XLI

895 Palavras
Rowena manteve o olhar fixo em Ewan por alguns segundos. O salão seguia vivo ao redor deles, mas entre os dois havia um silêncio denso, carregado do que não era dito. Então ela falou, baixa, firme como fazia em conselho. — Já que não me deixaste dançar com outro… — deu um passo mais perto — então dançarás comigo. Ewan piscou. Uma única vez. — Eu não danço. — Disseste que não comentas aparência — respondeu ela, impassível. — Não disseste nada sobre recusar ordens da tua rainha. Alguns nobres próximos prenderam o riso ao perceberem o leve tom de desafio. Ewan inclinou a cabeça, aproximando o rosto do dela. — Isto não é uma ordem que deva ser dada em público. — Justamente por isso — murmurou Rowena. — O público precisa ver. Ele respirou fundo. Lento. Controlado. Como antes de avançar contra um inimigo numericamente superior. E então estendeu a mão. O gesto foi firme, quase cerimonial. — Uma música — disse. — Apenas uma. Rowena pousou a mão na dele sem hesitar. Quando se posicionaram, Ewan manteve distância precisa correta, respeitosa. A mão em suas costas era firme, mas não possessiva. Cada passo dele era calculado, como se estivesse marcando território invisível. Ele não errava. Não tropeçava. Mas também não sorria. — Aprendeste a dançar onde? — perguntou ela. — Em tratados. — respondeu seco. — Passos são padrões. Padrões se memorizam. — Isso explica por que danças como se estivesse prestes a atacar alguém. — Estou — disse ele, sério. Rowena riu, baixo. O som fez Ewan vacilar por meio segundo. Meio passo fora do ritmo. Quase imperceptível. Mas ela sentiu. — Vês? — disse ela. — Não é uma guerra. Ele a olhou. De verdade. — Tudo onde há olhos observando é um campo de batalha. Ela se aproximou um pouco mais, quebrando a distância calculada. — Então aprende isto, Lobo — murmurou. — Nem toda vitória precisa de sangue. A música seguiu. Os nobres observavam, surpresos. O rei temido… dançando. A rainha firme… conduzindo o ritmo emocional. Ewan percebeu algo desconcertante: Ele confiava nela ali. Confiava o suficiente para baixar a guarda. E isso o deixava mais vulnerável do que qualquer espada. Quando a música terminou, ele a soltou devagar. Não houve aplausos imediatos. Houve respeito. Ewan inclinou levemente a cabeça para Rowena. — Dívida paga. Ela sorriu. — Não. — aproximou-se do ouvido dele. — Agora sei que podes dançar. Isso muda tudo. E, pela primeira vez naquela noite, o Lobo não soube se aquilo era uma ameaça… ou uma promessa. A carruagem avançava pela estrada de pedra, embalada pelo som ritmado dos cascos e pelo ranger suave da madeira. Lanternas pendiam dos lados, lançando sombras móveis no interior fechado. Ewan estava sentado ereto, braços cruzados, o olhar fixo em nada específico. Rowena, ao lado, havia retirado as luvas e massageava os dedos discretamente, ainda sentindo o eco da música. O silêncio durou alguns minutos. — Gostou do baile, meu rei ? Silêncio. — Eu odiei— disse Ewan, por fim. A frase saiu direta, sem rodeios. Rowena sorriu de canto. — Eu sei. Ele virou o rosto, surpreso. — Como? — Porque odeia lugares onde as pessoas fingem não querer nada — respondeu ela. — E ali todos queriam algo. Ewan bufou, quase imperceptível. — Olhares, sorrisos, reverências… — continuou ele. — Tudo é cálculo disfarçado. Prefiro inimigos que levantam a espada. — Ainda assim — disse Rowena, apoiando-se no banco da carruagem — eu gostei. Ele a encarou. — Gostaste? — Sim. — ela afirmou sem hesitar. — Gostei de dançar. De ouvir sotaques diferentes. De ver rostos que não me olham como se eu fosse apenas… a rainha que precisa provar algo, é bom sair da mesmisse as vezes. Ewan franziu o cenho. — Não precisas provar nada. Ela voltou-se para ele. — Preciso, sim. — disse com calma. — Não por eles. Por mim, por nós. O balanço da carruagem os fez se aproximar levemente. — E tu? — ela perguntou. — Por que foste, então? Ewan demorou. O olhar voltou à janela. — Porque disseste que era importante para a imagem do reino. — Só isso? Ele respirou fundo. — E porque confio no teu julgamento. Rowena ficou em silêncio por um instante. — Eu percebi algo hoje — disse ela. — O quê? — Que tu não gostas de festas… mas gostas de proteger o que é teu. Ele a olhou rápido demais. — Cuidado com as palavras. — Não disse posse — respondeu ela, serena. — Disse cuidado. A carruagem passou por uma curva, e a luz das lanternas iluminou o rosto dele. Cansado. Atento. Humano, apesar de tudo. — Eu gostei quando dançamos — ela acrescentou. — Não pela dança em si. Mas porque, por um momento, tu não pareceste um rei… nem um lobo. — E o que pareci? — perguntou ele, baixo. Rowena sorriu, olhando à frente. — Meu marido. O castelo surgiu à distância, imponente contra o céu noturno. Ewan endireitou-se. A couraça invisível voltando ao lugar. — Não te acostumes — disse ele. Rowena apoiou a cabeça levemente no encosto. — Não se preocupe, Majestade. — respondeu. — Algumas coisas são especiais justamente porque não se repetem. Mas, no fundo, ambos sabiam: Aquela conversa, naquela carruagem, tinha mudado algo que nem a guerra havia conseguido tocar.
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