011: Lindsey Baum

2312 Palavras
— Kyungsoo? O que houve? O ômega surgiu pela porta do quarto, estava visivelmente incomodado com algo. Jongin sempre fora de se preocupar com tudo, se precisassem de um ditado popular para descrevê-lo, certamente o descreveriam como “Tempestade em copo de água”. — Posso dormir com você? — Aparentemente era uma pergunta simples, mas não era o mesmo tom que ele usava na maioria das vezes. Kyungsoo sempre vinha assustado, falava de pesadelos e deitava encolhido, mas naquele momento ele parecia tão sério, seus olhos estavam sem foco, quase como se sua cabeça estivesse em outro mundo e ele andasse pelos cômodos de forma automática. — Pode, claro. O ômega deitou ao seu lado, mas diferente das outras vezes ele apoiou uma almofada sobre o colo do outro antes de se deitar sobre ele. Kyungsoo sempre apoiava sua cabeça sobre a perna do Kim. Não deveria ser motivo para estranhar, mas vindo de alguém com a mente de Kyungsoo, aquilo parecia ter um outro significado, como se pela primeira vez ele estivesse entendendo que haviam limites entre os contatos entre alfas e ômegas. Jongin franziu o cenho, queria fazer perguntas, mas não sabia por onde começar. — Eu sei que eu sou um ômega. — Mas foi o próprio Kyungsoo quem começou — E não deveria ter contatos tão íntimos com você o tempo todo, porque você é um alfa. — Nós somos amigos, não há tantos problemas assim. O outro umedeceu os lábios. — Teria se um de nós passasse a enxergar o outro como bem mais do que um amigo. — dito isto ele se virou para o outro. Jongin olhou para a parte de trás de sua cabeça, demorou alguns segundos para assimilar a frase. Não parecia o tipo de coisa que Kyungsoo falaria. O alfa se remexeu inquieto, e ao sentir o menor se virou para ele novamente, seus olhos ainda estavam muito distantes, pareciam tristes ou decepcionados com algo, não era assim que o ômega costumava olhá-lo. — Onde aprendeu essas coisas? — Não fale comigo como se eu fosse uma criança. — o ômega se mostrou frustrado, levantou do travesseiro e o puxou para si — Não sou uma criança, Jongin. — Eu não disse isso! — Contrapôs — É só que... a forma como você falou parecia estar me dizendo que... — Que eu gosto de você mais do que como um amigo? Era exatamente isso que ele queria perguntar e não sabia como. Jongin ficou calado, aquilo lhe pareceu ainda mais estranho, quando olhou para o rosto que estava sempre com os olhos apertados e apontados para ele com uma expressão feliz ou de admiração, encontrou íris acusadores, que pareciam lhe perguntava como ele não entendia o óbvio. Kyungsoo relaxou os ombros e olhou para seus joelhos. — Por que se admira tanto? — fora uma pergunta retórica — Por que te parece tão absurdo um ômega se apaixonar pelo alfa que o salvou e cuidou quando não tinha mais ninguém? Jongin, você não faz ideia do quanto você significa pra mim, do quanto você tem sido tudo pra mim! — Você diz isso porque não conhece outras pessoas além de mim. Mas ele não gostou de ouvir isso. Kyungsoo negou com a cabeça, sua expressão era de alguém que não acreditava no que havia ouvido. Colocou o travesseiro de volta no lugar e desceu da cama, e sem dizer mais nada ele saiu do quarto. O alfa se inquietou, nunca o vira irritado daquele jeito. Não parecia ele. Precisava tirar isso a limpo, aquele não era um bom ponto para a conversa acabar. Foi atrás dele e o encontrou no outro quarto, estava sentado na beirada da cama e olhava para os próprios pés. Quando o Kim parou na porta, Kyungsoo o olhou como quem já esperava que ele fosse atrás. — Eu não devia... — Não importa se não conheço muitas pessoas, Jongin, não sabia que para ter certeza do que eu sinto por você eu precisaria o comparar com os outros. Ele estava certo. — Eu não devia ter dito aquilo, me desculpe. — Assumiu, mas não sabia direito o que estava fazendo — Eu só... me assustei, eu acho, não esperava que você fosse falar que gosta de mim. Parecia que só naquele momento Kyungsoo havia se dado conta do peso de suas palavras. Coçou o braço esquerdo de maneira inquieta, havia assumido algo que não poderia simplesmente ser ignorado e agora os dois estavam ali, no meio da noite tendo uma conversa que eles não queriam prolongar tanto. Mas ela não tinha fim. — Jongin... é só... O que iria dizer? O alfa foi até ele e agachou-se ao lado da cama, agora estavam na mesma altura, mas aquilo não tornava a conversa mais fácil, piorava até. Kyungsoo olhou fundo em seus olhos e em seguida pôs as mãos nas laterais de seu rosto. — Por que eu não posso ser o seu ômega? — É mais complicado do que parece. — Ele queria ter dito outra coisa — Eu queria te entender, o que está escondendo de mim, Kyungsoo? Eu sei que se esconde com medo de que eu te deixe, mas eu não vou te deixar, quando eu disse que iria cuidar de você, estava falando de ir até o fim, de ir até onde fosse preciso para você estar bem e estar protegido. — Você tem feito um bom trabalho. — Não o suficiente para confiar totalmente. Mas Kyungsoo não tinha uma boa resposta para dar, era mais complicado do que parecia. Abraçou o pescoço do alfa e se colou a ele. Sentia-se bem quando estava com ele, e seu coração batia em um ritmo gostoso. Coisas boas aconteciam quando estava com Jongin e ele queria ter aquilo pra sempre. Todavia, havia um longo caminho até a paz que os dois precisavam. — Eu me lembro de muitas coisas agora, Jongin. — sussurrou bem perto do ouvido do Kim, ainda estava abraçado ao seu pescoço, quase como se quisesse ter certeza de que ele não iria embora — Meus pais... Eu me lembro do parquinho, me lembro do meu pai na porta da escolinha, me lembro dele ter dito pra eu não ter medo, que eu iria gostar da escola, minha mãe fazia biscoitos pra mim e eu sempre levava alguns comigo. Mamãe tinha um cheiro bom, ela gostava de estar sempre arrumada, usava flores no cabelo, papai dizia que ela era a mulher mais lindo do mundo e que tinha sorte de tê-la. Jongin sentiu a ponta dos dedos formigarem, Kyungsoo estava se lembrando de momentos felizes e isso era bom, mas por que ele não queria dividir esses momentos com ele? — Por que não me contou antes? — Eu não sei... — Jongin sentiu uma lágrima caindo sobre a pele de suas costas — Acho que sendo o Taeyang, tive medo de perder você. — Você não vai me perder. Mas falar já não era mais suficiente. Jongin o afastou lentamente e por fim olhou em seus olhos. O ômega tinha lágrimas escorrendo em suas bochechas, as enxugou e parando de pensar naquele momento, o Kim juntou seus lábios aos do menor e o beijou com toda a delicadeza do mundo. Seus lábios permaneceram juntos por cinco ou seis segundos e só então se separaram. O alfa sorriu. — Você não vai me perder. — ele repetiu — Taeyang.     [...]     Chanyeol sempre fora agitado, gostava de sentir a adrenalina nas veias, fora justamente por isso que seguira carreira na polícia. Sempre começava seus dias com alguma corrida curta, mas que fosse suficiente para esquentar o corpo. Tomava um banho e quase sempre tomava café a caminho do trabalho. Mas não naquela manhã, Baekhyun parecia satisfeito em preparar algo e mais satisfeito ainda em vê-lo aprovando tudo. O ômega ficou ali ao seu lado enquanto ele comia, sorria o tempo todo esboçando uma felicidade que o alfa não entendia muito bem. — Você parece estar bem diferente de ontem. — acabou por comentar — Da água para o vinho, eu diria. O menor coçou a nuca, sentiu-se nervoso com aquelas palavras. — É só que já faz muito tempo que eu não durmo com tanta tranquilidade. — confessou meio envergonhado — Como você mesmo já deve ter reparado, a minha vizinhança não é muito segura, então era sempre dormir com um olho aberto e o outro fechado. — Como pode se sentir seguro dormindo ao lado de um alfa que m*l conhece? — Eu conheço você, trabalhamos no mesmo lugar, a diferença é que você prende pessoas e investiga casos enquanto eu limpo o chão e as privadas. — ele riu de si mesmo — As pessoas normalmente te chamam de “Bom dia, Detetive”, enquanto me chamam de “Limpe isso aqui pra mim, garoto”. Chanyeol se sentia desconfortável na forma com que ele falava, a famosa risada ocupando o lugar do choro, era notório o quanto Baekhyun menosprezava a si mesma naquela situação. — O que você gostaria de ter se tornado? — Nunca pensei nisso, acho que esse sempre foi o meu maior problema, acreditava que um milagre iria acontecer a qualquer momento e que a minha vida se resolveria assim como nos filmes. — recolheu as xícaras e as levou para a pia — Me sinto um i****a por ter deixado a vida passar assim. — Talvez tenha sido só o primeiro ato, e as coisas possam mudar agora. O ômega se virou para ele. — Você pode prometer isso? — perguntou. — Talvez eu possa. “Se agarre ao que pode te salvar”, ouvira isso em uma série ou outra, e aquela frase se tornava cada vez mais palpável em sua vida. Só Chanyeol podia salvá-lo agora e Baekhyun estava se agarrando a ele o máximo que pudesse, mesmo que fazer isso fosse a mesma coisa que saltar em um abismo escuro, sem nenhuma ideia do que aconteceria quando atingisse o chão. Mas o que mais poderia fazer? Apoiou as mãos nos ombros do Park e o encarou bem de perto, Chanyeol não reagiu de forma nenhum e aceitou seus beijos assim como aceitou os outros. Haviam dormido juntos, mas nada havia acontecido, ele não queria que Baekhyun se prestasse a algo que não queria. Mas era aí que morava o problema, o ômega queria. — É melhor você ir se trocar, já está tarde. — Chanyeol não tentou afastá-lo enquanto falava — Separei uma muda de roupa pra você. — Deixa eu adivinhar, de algum ex-namorado que esqueceu por aqui? — Talvez. O ômega se afastou. — Já disse que eu detesto quando você fala “talvez”? — Talvez. E só então Baekhyun foi se trocar, a roupa acabou ficando um pouco larga, mas nada que desse para se incomodar. Sempre precisava levantar muito cedo para ir para o trabalho, pois o ônibus não iria espera-lo, estar no conforto de um carro era até estranho assim de primeira. As ruas eram tão movimentadas e estando assim sem tantas preocupações poderia apreciá-los melhor, podia notar coisas que até então não notava. Baekhyun se sentiu nostálgico, mas sabia que não tinha memórias de um tempo assim, sua vida sempre foi resumida em estar em um carrossel, sempre subindo e descendo, e a cada descida um novo frio na barriga. — Você pode parar um pouco, eu desço e vou andando. — Por que eu faria isso? O ômega se encolheu. — Você sabe, ser visto com um faxineiro. O Park negou com a cabeça, ele nem sabia de onde Baekhyun tirava essas coisas. Ele pensava demais, e seus pensamentos eram sempre muito negativos. Chanyeol não queria criticá-lo, conheceu muitas pessoas assim, que de tão acostumadas a viverem à marquem da sociedade, passaram a acreditar que tinham menos valor que as outras. — Não diga coisas assim. Baekhyun entrou pela porta da frente naquela manhã. Quase sempre o tempo que passava ali era curto, Chanyeol chegava, organizava sua mesa e recebia algum chamado, mas aquela manhã parecia burlar a regra, conseguiu sentar e gastar longos minutos com uma pilha de papel que havia sido magicamente deixada ali minutos antes dele chegar. As ignorou depois de alguns minutos, relatórios que não levariam a nada importante. Abriu um e-mail que recebera naquela manhã, algumas fotos que havia conseguido após se comunicar com alguns jornalistas que trabalharam no caso de Taeyang, haviam muitas fotos que não haviam sido utilizadas pela mídia, algumas delas com uma qualidade bem melhor do que as que encontrou antes. Fotos de toda a família Do, parentes próximos e os que foram considerados suspeitos. Tinha muita coisa ali. — Com licença. — chamou um dos policiais que andava por ali perto — Chame para mim Byun Baekhyun, ele deve estar na dispensa. — O faxineiro? — É, esse mesmo. O rapaz foi, mesmo que estranhando tudo. Baekhyun veio com ele poucos minutos depois, tinha uma expressão preocupada quando se aproximou, veio que quase com os olhos para fora da caixa. — O que houve? — ele perguntou. Chanyeol apontou para fotos na tela do computador. — Veja essas fotos, vou passando e você me diz caso reconheça algo ou alguém, tudo bem? Ele assentiu com a cabeça. Mas Chanyeol não precisou passar muitas fotos, Baekhyun viu as fotos da mãe de Kyungsoo, de seu pai e assim se seguiu para os demais membros da família. Ele não titubeou quando um deles lhe chamou atenção. — Esse aqui! — o ômega apontou para a tela com veemência — Eu me lembro desse casaco, tenho certeza de que é ele. — Do que se lembra? — Foi ele que levou do orfanato. Chanyeol voltou os olhos para a tela e lá estava o nome do arquivo, Henry Lau, meio-irmão mais velho.
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