Capítulo 6: O Eco de um Erro

1001 Palavras
(POV: Sebastian Rossi) O sol do Rio de Janeiro entrava pelas janelas de vidro da nossa mansão no Jardim Botânico, iluminando a prataria da mesa de café da manhã, mas o clima entre nós estava longe de ser caloroso. Fazia alguns dias que tínhamos retornado de Curitiba, e o silêncio da minha avó era o que mais me incomodava. Vitória sempre foi meu porto seguro, a mulher que me ensinou a ser homem quando meu pai falhou e se perdeu em suas próprias sombras, mas agora, ela m*l olhava nos meus olhos. O desprezo dela era uma lâmina afiada que cortava minha armadura de gelo. — A torrada está no ponto, vó? — tentei puxar assunto, sentindo o peso do seu silêncio punitivo. — O pão está ótimo, Sebastian. Já o seu caráter, eu não poderia dizer o mesmo — ela respondeu, sem desviar os olhos da xícara de chá de porcelana. — Eu ainda não consigo acreditar que você tentou colocar um preço na bondade daquela menina no hospital. Eu criei uma ligação com ela em apenas uma hora de conversa e cuidado. Aquela moça tem uma luz que você, com toda a sua arquitetura e seus cálculos, nunca conseguirá projetar. Você vai se arrepender, meu neto. Existem pessoas boas no mundo que não estão à venda, e você acabou de insultar uma delas. Eu bufei, sentindo a irritação crescer sob a minha pele. — Ela era uma estranha, vó. No mundo real, ninguém faz nada de graça. Eu só estava garantindo que ela fosse recompensada pelo tempo dela. É assim que os negócios funcionam. — Recompensada ou humilhada? — A voz da minha mãe, Helena, cortou o ar, carregada de uma culpa que ela não escondia. — Eu me arrependo cada segundo de não ter atendido aquele telefone quando ela ligou. Se eu tivesse atendido, aquela pobre garota não teria tido o desprazer de lidar com a sua arrogância, Sebastian. Você a tratou como se ela fosse alguém inferior, apenas por causa das roupas que ela vestia. — Ah, vovó! — Bianca, minha irmã, interrompeu, os olhos brilhando com uma curiosidade que me dava vontade de sair da sala. — Conta mais! Ela era bonita? A senhora disse que ela tinha um olhar carismático... ela foi muito firme com o Sebastian? Vi Bianca lançar-me um olhar desafiador. Minha irmã adorava ver alguém que não abaixasse a cabeça para mim. — Ela era linda, Bianca — Vitória respondeu, e um sorriso terno finalmente apareceu em seu rosto ao lembrar da jovem. — Uma doçura de pessoa. Estava com roupas simples, toda suja de poeira e com um pouco de brilho nos braços, parecia que tinha trabalhado o dia inteiro. Mas tinha uma postura de rainha,ela era simplesmente maravilhosa,com um sorriso encantador. Antes de passar m*l, eu estava caminhando por aquela rua e vi uma vitrine de festas maravilhosa, a Duarte Festas. Pensei em entrar para ver as decorações para o Lorenzo, pois parecia tudo impecável, mas nem tive tempo. Desfaleci bem ali na calçada. E aquela moça, a Olívia, apareceu do nada para me segurar. Ela não perguntou meu sobrenome, ela simplesmente me ajudou. Aquilo me fez travar por um segundo. Olívia. O nome ecoou na minha mente, trazendo de volta a imagem daqueles olhos castanhos cheios de faíscas de raiva quando ela me deu as costas. — Olívia... — murmurei, sentindo o peso do nome. — Esse era o nome dela? — Sim, Olívia — minha avó confirmou, voltando a me olhar com severidade. — Por que o interesse agora? Vai mandar um dos seus assistentes levar um cheque pelo correio para tentar limpar sua consciência? — Só estou tentando entender com quem cruzei o caminho, só isso — respondi rudemente, levantando-me da mesa antes que o interrogatório familiar se tornasse insuportável. Eu não queria admitir, mas o nome dela e a forma como ela ignorou o meu dinheiro estavam virando uma obsessão silenciosa. Eu era Sebastian Rossi; eu não deveria me importar com uma garota que trabalhava carregando caixas de festa. Mas o olhar de desprezo dela no hospital ainda ardia em mim como uma queimadura. Fui para o meu escritório particular, precisando de silêncio para organizar os problemas da filial do Sul. A obra em Curitiba ainda estava com o cronograma em risco e eu não podia mais adiar a contratação de um braço jurídico forte por lá. Peguei o cartão que estava sobre a minha mesa, enviado pelos meus consultores. Gabriel Duarte. Advogado Empresarial. — Duarte... — li em voz alta. O mesmo sobrenome da loja de festas onde minha avó passou m*l. Curitiba era uma capital grande, mas o círculo de elite era estreito. Seria apenas uma coincidência de nomes ou algo mais? Respirei fundo e disquei o número do escritório. Eu precisava de um advogado implacável para fiscalizar os contratos da Rossi Arquitetura, e os relatórios garantiam que Gabriel Duarte era o melhor, embora extremamente seleto com seus clientes. Enquanto o telefone chamava, a voz de Vitória ainda ecoava na minha mente: "Você vai se arrepender, meu neto". Eu não costumava me arrepender de nada. Meus projetos eram sólidos, minhas decisões eram baseadas em lógica pura. Mas, pela primeira vez na vida, senti que a fundação da minha confiança tinha uma pequena rachadura. E essa rachadura tinha o formato do olhar de uma mulher chamada Olívia.com uma voz suave e um olhar implacável — Escritório Duarte, boa tarde — uma voz profissional atendeu do outro lado da linha. — Aqui é Sebastian Rossi, da Rossi Arquitetura. Gostaria de agendar uma conferência imediata com o Dr. Gabriel Duarte. Temos assuntos de grande escala em Curitiba que exigem a expertise dele. O jogo estava começando. Eu achava que estava apenas contratando um serviço jurídico, mas no fundo, eu estava dando o primeiro passo em direção ao território dela. E eu ainda não tinha ideia de que o "anjo" da minha avó e o advogado que eu tanto precisava compartilhavam muito mais do que apenas um sobrenome.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR