XX

949 Palavras
O anúncio não foi feito em segredo. Ewan MacAllister ordenou que fosse feito em voz alta, em papel e em presença. Mensageiros partiram para cada vila, cada clã, cada fortaleza menor. As cartas levavam o selo do lobo e poucas palavras, diretas como o próprio rei: O rei convoca seu povo. Compareçam ao baile real. Conheçam a mulher que caminhará ao meu lado. Não havia pedido. Havia convocação. E o reino respondeu. O grande salão do castelo nunca estivera tão cheio. Tecidos pendiam das vigas, tochas iluminavam as paredes de pedra, e o som de vozes misturava-se à música dos alaúdes. Nobres e camponeses dividiam o mesmo espaço ,algo raro, mas intencional. Ewan estava no trono. Imóvel. Observador. Esperou. No exato momento em que a música mudou de tom, as portas se abriram. O salão silenciou. Rowena Ela entrou no meio da festa, como ordenara o protocolo… e como Ewan desejara. Rowena vestia trajes reais, tecidos caros que refletiam a luz com sobriedade: verde profundo e prata, sem excessos, sem delicadeza frágil. O corte era firme, estruturado, digno de alguém que pisaria em campos de decisão. Nenhuma joia chamava mais atenção que sua postura. Ela caminhou com calma. Cada passo medido. Ao alcançar o centro do salão, fez uma reverência perfeita profunda o bastante para respeitar o trono, não para se diminuir diante dele. Ewan levantou-se. Não disse nada. O simples gesto bastou. O reino entendeu. Rowena ergueu o olhar e percorreu o salão com atenção cautelosa. Observava como quem avalia terreno: quem sorri por lealdade, quem por interesse, quem observa em silêncio. Ela não desviou. Quando o rei desceu do trono, o salão prendeu a respiração. Ewan ofereceu a mão. Rowena aceitou sem hesitar. A dança oficial começou lenta, solene. Ela não se deixou conduzir como ornamento. Acompanhava o ritmo com firmeza, os movimentos seguros, o olhar sereno. Não havia submissão em seus gestos, nem desafio. Havia equilíbrio. O Lobo e sua escolhida. Quando a música cessou, não houve aplausos imediatos. Houve silêncio respeitoso. Então, Rowena fez algo que muitos não esperavam. Soltou a mão de Ewan e virou-se para o salão. Uma nova reverência. Não ao trono. Ao povo. — Ajoelho-me diante deste reino não por dever… — disse, com voz clara — mas por respeito. Ela caminhou. Cumprimentou nobres com cortesia medida. Curvou-se diante de líderes de clã. E, por fim, fez algo que correu o salão como um sussurro elétrico: Inclinou-se diante dos camponeses mais próximos. — Enquanto eu for rainha — disse — nenhum respeito será de mão única. O salão explodiu. Não em gritos descontrolados, mas em aprovação firme, profunda. Ewan observava. Não com surpresa. Com confirmação. Quando Rowena voltou ao seu lado, ele falou baixo, apenas para ela: — Não te pedi isso. — Eu sei. — respondeu. — Fiz porque era necessário. Um canto quase imperceptível surgiu nos lábios dele. O reino via ali não um conto romântico… mas algo talvez mais perigoso: Uma rainha que não pedia lugar. Um rei que não precisava concedê-lo. E, naquela noite, sob música, luz e olhares atentos, ficou claro para todos os reinos que observavam à distância: O Lobo não reinava mais sozinho. Por um instante, ninguém soube exatamente como reagir. Então o salão reagiu inteiro. Os primeiros a se mover foram os camponeses. Homens e mulheres que raramente cruzavam o olhar direto de um rei agora murmuravam entre si, os rostos acesos de algo raro: reconhecimento. — Ela se curvou… — sussurrou uma mulher idosa, apertando o xale. — Não vi falsidade — respondeu outra. — Vi... respeito. Um jovem aprendiz, olhos brilhando, disse baixo: — Ela não falou como rainha… falou como alguém que vai ficar. Os murmúrios cresceram, viraram assentimentos, depois palmas firmes, honestas, sem exagero. O povo aceitava. Perto das colunas, homens marcados por cicatrizes observavam em silêncio. Veteranos. Capitães. Aqueles que haviam seguido Ewan em batalhas onde ninguém mais ousaria. Um deles cruzou os braços. — Ela não recuou. — disse. — Nem tremia. — respondeu outro. — Nem tentou agradar. Um terceiro assentiu lentamente. — Ela entende o Lobo. Para eles, isso bastava. Não aplaudiram alto. Inclinaram a cabeça. Ewan viu. E gravou. Entre os nobres, a reação foi… dividida. Alguns sorriram, rápidos em calcular vantagens. — Inteligente. — murmurou uma dama, observando o salão. — O povo gosta dela. Outros cerraram os lábios. — Uma mulher sem sangue real… — disse um lorde, incomodado. — Curvando-se a camponeses? — Justamente por isso. — respondeu outro, mais atento. — Ela não veio para jogar o nosso jogo. Ali nasceu algo perigoso: Cautela. E medo. Representantes de clãs das Terras Altas trocavam olhares longos. Um velho chefe bateu o cajado no chão uma única vez. — Ela não se colocou acima da terra. — disse. — Colocou-se dentro dela. Outro murmurou: — O Lobo escolheu bem. A aprovação dos clãs não vinha com aplausos. Vinha com silêncio respeitoso. Quando a música recomeçou, não era a mesma. Algo havia mudado. As pessoas dançavam, mas observavam. Falavam, mas mediam palavras. Não era mais apenas um baile era um marco. Histórias começaram a nascer ali, sendo sussurradas antes mesmo de ganharem forma: A rainha que se curvou ao povo. A mulher que não sorriu para agradar. A escolhida do Lobo. Ewan permaneceu ao lado de Rowena. Não a tocou novamente. Não precisou. Ela já estava onde devia estar. E, enquanto o salão vibrava com aprovação, cálculo e expectativa, uma certeza se espalhava como fogo lento: O reinado de Ewan MacAllister havia entrado em uma nova era. Não mais suavizada. Mas mais perigosa. Porque agora, o Lobo tinha ao seu lado alguém que compreendia o peso do silêncio… e sabia exatamente quando quebrá-lo.
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