POV: Olívia Duarte)
O silêncio do meu quarto era quebrado apenas pelo deslizar suave do meu lápis sobre o papel de alta gramatura. Enquanto o mundo lá fora me conhecia como a "Rainha das Festas", poucos sabiam que o meu verdadeiro refúgio noturno não envolvia flores ou tecidos de seda, mas sim esquadros, réguas e cálculos estruturais. Eu amava projetar festas, mas o que realmente fazia o meu coração acelerar era projetar casas. Não eram projetos para clientes, nem para venda; eram as casas dos meus sonhos, refúgios imaginários onde a estética encontrava a funcionalidade perfeita.
Eu me perdia por horas desenhando fachadas modernas, planejando como a luz natural entraria em cada cômodo. Eram segredos guardados em pastas de couro, projetos que eu achava lindos e guardava para mim, como se fossem fragmentos da minha alma que eu ainda não estava pronta para compartilhar com o mercado imobiliário. Talvez, no fundo, eu fosse uma arquiteta nata que a vida acabou levando para o mundo dos eventos.
No entanto, naquela noite, os meus traços não estavam saindo tão precisos. Minha mente insistia em desviar do papel e voltar para a conversa que tive com o Gabriel no escritório dele. A menção ao nome de Sebastian Rossi tinha deixado uma mancha de inquietação no meu dia. Eu sabia como o meu irmão funcionava; o Gabriel era leal ao extremo. Se ele percebesse que aquele homem me causou qualquer tipo de desconforto ou humilhação, ele recusaria o contrato milionário da Rossi Arquitetura sem piscar. E, embora eu amasse essa proteção, eu não podia permitir que o meu orgulho ferido atrapalhasse a carreira dele.
Larguei o lápis e suspirei. Eu não era uma pessoa de guardar rancores. A mágoa pelo que aconteceu no hospital ainda estava ali, como uma cicatriz recente, mas o perdão era uma escolha que eu fazia diariamente para manter a minha própria paz. Eu não queria carregar o peso da arrogância do Sebastian Rossi nas minhas costas.
Levantei-me, calcei meus chinelos macios e saí do meu quarto. No térreo da nossa casa, logo após o corredor das salas, ficava o escritório particular do Gabriel. A luz por debaixo da porta indicava que ele ainda estava mergulhado em papéis e leis. Bati suavemente e entrei.
— Ainda trabalhando, Biel? — perguntei, aproximando-me da mesa dele, que estava coberta de processos e códigos civis.
Gabriel tirou os óculos de leitura e esfregou os olhos, lançando-me um sorriso cansado.
— Tentando organizar o cronograma para o próximo mês, Lívia. Mas confesso que a minha cabeça está na conversa de hoje à tarde. Aquele contrato da Rossi... eu ia te ligar agora para dizer que decidi recusar.
— Por minha causa, não é? — sentei-me na cadeira à frente dele, cruzando as pernas.
Gabriel hesitou, mas assentiu.
— Eu não gosto do jeito que ele falou com você no telefone, e o que você me contou do hospital... um homem que não respeita a integridade e a bondade de uma mulher como você não merece o meu tempo, por mais rico que seja. Minha competência não está à venda para gente sem educação.
Senti um nó de emoção na garganta, mas balancei a cabeça negativamente.
— Biel, escuta. Você é o melhor advogado empresarial que eu conheço. Sua carreira foi construída com base em ética e resultados, não em brigas pessoais ou suposições sobre o caráter de um cliente difícil. Se o caso é interessante para o seu currículo e se o escritório vai crescer com isso, você deve aceitar.
— Mas ele te ofendeu, Olívia! — Gabriel protestou, a voz subindo um tom.
— E eu já o perdoei, mesmo que ele nunca saiba disso — respondi com serenidade. — Eu não faço negócios baseada em ressentimentos, e você também não deveria. O Sebastian Rossi pode ser um ogro, um arrogante e um iceberg humano, mas se ele precisa de um advogado competente para resolver os problemas da empresa dele em Curitiba, ele encontrou o cara certo. Não deixe que o meu encontro desastroso com ele tire de você uma oportunidade profissional de alto nível.
Gabriel me observou por um longo tempo, em silêncio. Ele sempre admirou a minha capacidade de passar por cima das coisas em nome de um bem maior, mas eu sabia que, para ele, mexer com a família era cruzar uma linha perigosa.
— Tem certeza disso? — ele perguntou, com um tom de voz mais baixo. — Se eu aceitar, é provável que ele venha muito a Curitiba. É provável que ele acabe cruzando o nosso caminho com mais frequência.
— Eu tenho certeza. Eu sei lidar com ele — afirmei, embora uma pequena parte de mim duvidasse daquela segurança toda. — Além disso, se ele for tão r**m quanto dizem, vai precisar de muita assistência jurídica para não ser processado por metade do mundo. Considere como um serviço à sociedade.
Gabriel soltou uma risada curta, o clima finalmente relaxando entre nós.
— Tudo bem, maninha. Se você diz que está tudo bem, eu vou enviar o aceite do contrato amanhã de manhã. Mas fica o aviso: se ele se atrever a ser rude com você novamente, eu rescindo o contrato no mesmo instante, não importa a multa.
— Combinado — rimos juntos.
Saímos do escritório de braços dados e fomos para a sala de jantar. A casa estava com aquele clima morno e acolhedor de fim de noite. Meus pais já estavam terminando de arrumar a mesa para o jantar tardio, e a Beatriz estava sentada no tapete da sala, brincando com a pequena Maya, que insistia em não querer dormir sem ver a "tia Lívia".
O jantar foi preenchido por conversas leves e risadas. Falamos sobre a faculdade da Bia, sobre as novas plantas da mamãe e sobre os planos de expandir a área de logística da minha loja. Ali, rodeada pelo amor deles, a figura sombria do Sebastian Rossi parecia apenas uma nota de rodapé irrelevante na nossa história.
Comemos, rimos e, por alguns momentos, eu esqueci completamente da Rossi Arquitetura. Terminei a noite ajudando a Bia a colocar a Maya para dormir, sentindo o cheirinho de colônia da pequena e pensando em como a vida era generosa comigo.
Ao voltar para o meu quarto e olhar novamente para os meus projetos de casas guardados na pasta, senti uma estranha sensação de que algo estava prestes a mudar. Eu tinha dado permissão para o meu irmão aceitar o caso, e com isso, eu tinha aberto a porta para que o furacão Sebastian Rossi entrasse definitivamente na nossa órbita.
Eu não sabia se estava pronta para o que viria, mas uma coisa era certa: eu não seria derrubada por nenhum iceberg. Eu tinha raízes profundas demais para isso.