XXVII

874 Palavras
A porta do salão do conselho fechou-se com um som pesado, ecoando pelas paredes de pedra. O silêncio que restou não era o mesmo de antes. Era denso. Vivo. Ewan permaneceu de pé por alguns instantes, olhando para o lugar onde os conselheiros estiveram. Seu rosto mantinha a expressão controlada de sempre, mas por dentro algo se reorganizava não em caos, e sim em reconhecimento. Ele estava acostumado a lutar sozinho. Sempre estivera. Desde o primeiro campo de batalha, aprendera que confiar era um risco. Que dividir poder era abrir flancos. Que silêncio era mais seguro do que parceria. Mas, naquela sala… Rowena não falara por ele. Falara com ele. Ewan sentiu algo raro: não a perda de controle, mas o reforço dele. Ela não enfraquecera sua autoridade. Ela a consolidara. Internamente, o Lobo avaliou o gesto como avaliava tudo: peso, consequência, custo. E chegou a uma conclusão inesperada. Rowena não era apenas adequada ao trono. Ela era perigosa para quem o ameaçasse. E isso… isso era valioso. Rowena, por sua vez, manteve a postura firme apenas até a porta se fechar. Por dentro, o impacto veio depois. Ela não tremia jamais permitiria isso mas sentia o pulso acelerado, não por medo, e sim pela certeza do que acabara de fazer. Ela enfrentara homens que governavam antes mesmo de Ewan nascer. E não recuara. Não porque fosse rainha. Mas porque acreditava nele. Isso a surpreendeu. Rowena sempre acreditara na razão, na estratégia, no cálculo frio. Não em pessoas. Não em figuras moldadas pela guerra. Mas Ewan… Ele não tentara interrompê-la. Não se sentira diminuído. Não a silenciara. Ele aceitara sua voz. E isso criou algo perigoso dentro dela. Lealdade. Não cega. Consciente. Ewan quebrou o silêncio. — Eles não tentarão novamente tão cedo. Rowena inclinou a cabeça. — Não. — respondeu. — Mas observarão. Ele virou-se para ela. — E tu? — perguntou. — Arrependendida ? Ela sustentou o olhar dele sem hesitar. — Não. — disse. — Se governar ao teu lado significa enfrentar homens assim, então que se acostumem comigo. Ewan a estudou por um longo momento. Não como rei. Não como marido. Como estrategista. — Fizeste inimigos hoje. — disse. — Já os tinha. — respondeu ela. — Agora sabem. Um canto quase imperceptível da boca dele se moveu. — Escolhi bem. — disse, finalmente. Rowena sentiu o peso daquelas palavras mais do que qualquer elogio adornado. Porque vindas do Lobo… Eram verdade. Eles não se aproximaram. Não houve toque. Mas algo invisível se assentou entre eles, sólido como pedra. Uma aliança verdadeira. Não selada por coroas. Nem por promessas. Mas por reconhecimento mútuo. E, naquele momento, ambos entenderam: O trono não tinha mais apenas um lobo. Tinha dois. O silêncio ainda pairava quando Ewan falou novamente, a voz baixa, pensada. — Tomei uma decisão. Rowena voltou-se para ele, atenta, esperando algo ligado ao conselho, às fronteiras, a mais uma guerra iminente. — Vou ensinar-te a lutar. Por um instante, ela não respondeu. Piscou. Depois, os olhos se iluminaram de um jeito que Ewan jamais vira em rosto algum dentro daquelas muralhas. — Tu…? — a voz dela falhou. — Tu mesmo? — Não confio essa tarefa a ninguém. — disse ele. — E não permitirei que aprendas pela metade. O controle de Rowena cedeu. Antes que pudesse medir o gesto, deu dois passos rápidos e o envolveu em um abraço firme, espontâneo, completamente alheio a protocolos ou coroas. — Ewan, eu— O sorriso que surgiu em seu rosto não era o da rainha. Era o de uma mulher que carregara um desejo por anos e, de repente, o via possível. Um sorriso quase infantil. Só então ela percebeu. Os braços dela estavam em torno dele. O corpo dele imóvel, surpreso. Rowena afastou-se de imediato, o rubor subindo-lhe ao rosto. — Perdão. — disse, rápida. — Eu… não pensei. É que… — respirou fundo — foi um sonho antigo. Algo que nunca me foi permitido. Fiquei animada demais. Ela baixou o olhar por um instante, depois tornou a erguê-lo, firme. — Aprender contigo é uma honra. — completou. — Mais do que imagina. Ewan permaneceu em silêncio por um momento. O abraço fora breve. Mas o impacto… não. Ninguém o tocava assim. Nunca por impulso. Nunca por alegria. Ele sentiu o corpo reagir antes da mente um reflexo antigo, quase perigoso mas se conteve. Não recuou. Não a repreendeu. — Não pedirei desculpas pelo que despertou em ti. — disse, por fim. — Isso é teu por direito. Os olhos dele pousaram nos dela, avaliando não fraqueza, mas fogo. — Começaremos ao amanhecer. — continuou. — Treinarás como qualquer guerreiro. Cairá. Errará. E se levantará. Ela assentiu sem hesitar. — Não espero menos. O canto da boca dele se moveu novamente, quase um sorriso. — Então prepara-te, minha rainha. — disse. — Porque quem empunha uma espada muda para sempre. Rowena endireitou os ombros. — Estou pronta. E enquanto ela se afastava, ainda com o coração acelerado e um brilho novo no olhar, Ewan permaneceu ali, imóvel. O Lobo compreendia guerra, estratégia, perda. Mas aquele abraço… Aquilo fora diferente. Não o enfraquecera. O lembrara de algo esquecido. Que até o aço mais frio pode guardar calor quando tocado sem medo.
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