Dominic Russo não se distraía.
Era uma regra que ele seguia havia anos, construída com disciplina, erros que custaram caro e um entendimento simples sobre o mundo: qualquer segundo de descuido era uma oportunidade para alguém puxar o gatilho, trair um acordo ou enfiar uma faca onde doía mais.
Por isso, quando entrava em um lugar, ele via tudo.
Saídas.
Movimentos.
Mãos nervosas.
Olhares que demoravam demais.
Nada escapava.
Nada o surpreendia.
Até aquela noite.
O café era apenas um ponto de encontro conveniente. Discreto o bastante para conversas que não deveriam existir, movimentado o suficiente para ninguém fazer perguntas. Ele já tinha estado ali outras vezes, sempre pela mesma razão: negócios.
Não esperava novidade.
Esperava eficiência.
Sentou-se à mesa do fundo enquanto Matteo e Carlo ocupavam seus lugares habituais, atentos, silenciosos. Dominic ajustou o relógio no pulso, conferiu o celular, revisou mentalmente cada detalhe da reunião que aconteceria em poucos minutos.
Foco.
Sempre foco.
Foi então que o ambiente mudou.
Ou talvez tivesse sido ele.
Um movimento simples, quase banal, perto do balcão puxou sua atenção por meio segundo — tempo suficiente para irritá-lo consigo mesmo.
Dominic virou o rosto, preparado para descartar a distração.
E a viu.
Ela não fazia nada extraordinário.
Não estava rindo alto, não usava roupas chamativas, não tentava atrair olhares. Pelo contrário. Havia algo quase calculado na maneira como se mantinha pequena, eficiente, rápida.
Como alguém treinado para não incomodar o mundo.
O cabelo liso preso em um r**o simples deslizava por suas costas quando se movia entre as mesas. A postura era elegante sem esforço. A pele escura captava a luz do ambiente de um jeito que prendia a vista, mesmo quando ela tentava escapar dela.
Dominic franziu levemente o cenho.
Estranho.
Ela não combinava com o restante daquele lugar. Não com a forma como as pessoas o encaravam, curiosas ou temerosas. Não com a energia de quem sempre queria algo dele.
Aquela mulher parecia querer exatamente o oposto.
Passar despercebida.
Ele deveria ter voltado ao celular. Deveria ter retomado os cálculos, as probabilidades, as decisões que moldavam destinos.
Mas continuou olhando.
Havia algo nos movimentos dela.
Precisão misturada com pressa.
Como se cada segundo exposta fosse perigoso demais.
— Chefe? — Matteo chamou, em voz baixa.
Dominic não respondeu.
Ela falava com outra mesa agora, anotando pedidos, educada, distante. Não sorria além do necessário. Não forçava simpatia. Não tentava agradar.
Não parecia se importar em ser notada.
Isso, por algum motivo, o irritou.
Ou talvez tivesse intrigado.
Mulheres costumavam notar Dominic Russo.
Sempre.
Algumas por interesse. Outras por medo. Muitas por ambos.
Mas aquela… aquela sequer tinha olhado em sua direção.
Como se ele fosse comum.
A ideia era absurda.
Inaceitável.
Ele recostou na cadeira, avaliando a própria reação com frieza. Não gostava de nada que saísse do controle, muito menos de impulsos que não entendia.
Era apenas uma funcionária.
Nada mais.
Quando a gerente falou com ela e apontou para sua mesa, Dominic percebeu.
Percebeu a pequena hesitação.
O jeito como os ombros enrijeceram.
O ar que ela puxou antes de começar a caminhar.
Ela não queria vir.
O pensamento surgiu claro.
E isso foi… interessante.
Ela parou diante dele com o olhar abaixado, profissional.
— Boa noite. O que o senhor deseja?
A voz era suave, mas firme o suficiente para não tremer.
Dominic observou cada detalhe.
A forma como os dedos seguravam o bloco.
O cuidado em manter distância.
A tentativa quase palpável de terminar rápido.
Ele não respondeu de imediato.
Queria ver.
Queria entender o que aconteceria se prolongasse aquele momento.
Então ela quebrou a própria regra.
Levantou os olhos.
Dominic não estava preparado.
Não para a intensidade silenciosa que encontrou ali. Não para a profundidade. Não para a sensação estranha de reconhecimento, mesmo sem nunca tê-la visto antes.
Algo apertou em seu peito.
Rápido. Incômodo.
Perigoso.
Ela parecia ter percebido também. Porque ficou imóvel, presa, como um animal que sente o predador mas não sabe para onde fugir.
Aquilo deveria ter sido suficiente.
Ele poderia pedir o café, dispensá-la e seguir com a vida.
Era o que sempre fazia.
Mas a palavra sempre, de repente, perdeu a força.
— Um café — disse, finalmente.
A reação dela foi mínima. Um tropeço invisível na respiração. Um segundo a mais do que o aceitável.
Dominic registrou.
Ela anotou e se afastou.
E ele continuou olhando.
Não por desejo.
Não ainda.
Era outra coisa.
Algo mais primitivo.
Mais definitivo.
Como reconhecer um ponto fraco que ninguém mais tinha visto.
Como descobrir algo que passava a ser seu no instante em que foi encontrado.
Matteo inclinou o corpo discretamente.
— Quer que eu resolva a reunião, chefe?
Dominic demorou a responder.
Seus olhos permaneceram nela, atrás do balcão, preparando o pedido com uma atenção exagerada, como se pudesse sentir o peso da vigilância.
Interessante.
Muito interessante.
— Não — ele disse, a voz baixa. — Pode deixar.
Porque, pela primeira vez em muito tempo, Dominic Russo tinha encontrado algo que merecia sua atenção completa.
E ele nunca foi um homem que desistia do que queria.