009: Sabrina Aisenberg

2193 Palavras
— Estamos em um hospital, não pode fumar aqui, sabe disso.                 E Chanyeol não cultivava o hábito de fumar, algo que não passava despercebido aos olhos de Jongin, que naquele detalhe podia ver que algo incomodava seu amigo. O Park só recorria ao cigarro quando estava pensativo ou preocupado com algo. E motivos para se preocupar, Chanyeol tinha o tempo todo, se estava fumando apenas agora, significava ser algo que o envolvia pessoalmente.                 — Por que está assim? — o médico queria ir direto ao ponto, mesmo que já soubesse que o outro apenas se desviaria.                 Chanyeol detestava falar sobre si mesmo.                 — Não é nada, apenas ando estressado com o trabalho, sabe como as coisas são. — e sabendo muito bem como Jongin era, tratou de buscar o melhor meio para se tirar de foco — Pesquisei mais à fundo sobre o caso do garoto da foto que te mostrei.                 — O que descobriu?                 — O nome dele é Do Taeyang. — saber o nome já ajudava em muita coisa — Ele tem 24 anos tinha seis quando desapareceu, seus pais e irmão mais velho ainda estão vivos, o endereço deles ainda consta como sendo na mesma casa em que viviam quanto Taeyang desapareceu, em Gangnam-gu.                 O médico suspirou.                 Isso deveria soar como uma notícia boa, Kyungsoo, ou Taeyang, ainda tinha uma família, uma família que provavelmente acreditava que ele já estava morto e que por isso não o haviam mais procurado. Kyungsoo não havia sido abandonado, ele havia sido levado embora, e isso deveria ser algo bom, deveria ficar feliz com essa notícia. Mas infelizmente não estava, não pela notícia em si, porém pelo que ela causaria ao ômega.                 Que ainda não estava pronto para lembrar.                 — Por quanto tempo a família o procurou?                 — 10 anos, até serem desenganados pelo tempo, sendo obrigados a acreditar que o menino estava morto, pois era melhor estar morto do que ter passado todos esses anos sendo oprimido e provavelmente sofrendo nas mãos de alguém. — Chanyeol dizia isso diante de suas experiências com casos do tipo, a família se obrigava a torcer pela morte, o único estado em que poderiam ter certeza de que seu ente querido não estava sofrendo — Mas você sabe como os pais são, acredito que ainda tenham esperanças de o encontrarem de novo.                 Jongin não sabia o que pensar sobre isso naquele momento.                 — Se Kyungsoo estiver de acordo, vou entrar em contato com essa família para fazermos um exame de DNA e descobrir se são mesmo seus pais, se forem será bom para ele, era só um garotinho quando foi levado, acredito que sinta falta deles.                 — Os pais dele chegaram a serem suspeitos?                 — Não, sua mãe trabalhava como confeiteira em casa, a casa estava cheia de outros confeiteiros que trabalhavam com ela no momento do desaparecimento. O marido estava no trabalho, os colegas confirmaram tudo. Como o caso repercutiu muito, foram feitos testes com polígrafo e peritos faciais, eles diziam a verdade ao relatarem sobre o quanto amavam o garoto e que nunca teriam coragem de o machucarem. — ele disse — Mas isso não impediu a população de os acusarem, muitos ainda acreditam que eles próprios deram fim ao garoto.                 — E o irmão?                 — Não há muitas informações sobre ele, tudo o que se sabe era que se dava muito bem com a mãe, com o padrasto e principalmente com o irmão caçula, há relatos dos vizinhos sobre eles estarem sempre juntos e que Henry era um irmão mais velho zeloso.                 Jongin se inquietou, uma família completamente sem nenhuma suspeita, aparentavam serem pessoas boas e saber que alguém havia tido a coragem de tirar um garotinho de seis anos do seio de uma família que tanto o queria bem parecia absurdamente assustador.                 E c***l.                 — Foram muitos suspeitos descartados por falta de provas, mas acredito que esse não seja um bom ambiente para falarmos sobre isso. — trazia consigo uma pasta amarela com mais detalhes para que o Kim os visse em casa, havia juntado todas as informações disponíveis sobre o caso, que mais se pareciam com uma imensa teia de aranha, sem saber onde estava a ponta e onde terminava — Vamos marcar em uma hora mais apropriada, estou um pouco atolado essa semana, tenho outras investigações para concluir.                 — Certo, vamos encontrar um momento melhor.     [...]                     Kyungsoo estava cozinhando o jantar, ele gostava.                 Sempre que Jongin chegava, ficava parado na porta da cozinha o admirando por uns poucos segundos, Kyungsoo parecia feliz. O médico se perguntava como as coisas ficariam em alguns dias, algumas semanas ou alguns meses. Não duraria para sempre, e não era bom apegar-se à imagem de ter o ômega na sua cozinha o esperando chegar todos os dias.                 Não, logo ele partiria, talvez não voltasse mais.                 — Você chegou. — o menor finalmente notou sua presença, abrindo um sorriso largo naquele momento, o sorriso mais meigo do mundo — O jantar já está quase pronto.                 — Está com um cheiro ótimo.                 Jongin ainda não sabia direito como agir diante de tudo o que havia descoberto. Em partes queria saber o que aconteceria caso Kyungsoo soubesse mais sobre si mesmo, e em partes tinha medo da tal reação. Talvez fosse ser muito para ele suportar.                 Kyungsoo era frágil, estava frágil.                 — Eu vou tomar um banho e já venho... — mordeu os lábios ansioso, ainda não tinha certeza daquilo, mas precisava arriscar — Me espere para jantarmos juntos, Taeyang.                 Mas o que ocorreu não estava previsto por ninguém. O ômega pareceu perder as forças do próprio corpo, seus dedos adormeceram e o prato de vidro em suas mãos foi parar no chão, despedaçando-se em vários pedaços, que se espalharam pela cozinha antes mesmo que qualquer um dos dois pudesse absorver o que estava acontecendo naquele milésimo de segundo.                 O alfa agoniou-se ao ver todos aqueles pedaços de vidro no chão, muitos cobriam os pés de Kyungsoo, os perfurando e fazendo com que sangrassem. Correu na direção do mesmo e o ergueu do chão o tirando de sobre os montes de cacos, rapidamente o pôs sentado sobre a pia de aço. Kyungsoo parecia estar em outro mundo, ele não tinha nenhuma reação, nem mesmo parecia sentir a dor dos cortes sobre seus pés. Ele não reagiu em momento nenhum, ficando completamente em silêncio enquanto o médico tirava os cacos que haviam ficado presos e colocava curativos sobre os mesmos.                 — Você está bem? — Jongin perguntou depois de estarem por tanto tempo em silêncio — Kyungsoo, por que está assim?                 O menor olhou em seus olhos, eles pareciam estar começando a marejar.                 — Eu não sou o Taeyang. — ele disse, seu tom era sério, ao mesmo tempo que sofrido — Eu sou o Kyungsoo, não o Taeyang.                 — O que há de errado em ser o Taeyang?                 O Kim sabia muito bem que haviam muitas coisas erradas em ser Taeyang, que ninguém queria ser Taeyang, mas Kyungsoo não deveria saber disso, ele havia perdido a memória, não tinha como ele saber. Ser chamado pelo próprio nome estava causando um colapso visível no ômega, seus olhos se alargavam em espanto, seu coração batia tão rápido que chegava a doer nos ouvidos.                 — Eu não sei. — sua resposta veio em um sussurro, o tom da voz cheio de medo — Eu não quero saber.                 — Mas você precisa saber, precisa saber que você é o Taeyang.                 Os dedos do mais baixo apertaram com força o tecido da camisa do Kim, os nós de deus dedos perderam a cor. Era tudo tão... estranho. Kyungsoo ficou em silêncio, mas ele não queria ficar, queria gritar, gritar muito até fazer as vozes em sua cabeça pararem. Fechou os olhos, mas foi ainda pior, pois as vozes agora tinham imagens, tinham gestos e ações, elas dançavam em sua cabeça e diziam coisas que ele não queria saber.                 — Eu não sou o Taeyang. — tornou a repetir — Taeyang não é feliz, mas o Kyungsoo é, Kyungsoo é feliz e eu quero continuar sendo o Kyungsoo.                 Jongin nunca o viu daquela forma antes, ele parecia ser outra pessoa naquele momento. Seus olhos estavam tristes e pesados, e se olhasse bem fundo neles, poderia enxergar algo ainda pior: O Terror. Havia algo mais ali, encravado como um espinho entre as unhas, machucando, inflamando e tornando-se cada vez mais doloroso e difícil de suportar.                 Foi então que se deu conta de tudo, Kyungsoo estava recuperando suas memórias, memórias terríveis as quais ele preferia esconder e fingir que não existiam. E quanto mais se lembrava, mais dava-se conta de que seu passado era horrível e repleto de coisas desconfortáveis de se ter na cabeça, e diante de tudo isso, escolheu que não queria mais ser a pessoa que era antes.                 — Taeyang.                 — Não me chame assim. — saiu como uma súplica — Me chame de Kyungsoo, eu sou o Kyungsoo, o seu Kyungsoo.                 Não sabia o real significado das palavras do ômega, eles poderiam significar muitas coisas quando vindas de alguém tão confuso, que sequer entendia a si próprio. Taeyang preferia ser Kyungsoo, um Kyungsoo que só existia por causa do Kim, tudo o que ele era agora era por causa de Jongin.                 E por isso, Kyungsoo era de Jongin.                 — Não diga isso.                 — Mas eu quero dizer. — insistiu afoito — Me deixe ficar aqui, me deixe continuar sendo o Kyungsoo, não me obrigue a lembrar do Taeyang, não me obrigue a ser o Taeyang de novo.                 Suspirou, seu coração doía.                 — O que aconteceu com o Taeyang?                 — Ele não tinha ninguém, ele só tinha um quarto escuro, ele não tinha ninguém que o protegesse como Jongin protege o Kyungsoo, por isso, eu quero continuar do jeito que estamos, sem o Taeyang, e sem ele.                 Ele?                 — Ele? Ele quem? — se agoniou, provavelmente estava começando a se lembrar de quem o havia machucado, e descobrir isso era prioridade naquele momento — A quem está se referindo?                 — Eu não lembro do nome, nem do rosto, mas sei que é ele, é sempre ele, eu lembro da voz, a voz dele não sai da minha cabeça, eu digo pra ela sair, mas ela não sai. — seus olhos se embaçavam, buscava alguma coisa dentro da cabeça e encontrava apenas a voz, a maldita voz grossa e tão assustadora, uma voz que dizia coisas bonitas, mas usava um tom que o deixava enjoado — Eu não quero mais ouvir essa voz, eu quero ouvir apenas a sua voz, Jongin, sua voz me deixa feliz.                 Não podia mais obriga-lo a lembrar daquilo, Kyungsoo estava sofrendo mais do que poderia suportar. Precisava ir mais devagar, numa velocidade que não doesse tanto. Abraçou-o forte e deixou que ele chorasse o quanto precisasse chorar.                 Taeyang poderia continuar sendo Kyungsoo por mais uma noite.     [...]                     Chanyeol olhava de longe enquanto o ômega terminava de limpar tudo, depois de notar sua presença ali, não conseguia mais ignorá-lo, e estranhamente ele parecia estar em toda parte agora. Ou talvez, o alfa o seguisse inconscientemente, o que era muito provável. Mas a verdade era que ele sabia que havia algo de errado com aquele simples zelador, ele parecia ser algo mais, uma peça que faltava no quebra-cabeça que estava montando.                 — Por que sempre fica até tão tarde?                 O ômega, tão distraído com seu trabalho, assustou-se com a voz que surgiu repentinamente atrás de si.                 — Eu não tenho muito o que fazer em casa. — foi o mais sincero que pôde — E eu gosto de trabalhar aqui, é um lugar interessante.                 Não havia nada de interessante ali, Baekhyun era responsável pela limpeza da área do arquivo morto, e ele não tinha permissão para mexer nas coisas. Tudo o que havia para ver ali eram nomes de pessoas mortas que nunca obtiveram justiça. Datas ruins, marcando o dia em que seus corpos foram encontrados sem vida e datando o dia exato em que o mundo desistiu de descobrir o que aconteceu com eles.                 — Não parece um lugar interessante para alguém que só pode olhar nomes.                 — Eu fico me perguntando o que aconteceu, e imaginando finais felizes para as famílias, isso me conforta de certa forma. — mas seu tom de voz era triste — As pessoas merecem finais felizes, ou pelo menos, é isso que todo mundo quer, uma pena que nem todos possam ter isso na vida real.                 Final feliz.                 Byun Baekhyun poderia se passar apenas como um amante de ficção, mas tinha outra coisa presente em suas palavras, algo que se parecia muito com uma mágoa, mágoa esta que era notoriamente profunda. Ele evitava conversar, e Chanyeol conseguia notar que o ômega estava o evitando olhar nos olhos também.                 — Eu preciso terminar de limpar o outro corredor, com licença.                 Acompanhou os passos do Byun com os olhos até que ele virasse na última prateleira e sumisse. Chanyeol se perguntava o motivo de estar tão curioso sobre ele. Seu instinto não falhava, havia algo errado ali, e ele iria descobrir o que era, e descobriria logo.                 Pois alguma coisa lhe dizia que não deveria perder tempo.
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