Capítulo 9: Peças em Movimento

1246 Palavras
POV: Sebastian Rossi) O sol ainda não tinha vencido a linha do horizonte quando estacionei o meu carro na garagem da Rossi Arquitetura. Eram cinco da manhã. Eu sempre fui o primeiro a chegar e, frequentemente, o último a sair. O silêncio dos corredores vazios de uma empresa que faturava milhões era o meu momento de clareza absoluta. Entrei na minha sala, a sola dos meus sapatos de grife ecoando no mármore polido, e me joguei na poltrona de couro atrás da imensa mesa de vidro. A luz da cidade, ainda piscando lá fora, refletia nos meus pensamentos. Eu estava inquieto. Ontem, após desligar o telefone com a assistente do Dr. Gabriel Duarte, uma sensação incômoda de derrota começou a rastejar pela minha espinha. A voz da secretária dele tinha sido profissional, mas havia uma nota de hesitação, um tom que eu aprendi a identificar como o prelúdio de um "não". No meu mundo, as pessoas não costumam recusar a Rossi Arquitetura, mas Gabriel Duarte não era qualquer pessoa. Ele era o tipo de profissional que podia se dar ao luxo de escolher para quem trabalhava. "Ele não vai aceitar", pensei, batendo os dedos na mesa. "O jeito que a secretária falou... algo no meu histórico ou na minha abordagem agressiva em Curitiba deve ter chegado aos ouvidos dele". Eu já estava mentalmente traçando um Plano B. Talvez um escritório em São Paulo com influência no Paraná? Não, eu precisava de alguém local, alguém com o sangue frio e o prestígio de Duarte. Suspirei e, para afastar a frustração, abri a gaveta lateral da minha mesa. Retirei de lá uma pasta preta que continha os projetos em que eu vinha trabalhando secretamente nas últimas semanas. Eram plantas de residências de alto luxo, conceitos que fugiam do padrão comercial que eu entregava aos meus clientes habituais. Eu olhava para os traços, para a disposição das colunas, para o cálculo das áreas envidraçadas e, embora tecnicamente fossem perfeitos, algo faltava. Era uma sensação irritante, como uma equação que não fecha por causa de uma única variável invisível. Faltava alma. Faltava um calor que eu, com todo o meu conhecimento técnico, não conseguia imprimir no papel. Aquelas paredes pareciam frias demais, vazias de vida. — O que tem de errado com você? — murmurei para o desenho, frustrado. — Por que parece tão distante? Eu sabia que precisaria envolver a equipe de design de interiores em breve. Talvez eles conseguissem preencher os espaços vazios que a minha mente lógica insistia em deixar. Eu precisava encaminhar esses conceitos para Curitiba em breve, já que o novo condomínio exigia uma estética única, mas eu me recusava a entregar algo que não estivesse impecável. Eu era um Rossi, e o meu nome significava perfeição. O tempo passou enquanto eu revisava plantas e contratos de fornecedores. Quando o relógio de parede marcou oito horas em ponto, o som suave do meu e-mail chegando interrompeu o silêncio. Abri a mensagem e meus olhos se fixaram no nome do remetente: Escritório Duarte. Li o conteúdo rapidamente, sentindo um misto de alívio e uma estranha desconfiança. Gabriel Duarte havia aceitado o caso. Assim, sem mais nem menos. Depois da ligação de ontem, eu estava pronto para uma batalha de egos, mas ali estava o aceite formal. — O que será que te fez mudar de ideia, Duarte? — perguntei a mim mesmo, recostando-me na cadeira. — O valor dos honorários ou o desafio técnico? Eu não conseguia entender o que tinha acontecido nos bastidores daquele escritório em Curitiba para que ele desse o braço a torcer. Mas isso não vinha ao caso agora. O que importava era que eu tinha o melhor advogado do Sul ao meu lado. Agora, eu precisava organizar a nossa primeira reunião estratégica para alinhar a defesa da obra no Batel. Peguei o telefone para discar o número dele, mas hesitei com o dedo sobre o teclado. Desde que voltei de Curitiba, uma inquietação estranha me dominava. Eu sentia uma vontade absurda de pegar o primeiro voo de volta para aquela cidade fria. Eu justificava para mim mesmo que era por causa da obra, mas no fundo, eu sabia que havia um par de olhos castanhos e uma voz indignada que não saíam da minha memória. Eu queria ir até lá apenas para entender por que aquela mulher, a Olívia, ainda me assombrava. No entanto, o "Presidente Rossi" falou mais alto que o Sebastian inquieto. Eu precisava que Gabriel Duarte viesse ao Rio de Janeiro. Era uma questão de hierarquia e praticidade. Ele precisava conhecer a sede da Rossi, entender a magnitude da empresa que passaria a representar e conhecer a equipe técnica de engenheiros. — Ele vem até aqui — decidi, finalmente completando a ligação. Quando a secretária dele atendeu, minha voz já tinha recuperado toda a sua autoridade habitual. — Aqui é Sebastian Rossi. Transfira para o Dr. Gabriel. Recebi o aceite dele e quero agendar a nossa primeira reunião presencial aqui no Rio de Janeiro para amanhã. Digam a ele que farei questão de enviar o meu jato particular para buscá-lo em Curitiba. Aguardei na linha por alguns segundos, esperando que a secretária fosse consultar a agenda do patrão. Para minha surpresa, a resposta veio quase que instantaneamente, mas não era o que eu esperava. — Sr. Rossi? — a voz da secretária retornou. — O Dr. Gabriel agradece a gentileza do jato, mas não será necessário. Ele informou que já possui negócios a tratar aqui no Rio de Janeiro esta semana e que já está de passagem pela cidade. Ele pode estar no seu escritório amanhã às nove da manhã. Desliguei o telefone sentindo um leve incômodo no ego. Gabriel Duarte não era do tipo que se deixava impressionar por jatos particulares ou demonstrações de poder. Ele já estava no Rio. Ele tinha seus próprios negócios, sua própria autonomia. Isso me deixava ainda mais curioso sobre quem era esse homem. Senti que as peças do tabuleiro estavam finalmente se movendo. Eu achava que estava organizando uma reunião de negócios para salvar uma fundação de concreto, mas não tinha a menor ideia de que estava convocando o homem que era o protetor da mulher que eu tanto queria reencontrar. Eu não sabia que o sobrenome "Duarte" no cartão dele era o mesmo sangue da mulher que recusou o meu dinheiro no hospital. Para mim, eram apenas coincidências de nomes comuns no Brasil. A inquietação continuava ali, mas agora tinha um propósito. Eu queria ver Gabriel Duarte cara a cara. Queria ver se ele era tão implacável quanto diziam os relatórios. Olhei para o horizonte do Rio de Janeiro através da minha janela panorâmica. O Cristo Redentor observava a cidade lá longe, e eu senti que, de alguma forma, o meu mundo estava prestes a colidir com algo que eu não conseguiria controlar com planilhas ou cálculos estruturais. — Prepare-se, Duarte — sussurrei para a sala vazia. — Amanhã veremos se você é realmente o melhor. Voltei para os meus projetos "sem alma" sobre a mesa. De repente, a ideia de que o advogado vinha de Curitiba me trouxe uma pontada de esperança irracional. Talvez, ao lidar com ele, eu conseguisse de alguma forma entender o que tornava as pessoas daquela cidade tão diferentes. Ou talvez, eu estivesse apenas procurando uma desculpa para não admitir que a Olívia Duarte — embora eu ainda não soubesse o nome completo dela — tinha deixado um vazio que nenhum projeto meu conseguia preencher.
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