(POV: Olívia Duarte)
Bati a porta da minha caminhonete com mais força do que o necessário, o som ecoando no estacionamento privativo da minha empresa. Eu ainda conseguia sentir o sangue latejar nas minhas têmporas. Aquele homem... aquele arrogante de olhos escuros e alma gélida tinha conseguido o impossível: tirar a minha paz.
Subi para o meu escritório a passos largos, ignorando o elevador. Eu precisava gastar aquela energia nervosa. Entrei na minha sala, um espaço amplo com janelas do chão ao teto que mostravam as luzes de Curitiba, e me joguei na poltrona de couro. Tentei me concentrar na planilha de investimentos que deixei aberta, mas os números pareciam dançar na tela. Tudo o que eu via era o maço de dinheiro sendo estendido como se eu fosse um objeto sem valor.
— Que i****a! — exclamei para as paredes vazias. — Quem ele pensa que é? "Quanto é o seu pagamento?", "Isto deve chegar para a sua discrição...".
Bufei, fechando o laptop com força. O problema não era o dinheiro em si; eu tinha dinheiro. O problema era a presunção de que a minha bondade tinha um código de barras. Eu ajudei a Dona Vitória porque vi nela uma mulher fragilizada, porque vi nela a lembrança dos meus avós, não porque estava à caça de uma recompensa. Para homens como aquele Sebastian Rossi, a humanidade devia ser apenas uma transação comercial. Cruzei os braços, tentando afastar a imagem do rosto dele da minha mente, mas aqueles olhos... eles tinham uma profundidade perturbadora que eu odiava admitir ter notado.
Depois de duas horas tentando inutilmente adiantar o trabalho da filial do Rio, desisti. Eu precisava do meu porto seguro. Peguei minhas coisas e dirigi até o condomínio onde morávamos.
Quando abri a porta principal da nossa casa, o cheiro de café fresco e pão de queijo — o preferido da minha mãe — me atingiu. Normalmente, isso me faria sorrir na hora, mas eu estava tão imersa na minha indignação que entrei como uma tempestade silenciosa, sem perceber que a sala de estar estava cheia.
— Olívia? Que cara é essa, minha filha? Parece que viu um fantasma — a voz da minha mãe, Regina, soou do sofá.
Olhei para o lado e vi todos reunidos. Meu pai, Antônio, lendo seu jornal; Gabriel, com seu notebook de advogado sempre a postos; e Beatriz, debruçada sobre um livro de anatomia pesado o suficiente para ser uma arma.
— Agora não, mãe. Eu preciso de um banho de uma hora ou vou acabar explodindo — respondi, subindo as escadas sem dar chance para perguntas.
Entrei na minha suíte e caminhei direto para o closet. Passei os olhos pelas prateleiras organizadas, cheias de bolsas de grife e sapatos que eu raramente tinha tempo de usar, e escolhi o meu pijama de seda mais macio e um roupão felpudo. Eu precisava de conforto.
Liguei a banheira e despejei uma quantidade generosa de sais de lavanda. Enquanto a espuma crescia, me despi e mergulhei na água quente. Fechei os olhos, tentando deixar o estresse do hospital escorrer pelo ralo. Eu pensava na sorte que tinha. Minha irmã, Beatriz, estava realizando o sonho de cursar medicina; meu irmão, Gabriel, era um dos advogados empresariais mais brilhantes da cidade e cuidava do jurídico da minha empresa com unhas e dentes. Meus pais, que deram a vida para nos sustentar com pouco no passado, agora viviam como reis. Tudo o que construímos foi com ética. E vir um estranho qualquer e questionar o meu caráter com notas de cem reais... era um insulto a toda a minha história.
Saí do banho renovada, mas ainda mordaz. Desci as escadas e, assim que me sentei no sofá grande da sala, senti um peso pequeno e doce escalar as minhas pernas. A pequena Maya, minha sobrinha de dois anos, subiu no meu colo com um cheirinho de colônia de bebê que finalmente desarmou minha guarda.
— Pronto. Agora conte — Gabriel disse, fechando o notebook e me olhando com aquele seu olhar analítico de advogado. — Quem a gente precisa processar ou quem eu preciso encarar de perto?
Respirei fundo e contei tudo. Desde o momento em que encontrei a Dona Vitória passando m*l na frente da loja, até a chegada triunfal e detestável do neto dela no hospital.
— Ele simplesmente jogou o maço de dinheiro em mim, Gabriel! — terminei, a voz subindo uma oitava. — Como se eu fosse uma aproveitadora de idosos.
— Mas que sujeitinho prepotente! — meu pai, Antônio, exclamou, batendo com a mão no braço da poltrona. — Nós não criamos nossos filhos para serem humilhados por gente que acha que o bolso é maior que o caráter.
— Sebastian Rossi, você disse? — Gabriel semicerrou os olhos, a mente de advogado empresarial trabalhando rápido. — Esse nome não me é estranho. Se for o Rossi que estou pensando, ele é o presidente de uma das maiores holdings de arquitetura do país. O cara é implacável, Olívia. Dizem que ele não tem amigos, apenas sócios e inimigos.
— Ele é um ogro, isso sim — Beatriz comentou, sem tirar os olhos do livro de medicina, mas prestando atenção em tudo. — Típico de gente que tem muito poder e nenhuma inteligência emocional. Se ele aparecer na minha frente no hospital durante o meu estágio, eu receito um calmante pra ver se ele vira gente.
— O pior é a Dona Vitória — eu disse, acariciando o cabelo da Maya, que já estava quase dormindo no meu colo. — Ela é uma doçura. Como alguém tão gentil pode ter um neto tão... tão desprovido de alma?
— Esquece isso, Lívia — minha mãe disse, aproximando-se e colocando a mão no meu ombro. — Você fez a sua parte. O bem que você fez para aquela senhora é seu, e ninguém, nem o homem mais rico do mundo, pode tirar isso de você ou colocar um preço.
— Eu sei, mãe. Só que... eu nunca senti tanta raiva de alguém em tão pouco tempo.
Gabriel deu um sorriso de lado, aquele sorriso de quem sabe ler as entrelinhas.
— Cuidado, maninha. Dizem que o ódio e a paixão moram na mesma rua, só que em casas diferentes.
— Nem brinca com isso, Gabriel! — joguei uma almofada nele, fazendo todos rirem. — Eu quero aquele homem a quilómetros de distância de mim. Se eu nunca mais vir a cara do Sebastian Rossi, vai ser tarde demais.
Mal sabia eu, enquanto recebia o carinho da minha família naquela noite em Curitiba, que o destino não só estava rindo da minha afirmação, como já estava preparando as malas para me mandar direto para o território dele. O Rio de Janeiro me esperava, e o arquiteto de gelo também.