que estou te devendo.
— Ela não é negociável, Lottie. Fizemos o acordo em outras circunstâncias, não entra nesse quesito.
— Estou começando a achar que você cursa direito e não estética e cosmética, doutora Fontaine.
Louise fez uma expressão de culpa, erguendo o indicador até os lábios, pedindo que ela mantivesse o segredo guardado. E com passos largos, alcançou a morena que estava em sua cama, sentando-se ali, puxando-a para fazer o mesmo.
— Você tem mais alguma confissão que preciso saber? — a mais nova perguntou, olhando-a diretamente nas esmeraldas brilhantes em divertimento da melhor amiga. — Agora é o momento.
Fontaine desviou o olhar, decidindo rapidamente se contava ou não e a chamando com o dedo para que chegasse mais perto, esperou que a orelha da morena estivesse em uma distância boa para sussurrar.
— Só que eu te amo muito.
Charlotte levantou os olhos até os da ruiva, sorrindo tão grande que suas gengivas apareceram orgulhosamente. Ela segurou as bochechas da Louise, apertando levemente para não machucá-la e deu dois beijos nela, na testa e nariz.
— Esse eu já sabia, quero algo novo.
No entanto, o silêncio foi sua resposta.
Mais uma noite de cinema em casa acontecia naquele dormitório.
Louise recusou passar suas férias na casa dos pais, preferindo ficar no campus por duas razões: o desafio que continuaria sem descanso e a melhor amiga. Ela sabia que a mais nova não voltaria para a cidade onde passou a adolescência, ainda que pudesse levá-la consigo — sua família amaria tê-la com eles.
E não era que seus dias eram monótonos e chatos, agradecia por ter esse tempo de sobra, precisava descansar com urgência e ter Charlotte como companhia era mais do que poderia ter pedido. Elas finalmente conseguiram colocar as séries em dia, deixando a parte da noite exatamente para isso — a madrugada era longa, apesar da mais velha dormir no meio de alguns episódios. A morena também não durava muito, tinha se acostumado com os horários das aulas e virar a noite não era mais uma opção.
Dessa vez tinham escolhido um filme conhecido e visto, mas por nostalgia, De repente 30, sempre seria a melhor opção. Era a vez da Louise de decidir — lembrando da primeira vez em que ambas assistiram juntas. Charlotte nem mesmo julgou como sempre fazia, tendo aquela obra maravilhosa dentro do seu coração como seu preferido.
— Não sei se fico triste ou feliz com todos esses acontecimentos — a mais nova murmurou, abraçando uma das almofadas que tinha no sofá. — Me lembra de tempos que queria apagar da minha mente.
— Acho que muita gente passa por essas situações — Louise disse, pegando mais pipoca. — Nem percebemos na maioria das vezes. Quando estamos imersos, só vemos o que queremos ver.
O silêncio entre elas foi de concordância. Ser usadas para que pudessem se sentir em uma amizade era o que definia o passado delas, ainda que fosse unilateral. A protagonista acabava de fazer seu maior sonho para a magia que tinha na casa que ganhou de presente do seu melhor amigo, acordando com o sucesso.
— O que você pediria se tivesse a chance?
Charlotte olhou para a ruiva, pensando no que mais queria na vida. Seus pais passaram rapidamente em sua mente, mas não queria que as coisas melhorassem entre eles, ela sabia que sempre sairia machucada, independente do pedido que fizesse. Depois veio seu ensino médio, a vontade gritante que tinha de ter amigos verdadeiros, deixando-a insegura desde então. No entanto, não precisava mais disso. E a imagem de uma pessoa ao seu lado, um relacionamento amoroso que fosse bom o suficiente para não se preocupar se estaria sendo usada ou realmente amada. O sucesso profissional não teve espaço, a morena sabia que conseguiria isso mais cedo ou mais tarde.
— Não sei — confessou, desviando o olhar e erguendo os ombros. — Eu poderia pedir amigos sinceros, mas já tenho você e os meninos. Não preciso de mais nada.
Louise sentiu o coração aquecer, as esmeraldas ardendo com o choro que queria sair. Ela buscou a mão da melhor amiga, apertando os dedos dela com força, como se dissesse que estaria ali para sempre.
— E você?
O filme continuava passando na televisão, totalmente esquecido com o novo rumo da conversa. A mais velha deu de ombros, tentando pensar em algo, no entanto, tinha uma família maravilhosa, amigos como sempre quis ter desde o colegial, o trabalho como massoterapeuta daria certo com toda a certeza. Eram os pontos mais importantes que se importava — um relacionamento amoroso não era sua prioridade, por mais que o desafio que fazia toda semana dissesse o contrário.
— Já tenho tudo o que poderia querer.
Agora era Charlotte que sentia que começaria a chorar a qualquer segundo. Aquelas confissões era tudo o que precisavam saber, a sinceridade que as acompanhavam desde que se conheceram, a intensidade aumentando cada vez mais.
— Olhe para nós — a mais nova disse, enxugando uma lágrima teimosa. — Saímos dos seus filmes de romance, os mais melosos.
Louise riu, pegando a almofada que tinha entre as pernas para bater na melhor amiga, que puxou o objeto para si, querendo evitar que ela fizesse isso novamente. O silêncio voltou, ambas voltando a prestar atenção no filme, onde a principal se reconectava com o melhor amigo de infância. A ruiva pensou na sorte que ela tinha em ter se apaixonado por ele, que era um homem maravilhoso.
— Char.
A mais nova a olhou, esperando que falasse o que queria.
— Já que estamos sendo sinceras, o que você espera ter em um relacionamento?
Ela não precisou especificar qual tipo era, sabendo que seria amor, mais íntimo. Louise achou que seria perfurada pelo olhar intenso que a morena lhe dava, tentada a desviar sua atenção para qualquer canto da sala escura.
— Não me importo muito com demonstrações públicas, se tiver, bom, desde que não seja exagerada. Mas são nas pequenas coisas que sou conquistada — disse depois de alguns minutos pensando. — E se for para ser sincera, eu nunca tive nenhuma experiência com namoro, não sei bem o que esperar ou fazer.
A ruiva assentiu em silêncio, trocando um sorriso carinhoso com a morena. Sabia que não precisava esperar que ela perguntasse o que achava, estava implícito quando começou o assunto que era uma troca mútua.
— Na verdade, não faço ideia. Não fui sortuda em ter alguém gostando de mim a esse ponto.
— Eles são uns idiotas, Izzie.
Louise riu amargamente, dando de ombros. Ela não descartava a ideia de que talvez fosse uma pessoa tão difícil e odiável que ninguém quisesse se aproximar. No entanto, esse sentimento a assombrava de vez em quando, por mais que tivesse três amigos que não demonstravam ser interesseiros consigo.
— Eles não sabem o quão maravilhosa você é, uma verdadeira estrela brilhante — Charlotte disse firmemente, se aproximando de joelhos sobre o estofado para segurar as duas mãos da ruiva entre as suas. — Não deixe ninguém, nunca, te falar o contrário. A perda é deles e, melhor para mim, que terei minha melhor amiga por inteiro.
— Já devo ter dito milhões de vezes antes o quão sortuda eu sou por ter te conhecido, mas é algo que não vou cansar de admitir.
— O sentimento é mútuo — Charlotte sussurrou, abraçando-a apertado. — Promete que não vai me deixar ou esquecer?
— Como eu poderia?
A morena ergueu os ombros, vários motivos passando pela sua mente e todos sendo bobos.
— Eu sei que você não é igual a ninguém, mas muitos já me deixaram nessa vida. Não suportaria te perder também.
— Isso não vai acontecer, Char — afirmou a ruiva, separando os corpos o suficiente para que pudesse olhar as safiras diretamente. — Eu te amo e isso nunca vai mudar.
Charlotte assentiu, segurando as lágrimas que queriam cair por suas bochechas e, voltando a abraçar apertado os ombros da melhor amiga, sussurrou que sentia o mesmo.
O medo de tudo mudar com o final do desafio as deixavam mais inseguras, temendo que, por mais que tivessem assinado um contrato, as coisas ficassem diferentes entre elas. As sensações e emoções que vinham sentindo a cada vez que se tocavam — principalmente os selinhos e provocações — poderia tomar uma proporção muito maior do que imaginavam, a incerteza se tornando em angústia. Uma parte delas queria avançar, no entanto, a outra pedia para serem cautelosas. E enquanto não conversassem sobre isso, nada sairia do lugar.
— Quer sua massagem agora? — a mais nova perguntou, um sorriso no rosto corado.
— Vamos reagendar, esses abraços eram o que eu precisava.