XLIV

854 Palavras
A noite estava silenciosa demais. Ewan despertou sem ruído, como sempre fazia desde os anos de guerra. Não foi um som que o acordou, mas uma mudança quase imperceptível no ar. A respiração de Rowena. Antes regular, profunda agora irregular. Curta. Como se algo a puxasse para fora do sono. Ele permaneceu imóvel. O lobo observa antes de agir. Rowena se mexeu, os dedos se fecharam no lençol. A testa franziu, os lábios se entreabriram em um murmúrio que não chegou a ser palavra. — Não… — sussurrou ela, sem acordar. Ewan virou-se lentamente para encará-la. Havia tensão em todo o corpo dela. Não era um sonho comum. Não era o sobressalto de um dia cansativo. Era passado. Ele percebeu pelo modo como ela tentava se afastar de algo invisível, como se estivesse presa àquela memória. — Não posso… — murmurou novamente, a voz quase quebrada. Ewan sentou-se devagar na cama, os pés tocando o chão frio. Não a chamou ainda. Não a tocou. Aprendera na guerra que alguns terrores pioram quando arrancados à força. Rowena respirava rápido demais agora. Um leve tremor percorreu seus ombros. — Papai..por favor— escapou de seus lábios. O maxilar de Ewan se contraiu. Então ele entendeu. Não era medo de batalha. Era medo de desapontar. De ser impedida. De ser silenciada. O lobo não gosta de jaulas. Rowena virou-se bruscamente, como se estivesse tentando fugir, e um soluço contido rompeu o ar. Ewan então falou, baixo, firme, ancorando-a no presente. — Rowena. Ela não respondeu. Ele se aproximou um pouco mais. — Estás segura. A mão dele pairou no ar por um instante, avaliando, respeitando. Então tocou o antebraço dela, um contato firme, real. — Acorda. — disse com calma. — Estás aqui. Rowena inspirou fundo, como quem emerge de água profunda. Os olhos se abriram de repente, arregalados, buscando algo que não estava ali. Ela sentou-se de um salto, ofegante. — Não… eu… — a voz falhou. Ewan estava ali. Próximo, mas não invasivo. — Foi um pesadelo. — disse. — Estás no castelo. Comigo. Ela piscou várias vezes, os olhos focando lentamente nele. O silêncio se estendeu. — Eu não costumo… — começou ela, mas parou. — Não precisa explicar. — respondeu ele. Rowena passou a mão pelo rosto, tentando recompor-se. — Aconteceu de novo — murmurou. Ewan inclinou levemente a cabeça. — Queres falar? Ela pensou. Respirou fundo. — Não agora. — Então não falaremos. Ela o olhou, surpresa pela ausência de cobrança. — Fica? — perguntou, quase num fio de voz. Ewan assentiu. Sentou-se ao lado dela, os ombros próximos o bastante para dividir o calor, mas sem prendê-la. Rowena respirou mais devagar. — Obrigada — disse, depois de um tempo. — Dorme. — respondeu ele. — Eu vigio. Ela se deitou novamente, desta vez virada para ele. Em poucos minutos, o corpo relaxou. Ewan permaneceu acordado. Não como rei. Não como lobo. Mas como sentinela de um sono que confiara nele. E naquela noite, enquanto o passado tentava reclamar Rowena, o lobo ficou silencioso, atento, impedindo que qualquer sombra atravessasse o presente. Ewan esperou. Esperou até que a respiração de Rowena se tornasse novamente profunda, até que o corpo dela cedesse ao sono com a exaustão de quem lutara contra lembranças antigas. Então voltou a se deitar. De costas, como sempre. Respeitando o espaço que ambos haviam estabelecido desde o primeiro dia. O quarto permaneceu em silêncio por algum tempo. Mas o sono de Rowena não era completamente tranquilo. Ela se mexeu uma vez. Depois outra. O lençol dela roçou o braço de Ewan. Ele abriu os olhos imediatamente, atento, mas não se moveu. Rowena virou-se mais uma vez, inquieta, como se buscasse algo que nem ela sabia nomear. O joelho encostou de leve na perna dele. Depois a mão no ombro. Por fim, quase sem perceber, ela se aproximou de vez. O calor do corpo dela colou no dele. Rowena suspirou fundo. E, então, algo mudou. A tensão nos ombros cedeu. A respiração desacelerou. O corpo finalmente relaxou por completo. Ela dormia agora de verdade. Encostada nele. Ewan permaneceu imóvel. O lobo conhecia o impulso de afastar tudo que pudesse ser ameaça. Aproximação, para ele, sempre fora risco. Mas aquilo não era risco. Era confiança inconsciente. Ele se virou devagar observou o rosto dela à luz fraca da lua que entrava pela janela. Os traços suaves no descanso, tão diferentes da firmeza com que enfrentava conselheiros e guerreiros. Ela confiava nele até quando dormia. Ewan não a repeliu. Não se afastou. Não endureceu. Apenas respirou fundo e permaneceu ali, tornando-se algo que nunca fora antes. Apoio. Com cuidado quase imperceptível, ajustou o corpo para que ela não caísse, sem envolvê-la, sem aprisioná-la. Rowena murmurou algo inaudível e se acomodou melhor, como se soubesse em algum lugar profundo que estava segura. Ewan manteve os olhos abertos por muito tempo. Protegendo. Guardando. Até que, pela primeira vez desde que se tornara rei, o lobo permitiu-se descansar sem vigiar todas as sombras. Porque naquela noite, não era apenas ele quem protegia o reino. Era o reino silencioso, humano, inesperado que começava a protegê-lo também
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