POV: Olívia Duarte)
O som da impressora térmica cuspindo etiquetas de envio era a trilha sonora da minha manhã. Eu estava no centro de distribuição da Duarte Festas, observando o movimento frenético dos funcionários. Às vezes, as pessoas olham para o topo de uma montanha e esquecem que ela é feita de pequenos grãos de terra. Para o mundo exterior, eu era a empresária de sucesso que viajava o globo em jatos executivos, mas ali, entre caixas de papelão, rolos de fita adesiva e plástico bolha, eu me sentia verdadeiramente em casa.
— Olívia, recebemos mais doze pedidos de kits "Pegue e Monte" para microempreendedores só nesta última hora — informou Taís, minha gerente de logística, com um sorriso animado enquanto segurava o tablet.
Olhei para a lista digital. Eram mulheres, em sua maioria mães, que estavam tentando começar seus próprios pequenos negócios de decoração de festas em bairros distantes ou cidades pequenas. Eu conhecia cada um daqueles nomes sem nunca tê-los visto pessoalmente. Eu já tinha sido cada uma delas, contando os centavos para comprar o primeiro jogo de bandejas de cerâmica.
— Garanta que os kits de iniciantes tenham um desconto de 15% no frete e inclua aquele guia de precificação que eu escrevi, Taís — determinei, passando a mão por um dos painéis circulares de madeira que seriam enviados. — Eu sei o quanto cada centavo conta quando se está começando do zero. Se a gente facilitar o caminho para elas, o mercado todo cresce e se profissionaliza.
Eu não fazia isso apenas por estratégia comercial; fazia por propósito. Ver uma mulher conquistando sua independência financeira através da arte da decoração era o que me dava o verdadeiro retorno sobre o investimento.
As últimas semanas tinham sido um borrão de produtividade. Minha carreira internacional dera um salto que eu ainda estava tentando processar. Fui convidada para palestrar em um congresso de design de luxo em Paris e, logo depois, em Nova York. Falar sobre o conceito de "decoração afetiva" para plateias influentes foi transformador. Conheci pessoas que eu só via em revistas de economia, e, para minha surpresa, fiz amizades reais. Descobri que, no topo, a solidão só existe para quem esquece suas raízes.
Mas, apesar do brilho das luzes de Manhattan ou do charme de Paris, nada superava o prazer de voltar para Curitiba e para a minha família. Especialmente pela Beatriz.
Saí do galpão e dirigi direto para a universidade. Minha irmã estava no meio do curso de medicina, uma rotina massacrante que exigia cada neurônio dela. Mas o maior desafio da Bia não eram as provas de patologia; era conciliar os livros com a maternidade. A pequena Maya, nossa alegria de dois anos, era filha da Bia. Ser mãe solo e estudante de medicina em tempo integral teria sido impossível se não estivéssemos todos juntos por ela.
Encontrei Bia na biblioteca, cercada por pilhas de livros de anatomia e garrafas vazias de café. Ela parecia exausta.
— Trouxe reforços — eu disse, colocando um sanduíche natural e um suco de laranja fresco sobre a mesa.
— Você é um anjo, Lívia! — ela exclamou, os olhos brilhando de gratidão. — Eu m*l tive tempo de respirar hoje. Como está a Maya? Ela chorou quando você a deixou na natação?
— Que nada! Ela já está se achando uma pequena sereia — ri, puxando uma cadeira. — Não se preocupe, Bia. A mamãe está cuidando do almoço dela e eu vou buscá-la daqui a pouco. Foca nos seus estudos. O seu sonho de ser médica é o sonho da família inteira. A Maya tem orgulho da mãe que tem, mesmo que ainda não saiba dizer isso com todas as letras.
— Eu não conseguiria sem você — ela sussurrou, apertando minha mão. — Às vezes me sinto culpada por não estar com ela em todos os momentos...
— Tire essa culpa do coração. Você está construindo o futuro dela. E enquanto você estuda para salvar vidas, eu garanto que a vida dela seja uma festa.
Depois de deixar a Bia mais tranquila, segui para o escritório do Gabriel. Entrei naquele prédio comercial de luxo, onde o silêncio era interrompido apenas pelo barulho suave dos teclados. Gabriel tinha se tornado um dos advogados empresariais mais respeitados da região, cuidando de contratos que envolviam cifras astronômicas, inclusive os da minha própria empresa.
— O Dr. Duarte está finalizando uma chamada de vídeo, Olívia, mas pediu para você entrar e esperar na sala dele — disse a secretária, com um sorriso cortês.
Entrei na sala dele, um ambiente que exalava autoridade com seu cheiro de couro e café premiado. Gabriel estava ao telefone, com a expressão séria de quem estava lidando com um tubarão do mercado. Ele me lançou um sorriso cúmplice e gesticulou para que eu me sentasse. Fiquei ali, observando meu irmão ser o profissional brilhante que ele é, e não pude deixar de sentir uma pontada de orgulho. Éramos os irmãos Duarte, os filhos do seu Antônio e da dona Regina, ganhando o mundo.
Quando ele desligou, soltou um suspiro pesado, massageando as têmporas.
— Clientes difíceis, maninha. Gente que acha que o mundo é um tabuleiro de xadrez onde eles são os únicos reis.
— Alguém em especial te tirando do sério? — perguntei, levantando-me para dar um abraço nele.
— Um tal de Sebastian Rossi — ele soltou o nome, e eu senti um calafrio instantâneo percorrer minha espinha. — A empresa dele, a Rossi Arquitetura, está com um problema grave em uma obra aqui em Curitiba. Ele quer me contratar para assumir o jurídico da filial do Sul. O cara é insistente e tem uma fama de ser implacável.
Meu coração falhou uma batida. Sebastian Rossi. O homem que tentou comprar minha dignidade no hospital agora estava tentando contratar o meu irmão. O mundo não era apenas pequeno; ele era minúsculo e parecia estar pregando uma peça em mim.
— E você vai aceitar? — tentei manter a voz casual, mas minhas mãos se fecharam em punho dentro dos bolsos.
— O caso é interessante e o valor do contrato é absurdo, Olívia. Mas eu sinto uma energia pesada vindo desse cara, mesmo por telefone. Vou avaliar melhor antes de assinar. Mas e você? Como foi o evento de caridade em Miami?
— Foi um sucesso, Biel... — respondi, mas minha mente já estava longe.
Passei o resto do dia no modo automático. Participei de uma reunião de planejamento para um evento beneficente, respondi e-mails de fornecedores da filial do Rio, brinquei com a Maya no jardim e ajudei minha mãe com as orquídeas. Mas o nome "Sebastian" não saía da minha cabeça.
Eu não entendia por que o destino estava insistindo em cruzar nossas linhas de novo. Eu era feliz na minha "bagunça" organizada, cercada de amor e propósito. Sebastian era o oposto de tudo o que eu acreditava. Ele era o gelo, eu era o fogo. Ele era o cálculo, eu era a intuição.
À noite, enquanto eu colocava a Maya para dormir e contava a ela uma história sobre uma princesa que construía palácios de flores, olhei para a janela e vi as luzes da cidade. Gabriel provavelmente aceitaria o caso. E isso significava que, mais cedo ou mais tarde, eu teria que encarar aqueles olhos escuros e arrogantes novamente. Só que desta vez, eu não estaria suja de poeira na porta de um hospital. Desta vez, ele descobriria que a mulher que ele tentou humilhar tinha um exército de amor e sucesso ao seu redor.