POV: Sebastian Rossi)
O peso do dia parecia ter se acumulado nos meus ombros conforme eu atravessava o pátio da Rossi Arquitetura em direção ao estacionamento. Embora a confirmação de Gabriel Duarte tivesse trazido um alívio estratégico para os problemas em Curitiba, a forma como ele recusou o meu jato particular ainda ecoava na minha mente. Eu não estava acostumado com pessoas que não se deslubravam com o poder da minha empresa. Entrei no meu carro e dirigi em direção ao Jardim Botânico, sentindo que o ar abafado do Rio de Janeiro hoje parecia mais denso do que o normal.
Assim que cruzei a porta da mansão, fui recebido por uma energia que contrastava totalmente com o silêncio gélido do meu escritório. O som de risadas e vozes animadas vinha da sala de estar. Lorenzo corria de um lado para o outro com um boneco na mão, enquanto minha irmã Bianca e minha avó Vitória estavam debruçadas sobre um tablet, gesticulando com entusiasmo.
— Você não vai acreditar, Sebastian! — Bianca exclamou assim que me viu, os olhos brilhando de uma forma que eu não via há tempos. — O destino realmente existe e ele resolveu facilitar a nossa vida.
— O que aconteceu agora? — perguntei, deixando a pasta de couro sobre o aparador e afrouxando o nó da gravata. — O Lorenzo decidiu que quer um elefante de verdade na festa de aniversário?
— Quase isso, meu filho — minha avó interveio, com um sorriso largo que iluminava seu rosto. — Lembra daquela loja em Curitiba? Aquela que eu comentei que tinha uma vitrine maravilhosa e que eu estava louca para conhecer antes de passar m*l?
Tentei resgatar a informação no meio do turbilhão de problemas que eu tinha na cabeça. Eu lembrava vagamente de ela ter mencionado algo sobre uma fachada de festas, mas, na época, eu estava tão focado em tirá-la do hospital e em lidar com aquela mulher atrevida que não dei importância aos detalhes.
— Lembro vagamente, vó. O que tem ela? — respondi, sentando-me na poltrona à frente delas.
— Ela abriu uma filial aqui no Rio de Janeiro! — Bianca completou, quase saltando do sofá. — Parece que a marca está crescendo de forma absurda no Sul e eles decidiram expandir para o mercado carioca. A inauguração oficial é esta semana, e pelo que vi nas redes sociais, vai ser o evento do ano no setor de decoração. Eu já estava preocupada em como organizar o aniversário do Lorenzo, mas agora que eles estão aqui, não quero outra equipe.
Eu arqueei uma sobrancelha. Era raro ver minha irmã e minha avó tão em sintonia sobre um fornecedor. Normalmente, Vitória preferia o clássico e Bianca o moderno, mas essa tal loja parecia agradar a ambas.
— E como vocês ficaram sabendo disso tão rápido? — perguntei, curioso com a eficiência da "central de boatos" da minha família.
— Saiu em todas as colunas sociais e blogs de design hoje — explicou Bianca, virando o tablet para que eu visse uma foto da nova fachada na Barra da Tijuca. — É uma estrutura impecável, Sebastian. Elegante, mas com um toque acolhedor. Exatamente o que a vovó descreveu quando viu a sede em Curitiba.
Eu olhei para a imagem por alguns segundos. A arquitetura da loja era, de fato, muito boa. Tinha um uso inteligente de iluminação e transparências que mostrava que quem projetou aquilo sabia o que estava fazendo. Mas foi o nome escrito em letras douradas sobre a entrada que fez meu coração falhar uma batida.
Duarte Festas & Eventos.
Fiquei estático por um momento, as engrenagens da minha mente começando a girar em alta velocidade. Duarte. O mesmo sobrenome do advogado que eu tinha acabado de contratar. O mesmo sobrenome do homem que estava vindo ao meu escritório amanhã e que, coincidentemente, também vinha de Curitiba e "já estava no Rio para tratar de outros negócios".
— Como é o nome da loja mesmo? — perguntei, tentando manter a voz casual, embora a inquietação estivesse voltando a subir pelo meu pescoço.
— Duarte Festas — repetiu minha avó, sem perceber minha mudança de humor. — Por que essa cara, Sebastian? Já tinha ouvido falar?
— O advogado que aceitei contratar hoje para a obra do Sul se chama Gabriel Duarte — revelei, observando a reação delas. — Ele é de Curitiba e está aqui no Rio esta semana. Começo a pensar que essa coincidência é um pouco grande demais para ser ignorada. Será que essa loja é da família dele? E seria por isso que ele já estava por aqui?
Bianca deu de ombros, voltando a olhar as fotos das decorações.
— Pode ser, ou pode ser apenas um sobrenome comum. Mas se for da família dele, o homem tem bom gosto. Olhe esses arranjos, Sebastian! São obras de arte. A dona dessa loja, seja ela quem for, é uma gênia da estética.
Fiquei em silêncio, processando a informação. Se Gabriel Duarte fosse parente dos donos daquela empresa, isso explicaria por que ele não se impressionou com o meu jato. Ele vinha de uma família que também estava em plena ascensão, que estava conquistando o Rio de Janeiro com a mesma garra que eu usava para erguer meus prédios.
Minha avó pegou na minha mão, tirando-me dos meus pensamentos.
— Sebastian, eu quero ir lá. Assim que as portas abrirem, eu quero ver de perto se o atendimento é tão bom quanto o que eu recebi daquela moça no hospital. Você sabe que eu não esqueço um rosto, e sinto que essa loja tem a mesma "alma" que aquela jovem que me ajudou.
Senti um desconforto imediato ao lembrar da mulher do hospital — Olívia. Se ela fosse uma funcionária daquela rede, ou se tivesse alguma ligação com os Duarte, o meu mundo estaria prestes a colidir de uma forma que eu não estava preparado para gerenciar.
— Tudo bem, vó — eu disse, levantando-me e dando um beijo em sua testa, tentando encerrar o assunto antes que eu ficasse ainda mais inquieto. — Assim que a loja inaugurar esta semana, eu mando o motorista levar vocês lá. Podem olhar tudo, ver se a qualidade é o que vocês esperam e, se for, podem fechar o contrato para a festa do Lorenzo. Eu faço questão de pagar pelo melhor, vocês sabem disso.
— Não se trata apenas de pagar, Sebastian — minha avó lembrou, com aquele tom de sabedoria que sempre me desarmava. — Trata-se de encontrar alguém que entenda que uma festa é feita de memórias, não de faturas.
Deixei a sala e subi para o meu quarto, mas a palavra "Duarte" parecia escrita em todas as paredes. Eu tinha uma reunião às nove da manhã com o advogado Gabriel Duarte. Eu tinha uma loja chamada Duarte Festas inaugurando na minha cidade. E eu tinha uma lembrança persistente de uma mulher que não aceitou o meu dinheiro e que, agora eu suspeitava, poderia estar muito mais próxima de mim do que eu imaginava.
Entrei no banho e deixei a água quente relaxar meus músculos, mas minha mente não parava. Se Gabriel fosse irmão ou parente daquela mulher, o meu primeiro encontro profissional com ele amanhã seria um campo minado. Eu precisava ser impecável. Precisava manter a postura de Presidente Rossi e não deixar transparecer que o sobrenome dele estava me tirando o sono.
"Amanhã às nove", pensei, enquanto me deitava e olhava para o teto do quarto escuro. "Amanhã eu descubro quem é esse Gabriel Duarte e o que a família dele quer no meu território".
Eu achava que estava no controle, mas pela primeira vez, senti que o projeto da minha vida estava sendo redesenhado por mãos que eu ainda não conhecia. E o pior de tudo? Eu estava ansioso para ver o resultado final.