A manhã seguinte amanheceu cinzenta, como se o próprio castelo soubesse que não seria um dia leve.
O conselho reuniu-se cedo.
Os homens mais velhos sentaram-se em seus lugares com expressões fechadas, alguns ainda irritados com os ecos do baile da noite anterior. Ewan ocupava o trono em silêncio, atento, imóvel como uma lâmina embainhada.
Rowena estava à sua direita.
Sem coroa.
Sem ornamentos excessivos.
Apenas postura.
— Majestade — começou Seumas, com a voz dura — a atitude de Lady Rowena ontem foi… imprudente.
— Curvar-se a camponeses — disse outro — enfraquece a autoridade da coroa.
— O povo pode interpretar como igualdade — acrescentou Duncan. — E igualdade gera questionamentos.
Rowena ouviu sem reagir.
Não cruzou os braços.
Não desviou o olhar.
Esperou.
Quando o murmúrio cessou, ela virou-se levemente para Ewan.
— Majestade — disse, calma — peço a palavra, por favor.
Ewan respondeu sem hesitar:
— Fale.
Rowena deu um passo à frente.
— Senhores do conselho… — começou — se curvar diante do povo enfraquece um rei, então este reino já estava fraco antes de mim.
Um murmúrio ofendido percorreu a mesa.
Ela continuou, imperturbável:
— Ontem, o povo não viu uma mulher ajoelhando-se.Viu a coroa reconhecendo quem a sustenta.
— A autoridade não vem da distância — disse, caminhando lentamente — mas da confiança.
Seumas tentou intervir, mas ela ergueu a mão.
— Permita-me terminar. — disse, sem elevar a voz.
Ele se calou.
— Os camponeses não pedem igualdade. — Rowena prosseguiu. — Pedem previsibilidade. Justiça. Um reino que não mude de humor como vento.
Ela olhou para cada conselheiro.
— Um povo respeitado não se rebela.Um povo ignorado… planeja.
Silêncio.
— Ontem — disse ela — eu não baixei a coroa. Eu a fixei.
Duncan engoliu em seco.
— Os clãs viram uma rainha que conhece a terra.
— Os guerreiros viram alguém que não teme estar à vista.
— Os nobres viram que este reinado não será conduzido apenas por sangue antigo.
Ela deu um meio sorriso frio.
— Se isso os preocupa… então talvez o problema não esteja no gesto.
Ninguém respondeu de imediato.
O som do vento contra as janelas preencheu o salão.
Por fim, Seumas pigarreou.
— Suas palavras são… afiadas.
— Governar exige lâminas bem cuidadas. — respondeu ela.
O conselho ficou em silêncio.
Não derrotado.
Mas desarmado.
Ewan não interveio.
Não precisou.
Quando finalmente falou, sua voz foi baixa e definitiva:
— A rainha falou por mim.
Os conselheiros baixaram o olhar.
Rowena voltou ao lugar ao lado do trono, serena.
E naquele momento, todos entenderam algo que não estava nos registros oficiais:
O rei não havia escolhido apenas uma rainha.
Havia escolhido uma aliada capaz de enfrentar o conselho… e vencê-lo.
Fria.
Inteligente.
E tão implacável quanto o próprio Lobo.
O anúncio do casamento não foi envolto em mistério.
Assim como tudo no reinado de Ewan MacAllister, foi direto, público e impossível de ignorar.
Editais foram pregados em cada vila, cada cruzamento de estrada, cada porto:
O rei tomará esposa.
O reino é convidado.
A mulher escolhida será coroada no mesmo dia.
Não havia promessa de conto de fadas.
Havia declaração de poder.
O dia.
O céu das Terras Altas amanheceu claro, cortado por nuvens altas e vento firme um dia que parecia feito de pedra e aço.
O pátio interno do castelo foi aberto ao povo. Arquibancadas simples misturavam camponeses, guerreiros, clãs e nobres. Não havia separações rígidas. Apenas espaço suficiente para todos verem.
Ewan surgiu primeiro.
Vestia manto escuro, bordado com o lobo prateado. A coroa repousava em sua cabeça sem cerimônia exagerada. Não havia sorrisos. Apenas presença.
O reino silenciou.
Então, os sinos tocaram novamente.
As portas se abriram.
Rowena caminhou sozinha pelo corredor de pedra.
O vestido não era frágil nem excessivamente delicado. Tecidos pesados, nobres, corte firme. Prata e verde profundo. Uma longa capa arrastava-se atrás dela como sombra controlada.
Não havia véu.
Ela não vinha escondida.
Cada passo era seguro. Cada olhar, consciente.
Quando alcançou o centro, não olhou para o rei primeiro.
Olhou para o povo.
E fez uma reverência lenta, inteira.
O sacerdote falou palavras antigas, curtas e sólidas, como as tradições das Terras Altas.
— Não se unem por fantasia.
— Não se unem por conforto.
— Unem-se para sustentar um reino.
Ewan estendeu a mão.
Rowena colocou a sua.
Não houve promessas sussurradas. Houve votos claros:
— Ficar quando for difícil.
— Decidir quando for necessário.
— Não trair o reino por fraqueza.
As alianças foram trocadas.
O povo respondeu com aplausos firmes, ecoando pelas muralhas.
Mas o momento ainda não havia terminado.
O sacerdote ergueu a coroa de Rowena.
Silêncio absoluto.
— Rowena de Glenarraidh — proclamou — pelo direito concedido por este reino e pela vontade de seu rei…
Ele fez uma pausa.
— Eu a coroo Rainha das Terras Altas.
A coroa tocou sua cabeça.
Pesada.
Definitiva.
Rowena endireitou-se.
— Vossa Majestade — ecoou o povo, primeiro tímido, depois forte, uníssono.
Ewan aproximou-se.
Ficaram lado a lado.
Duas coroas.
Nenhuma acima da outra.
Os clãs ergueram seus estandartes.
Os guerreiros bateram as mãos nos escudos.
Os camponeses ajoelharam-se não por medo, mas por reconhecimento.
Ali não estava uma rainha consorte.
Estava uma soberana.
Rowena ergueu a voz pela primeira vez como rainha:
— Enquanto eu usar esta coroa… — disse — este reino terá chão firme e voz ouvida.
Ewan completou, sem olhar para ela:
— E terá proteção.
O vento soprou forte, fazendo os estandartes se moverem como se o próprio reino respirasse.
Naquele dia, ficou gravado na memória das Terras Altas:
O Lobo não dividiu o trono.
Ele compartilhou o fardo.
E, a partir daquele momento, quando os reinos estrangeiros falassem de MacAllister, não diriam mais apenas:
— Cuidado com o rei.
Diriam:
— Cuidado com o rei… e com a rainha.