Capítulo 2: O Preço da Ignorância

1276 Palavras
POV: Olívia Duarte) O corredor do hospital tinha aquele cheiro estéril de desinfetante e ansiedade, um contraste absoluto com o perfume de baunilha e flores frescas que costumava me rodear na loja. Mas, enquanto eu observava Dona Vitória sentada naquela maca, com a cor a voltar gradualmente ao seu rosto, o desconforto do ambiente parecia desaparecer. O médico já tinha passado por ali e, para o meu alívio imenso, o diagnóstico não era o que eu mais temia. Foi apenas um susto — uma queda brusca de tensão combinada com o cansaço e o frio curitibano que não perdoa os desprevenidos. — Você ainda está aqui, minha querida — Vitória disse, com um sorriso fraco, mas genuinamente doce. — Eu disse que não precisava de se incomodar tanto. — E eu disse que só sairia daqui quando tivesse a certeza de que a senhora estava bem — respondi, aproximando-me e segurando a sua mão. A pele dela era fina como papel de seda, mas o toque era quente. Naquele momento, senti um aperto estranho no peito, uma mistura de melancolia e conforto. Eu perdi os meus avós num acidente de carro quando tinha apenas dez anos. As memórias deles eram flashes de domingos ensolarados e cheiro de bolo de canela, uma lacuna que nunca foi preenchida na minha vida. Por isso, estar ali com Vitória não era um peso; era como se, por alguns minutos, o destino me desse a oportunidade de cuidar de alguém que o tempo me roubou cedo demais. Eu tinha um coração que muitos chamavam de "mole", mas eu preferia chamar de puro. Eu não via maldade nas pessoas até que elas me dessem um motivo real para isso. — A senhora precisa de avisar a sua família, Dona Vitória. Eles devem estar preocupados. Ela suspirou, um olhar de resignação cruzando os seus olhos azuis. — Tens razão. A minha nora, Helena, e o meu neto são um pouco... intensos. Se souberem que passei m*l, vão querer colocar o mundo de pernas para o ar. Ela deu-me o número. Tentei ligar para Helena primeiro, mas o telemóvel ia direto para o correio de voz. Tentei uma, duas vezes, sem sucesso. Restava o neto. O número dele tinha um prefixo diferente, e eu respirei fundo antes de marcar. Na primeira tentativa, ninguém atendeu. Na segunda, tocou até cair. Eu já estava a ficar impaciente. Será que ninguém naquela família se importava com aquela senhora maravilhosa? Na terceira chamada, finalmente, um clique. Mas não houve um "olá" ou um "boa noite". — Quem é? — A voz do outro lado era um trovão de rudeza. Grave, autoritária e visivelmente impaciente. — Eu não tenho tempo para telemarketing ou enganos. O que quer? O meu sangue ferveu. Eu odiava gente m*l-educada, especialmente quando eu estava a tentar fazer um favor. — Eu não sou telemarketing — respondi, tentando manter a voz firme e calma, apesar da vontade de desligar. — Estou a ligar do hospital. A sua avó está aqui comigo, ela passou m*l no centro e... — Do que está a falar? Isso é algum tipo de golpe? — ele interrompeu, a voz carregada de ceticismo e uma arrogância que atravessava a linha telefónica. — A minha avó está em casa, protegida. Não tente brincar comigo, mulher. — Escute aqui, seu ignorante — a minha paciência esgotou-se. — Eu não tenho tempo para as suas paranoias. A sua avó, Vitória Rossi, está na urgência do Hospital de Curitiba. Se não acredita em mim, o problema é seu. Desliguei na cara dele antes que ele pudesse rugir mais alguma ofensa. Tirei rapidamente uma foto da Dona Vitória — que me olhava com um ar de "eu avisei que ele era difícil" — e enviei para o número dele. Segundos depois, o meu telemóvel vibrou com uma mensagem curta e grossa: "Chego em 5 minutos. Não saia daí." Cinco minutos? Ele estava a brincar? O hospital não era assim tão perto. Mas, exatamente quatro minutos e cinquenta segundos depois, as portas automáticas da urgência abriram-se com um estrondo. Um homem passou por mim como um furacão n***o. Ele era alto, de uma elegância agressiva, vestindo um fato escuro que parecia ter custado o preço de uma das minhas filiais. Ele nem sequer olhou para os lados. O seu foco era apenas a maca onde Vitória estava. — Avó! O que aconteceu? Quem lhe fez isto? — A voz dele, embora ainda autoritária, agora carregava uma nota de preocupação genuína que me surpreendeu. — Calma, Sebastian. Estou bem — Vitória disse, tentando acalmá-lo enquanto ele lhe segurava o rosto com as mãos grandes, examinando-a como se procurasse por ferimentos de guerra. — Esta jovem, a Olívia, salvou-me. Se não fosse por ela, eu nem sei... Sebastian virou-se finalmente. E foi ali, sob a luz fluorescente e fria do hospital, que os nossos olhos se encontraram pela primeira vez. Ele era absurdamente bonito, de uma forma perigosa. Tinha traços esculpidos em pedra, olhos escuros que pareciam ler a alma de qualquer um e uma aura de poder que intimidaria qualquer pessoa comum. Mas eu não era uma pessoa comum. Ele olhou-me de cima a baixo. Vi o momento exato em que ele registou as minhas roupas simples, o brilho dourado nos meus braços e o meu cabelo bagunçado. Vi o brilho de superioridade e preconceito acender-se naqueles olhos frios. Ele nem sequer esperou que eu dissesse uma palavra. — Quanto é? — ele perguntou, a voz seca, voltando a ser o homem rude do telefone. — Como disse? — Pisquei, confusa. — O seu pagamento. Pelo "serviço" de assistência à minha avó. — Sem tirar os olhos de mim, ele levou a mão ao bolso interno do casaco e puxou um maço grosso de notas de cem reais. — Isto deve chegar para comprar a sua discrição e pagar pelo seu tempo, não? O silêncio que se seguiu foi pesado. Eu olhei para o dinheiro na mão dele e depois para o seu rosto perfeito e detestável. Ele realmente achava que tudo no mundo tinha um código de barras. Ele achava que eu era uma coitada que estava ali à espera de uma gorjeta por ter sido um ser humano. Dona Vitória tentou intervir: — Sebastian, não! Ela não... Mas eu não dei tempo para explicações. A minha dignidade não estava à venda, e o dinheiro dele, para mim, não passava de papel sujo. Eu não gritei. Não fiz um escândalo. Apenas dei um passo atrás, olhei-o nos olhos com todo o desprezo que consegui reunir e sorri de forma gélida. — A sua avó é uma mulher encantadora, Sr. Rossi. É uma pena que a genética tenha falhado tão feio com o neto. Guarde o seu dinheiro. Pelos vistos, é a única coisa que tem para oferecer ao mundo. Virei as costas. Senti o olhar dele queimar na minha nuca, um misto de choque e fúria, mas não olhei para trás. Caminhei em direção à saída do hospital com a cabeça erguida, os pés ainda a latejar, mas o coração leve. Eu podia estar coberta de poeira e glitter, mas a minha alma era de ouro. E homens como Sebastian Rossi nunca saberiam como lidar com algo que o dinheiro deles jamais poderia comprar. Saí para a noite fria de Curitiba, entrei na minha caminhonete e dei um soco leve no volante. "Que homem insuportável!", pensei. Mas, por algum motivo que eu não conseguia explicar, a imagem daqueles olhos escuros e arrogantes não saía da minha mente. O destino tinha pregado uma partida, e eu tinha o pressentimento de que aquele não seria o nosso último embate.
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