Capítulo 1

1043 Palavras
Arya Carter sabia desaparecer. Não era algo que alguém tivesse lhe ensinado em palavras, como uma regra escrita ou um conselho gentil. Era o tipo de aprendizado que vinha dos olhares que passavam direto, das conversas que continuavam sem a sua opinião, das oportunidades que sempre encontravam outra pessoa mais interessante, mais bonita, mais qualquer coisa. Com o tempo, ela entendeu. Ser invisível era mais fácil. Mais seguro. Mais suportável do que esperar ser escolhida. Naquela manhã, como em todas as outras, o despertador tocou às seis. Arya permaneceu de olhos fechados por alguns segundos, respirando fundo, reunindo a coragem necessária para levantar e repetir tudo outra vez. O pequeno apartamento estava silencioso, o ar frio o bastante para fazê-la se encolher sob o cobertor gasto. Trabalhar. Voltar para casa. Dormir. Era um ciclo simples. Organizado. Sem surpresas. Ela se levantou, prendeu o cabelo liso em um r**o baixo e foi para o banheiro minúsculo. Enquanto escovava os dentes, observou o próprio reflexo no espelho rachado. Pele escura e bonita, embora raramente notada. Olhos grandes, sempre atentos demais. Lábios cheios que quase nunca recebiam elogios. Arya não se achava feia. Também não se achava extraordinária. Ela era… suficiente. E tinha aprendido a se contentar com isso. Vestiu o uniforme do café onde trabalhava — calça preta, camisa simples, avental amarrado na cintura — e saiu antes que pudesse se atrasar. O trajeto de ônibus foi o mesmo de sempre: pessoas apressadas, rostos cansados, ninguém realmente olhando para ninguém. Perfeito. Era ali que ela sabia existir. No meio da multidão, sem peso, sem destaque. O turno da manhã passou rápido, como sempre acontecia quando o movimento era intenso. Arya anotava pedidos, servia mesas, limpava balcões, sorria quando era necessário. Alguns clientes eram gentis, outros m*l a enxergavam. Nada fora do comum. Às vezes ela se perguntava se sumir de verdade faria diferença. Se um dia deixasse de aparecer, quantas pessoas demorariam a perceber? A resposta nunca vinha, então ela empurrava o pensamento para longe. Não valia a pena se machucar com perguntas sem retorno. Foi perto do fim do expediente que a gerente se aproximou. — Arya, preciso que cubra a noite hoje. A Melissa ligou dizendo que está doente. Ela hesitou. Estava cansada. Seu corpo pedia cama e silêncio. Mas precisava do dinheiro. — Tudo bem — respondeu, com aquele sorriso educado que já fazia parte do uniforme. A gerente agradeceu e saiu às pressas, deixando Arya com a sensação familiar de ter sido, mais uma vez, a escolha conveniente. Nunca a primeira. Sempre a disponível. O café fechava tarde, e o público da noite era diferente. Homens de terno, reuniões discretas, conversas baixas demais. Às vezes apareciam pessoas que claramente não estavam ali apenas pela comida. Arya não perguntava. Não era seu papel perguntar. O céu já tinha escurecido quando ela voltou do intervalo. Refez o r**o de cavalo, respirou fundo e pegou o bloquinho de pedidos. Faltavam poucas horas. Ela conseguiria. O sino da porta tocou. Arya nem olhou de imediato — outro hábito aprendido. Um cliente a mais ou a menos não mudaria nada. Mas sentiu. Uma mudança sutil no ar. Como se o ambiente tivesse enrijecido, como se as conversas tivessem diminuído um tom sem que ninguém percebesse conscientemente. Curioso. Ela levantou os olhos. E o viu. O homem que acabara de entrar não parecia ter pressa. Caminhava com segurança, cada passo medido, acompanhado por outros dois homens que mantinham uma distância respeitosa atrás dele. Não era preciso uniforme para reconhecer autoridade. Ela estava na postura. Na maneira como as pessoas desviavam do caminho. No silêncio que nascia ao redor. Arya desviou o olhar rapidamente, o coração batendo um pouco mais rápido do que deveria. Clientes importantes apareciam ali às vezes. Gente rica. Influente. Perigosa, talvez. Nada disso tinha a ver com ela. Então por que aquela sensação estranha rastejava por sua pele? Uma colega se aproximou, murmurando: — Acho que é o Russo. Arya franziu a testa. — Russo? — Dominic Russo — a outra sussurrou, como se o nome fosse proibido. — Meu Deus. O nome não significava nada para Arya. Mas o jeito como foi dito significava. Muito. Ela pegou a bandeja antes que pudessem mandá-la atender aquela mesa. Preferia o balcão, a máquina de café, qualquer coisa que a mantivesse longe da atenção daquele homem. Mas o destino, que nunca se importara muito com suas preferências, tinha outros planos. — Arya — chamou a gerente. — Mesa do fundo. Claro. Sempre ela. Arya caminhou tentando ignorar o peso que parecia aumentar a cada passo. Repetiu mentalmente o que sempre fazia: educada, rápida, invisível. Não havia motivo para nervosismo. Era só mais um cliente. Só mais um homem. Ela parou diante da mesa, o olhar focado no bloco de anotações. — Boa noite. O que o senhor deseja? Silêncio. Não o silêncio comum de quem escolhe algo no cardápio. Um silêncio atento. Presente. Lento. Contra a própria regra, Arya levantou os olhos. E encontrou os dele. Escuros. Fixos. Intensos de um jeito que fez o ar faltar por um segundo inteiro. Dominic Russo não parecia surpreso por ela estar ali. Não parecia curioso. Não parecia interessado como homens costumavam parecer. Era diferente. Ele a observava como se tivesse acabado de encontrar algo que não sabia que procurava. O tempo se esticou. Arya sentiu o coração bater nos ouvidos. Sentiu a própria respiração falhar. Sentiu que deveria olhar para longe. Mas não conseguiu. Porque ele não deixava. Havia algo naquele olhar que prendia, que exigia, que tomava. Como se, naquele exato instante, ela tivesse deixado de ser invisível. O canto da boca dele se moveu quase imperceptivelmente, não chegando a ser um sorriso. Foi pior. — Um café — ele disse, a voz baixa, firme. Arya demorou um segundo a mais do que devia para reagir. — S-sim, senhor. Anotou, mesmo não precisando, e deu um passo para trás. Mas antes que pudesse escapar, sentiu novamente. Ele ainda estava olhando. Seguindo. Marcando. Arya virou as costas com a estranha certeza de que algo tinha mudado. Não sabia o quê. Não sabia por quê. Mas sabia, com uma clareza assustadora, que quando um homem como Dominic Russo decidia prestar atenção… …não existia mais como voltar a ser invisível.
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