Rowena manteve o olhar fixo em Ewan por alguns segundos.
O salão seguia vivo ao redor deles, mas entre os dois havia um silêncio denso, carregado do que não era dito.
Então ela falou, baixa, firme como fazia em conselho.
— Já que não me deixaste dançar com outro… — deu um passo mais perto — então dançarás comigo.
Ewan piscou.
Uma única vez.
— Eu não danço.
— Disseste que não comentas aparência — respondeu ela, impassível. — Não disseste nada sobre recusar ordens da tua rainha.
Alguns nobres próximos prenderam o riso ao perceberem o leve tom de desafio.
Ewan inclinou a cabeça, aproximando o rosto do dela.
— Isto não é uma ordem que deva ser dada em público.
— Justamente por isso — murmurou Rowena. — O público precisa ver.
Ele respirou fundo.
Lento.
Controlado.
Como antes de avançar contra um inimigo numericamente superior.
E então estendeu a mão.
O gesto foi firme, quase cerimonial.
— Uma música — disse. — Apenas uma.
Rowena pousou a mão na dele sem hesitar.
Quando se posicionaram, Ewan manteve distância precisa correta, respeitosa. A mão em suas costas era firme, mas não possessiva. Cada passo dele era calculado, como se estivesse marcando território invisível.
Ele não errava.
Não tropeçava.
Mas também não sorria.
— Aprendeste a dançar onde? — perguntou ela.
— Em tratados. — respondeu seco. — Passos são padrões. Padrões se memorizam.
— Isso explica por que danças como se estivesse prestes a atacar alguém.
— Estou — disse ele, sério.
Rowena riu, baixo.
O som fez Ewan vacilar por meio segundo.
Meio passo fora do ritmo.
Quase imperceptível.
Mas ela sentiu.
— Vês? — disse ela. — Não é uma guerra.
Ele a olhou.
De verdade.
— Tudo onde há olhos observando é um campo de batalha.
Ela se aproximou um pouco mais, quebrando a distância calculada.
— Então aprende isto, Lobo — murmurou. — Nem toda vitória precisa de sangue.
A música seguiu.
Os nobres observavam, surpresos.
O rei temido… dançando.
A rainha firme… conduzindo o ritmo emocional.
Ewan percebeu algo desconcertante:
Ele confiava nela ali.
Confiava o suficiente para baixar a guarda.
E isso o deixava mais vulnerável do que qualquer espada.
Quando a música terminou, ele a soltou devagar.
Não houve aplausos imediatos.
Houve respeito.
Ewan inclinou levemente a cabeça para Rowena.
— Dívida paga.
Ela sorriu.
— Não. — aproximou-se do ouvido dele. — Agora sei que podes dançar. Isso muda tudo.
E, pela primeira vez naquela noite,
o Lobo não soube se aquilo era uma ameaça…
ou uma promessa.
A carruagem avançava pela estrada de pedra, embalada pelo som ritmado dos cascos e pelo ranger suave da madeira. Lanternas pendiam dos lados, lançando sombras móveis no interior fechado.
Ewan estava sentado ereto, braços cruzados, o olhar fixo em nada específico.
Rowena, ao lado, havia retirado as luvas e massageava os dedos discretamente, ainda sentindo o eco da música.
O silêncio durou alguns minutos.
— Gostou do baile, meu rei ?
Silêncio.
— Eu odiei— disse Ewan, por fim.
A frase saiu direta, sem rodeios.
Rowena sorriu de canto.
— Eu sei.
Ele virou o rosto, surpreso.
— Como?
— Porque odeia lugares onde as pessoas fingem não querer nada — respondeu ela. — E ali todos queriam algo.
Ewan bufou, quase imperceptível.
— Olhares, sorrisos, reverências… — continuou ele. — Tudo é cálculo disfarçado. Prefiro inimigos que levantam a espada.
— Ainda assim — disse Rowena, apoiando-se no banco da carruagem — eu gostei.
Ele a encarou.
— Gostaste?
— Sim. — ela afirmou sem hesitar. — Gostei de dançar. De ouvir sotaques diferentes. De ver rostos que não me olham como se eu fosse apenas… a rainha que precisa provar algo, é bom sair da mesmisse as vezes.
Ewan franziu o cenho.
— Não precisas provar nada.
Ela voltou-se para ele.
— Preciso, sim. — disse com calma. — Não por eles. Por mim, por nós.
O balanço da carruagem os fez se aproximar levemente.
— E tu? — ela perguntou. — Por que foste, então?
Ewan demorou.
O olhar voltou à janela.
— Porque disseste que era importante para a imagem do reino.
— Só isso?
Ele respirou fundo.
— E porque confio no teu julgamento.
Rowena ficou em silêncio por um instante.
— Eu percebi algo hoje — disse ela.
— O quê?
— Que tu não gostas de festas… mas gostas de proteger o que é teu.
Ele a olhou rápido demais.
— Cuidado com as palavras.
— Não disse posse — respondeu ela, serena. — Disse cuidado.
A carruagem passou por uma curva, e a luz das lanternas iluminou o rosto dele.
Cansado.
Atento.
Humano, apesar de tudo.
— Eu gostei quando dançamos — ela acrescentou. — Não pela dança em si. Mas porque, por um momento, tu não pareceste um rei… nem um lobo.
— E o que pareci? — perguntou ele, baixo.
Rowena sorriu, olhando à frente.
— Meu marido.
O castelo surgiu à distância, imponente contra o céu noturno.
Ewan endireitou-se.
A couraça invisível voltando ao lugar.
— Não te acostumes — disse ele.
Rowena apoiou a cabeça levemente no encosto.
— Não se preocupe, Majestade. — respondeu. — Algumas coisas são especiais justamente porque não se repetem.
Mas, no fundo, ambos sabiam:
Aquela conversa, naquela carruagem,
tinha mudado algo que nem a guerra havia conseguido tocar.