XXI

973 Palavras
A manhã seguinte amanheceu cinzenta, como se o próprio castelo soubesse que não seria um dia leve. O conselho reuniu-se cedo. Os homens mais velhos sentaram-se em seus lugares com expressões fechadas, alguns ainda irritados com os ecos do baile da noite anterior. Ewan ocupava o trono em silêncio, atento, imóvel como uma lâmina embainhada. Rowena estava à sua direita. Sem coroa. Sem ornamentos excessivos. Apenas postura. — Majestade — começou Seumas, com a voz dura — a atitude de Lady Rowena ontem foi… imprudente. — Curvar-se a camponeses — disse outro — enfraquece a autoridade da coroa. — O povo pode interpretar como igualdade — acrescentou Duncan. — E igualdade gera questionamentos. Rowena ouviu sem reagir. Não cruzou os braços. Não desviou o olhar. Esperou. Quando o murmúrio cessou, ela virou-se levemente para Ewan. — Majestade — disse, calma — peço a palavra, por favor. Ewan respondeu sem hesitar: — Fale. Rowena deu um passo à frente. — Senhores do conselho… — começou — se curvar diante do povo enfraquece um rei, então este reino já estava fraco antes de mim. Um murmúrio ofendido percorreu a mesa. Ela continuou, imperturbável: — Ontem, o povo não viu uma mulher ajoelhando-se.Viu a coroa reconhecendo quem a sustenta. — A autoridade não vem da distância — disse, caminhando lentamente — mas da confiança. Seumas tentou intervir, mas ela ergueu a mão. — Permita-me terminar. — disse, sem elevar a voz. Ele se calou. — Os camponeses não pedem igualdade. — Rowena prosseguiu. — Pedem previsibilidade. Justiça. Um reino que não mude de humor como vento. Ela olhou para cada conselheiro. — Um povo respeitado não se rebela.Um povo ignorado… planeja. Silêncio. — Ontem — disse ela — eu não baixei a coroa. Eu a fixei. Duncan engoliu em seco. — Os clãs viram uma rainha que conhece a terra. — Os guerreiros viram alguém que não teme estar à vista. — Os nobres viram que este reinado não será conduzido apenas por sangue antigo. Ela deu um meio sorriso frio. — Se isso os preocupa… então talvez o problema não esteja no gesto. Ninguém respondeu de imediato. O som do vento contra as janelas preencheu o salão. Por fim, Seumas pigarreou. — Suas palavras são… afiadas. — Governar exige lâminas bem cuidadas. — respondeu ela. O conselho ficou em silêncio. Não derrotado. Mas desarmado. Ewan não interveio. Não precisou. Quando finalmente falou, sua voz foi baixa e definitiva: — A rainha falou por mim. Os conselheiros baixaram o olhar. Rowena voltou ao lugar ao lado do trono, serena. E naquele momento, todos entenderam algo que não estava nos registros oficiais: O rei não havia escolhido apenas uma rainha. Havia escolhido uma aliada capaz de enfrentar o conselho… e vencê-lo. Fria. Inteligente. E tão implacável quanto o próprio Lobo. O anúncio do casamento não foi envolto em mistério. Assim como tudo no reinado de Ewan MacAllister, foi direto, público e impossível de ignorar. Editais foram pregados em cada vila, cada cruzamento de estrada, cada porto: O rei tomará esposa. O reino é convidado. A mulher escolhida será coroada no mesmo dia. Não havia promessa de conto de fadas. Havia declaração de poder. O dia. O céu das Terras Altas amanheceu claro, cortado por nuvens altas e vento firme um dia que parecia feito de pedra e aço. O pátio interno do castelo foi aberto ao povo. Arquibancadas simples misturavam camponeses, guerreiros, clãs e nobres. Não havia separações rígidas. Apenas espaço suficiente para todos verem. Ewan surgiu primeiro. Vestia manto escuro, bordado com o lobo prateado. A coroa repousava em sua cabeça sem cerimônia exagerada. Não havia sorrisos. Apenas presença. O reino silenciou. Então, os sinos tocaram novamente. As portas se abriram. Rowena caminhou sozinha pelo corredor de pedra. O vestido não era frágil nem excessivamente delicado. Tecidos pesados, nobres, corte firme. Prata e verde profundo. Uma longa capa arrastava-se atrás dela como sombra controlada. Não havia véu. Ela não vinha escondida. Cada passo era seguro. Cada olhar, consciente. Quando alcançou o centro, não olhou para o rei primeiro. Olhou para o povo. E fez uma reverência lenta, inteira. O sacerdote falou palavras antigas, curtas e sólidas, como as tradições das Terras Altas. — Não se unem por fantasia. — Não se unem por conforto. — Unem-se para sustentar um reino. Ewan estendeu a mão. Rowena colocou a sua. Não houve promessas sussurradas. Houve votos claros: — Ficar quando for difícil. — Decidir quando for necessário. — Não trair o reino por fraqueza. As alianças foram trocadas. O povo respondeu com aplausos firmes, ecoando pelas muralhas. Mas o momento ainda não havia terminado. O sacerdote ergueu a coroa de Rowena. Silêncio absoluto. — Rowena de Glenarraidh — proclamou — pelo direito concedido por este reino e pela vontade de seu rei… Ele fez uma pausa. — Eu a coroo Rainha das Terras Altas. A coroa tocou sua cabeça. Pesada. Definitiva. Rowena endireitou-se. — Vossa Majestade — ecoou o povo, primeiro tímido, depois forte, uníssono. Ewan aproximou-se. Ficaram lado a lado. Duas coroas. Nenhuma acima da outra. Os clãs ergueram seus estandartes. Os guerreiros bateram as mãos nos escudos. Os camponeses ajoelharam-se não por medo, mas por reconhecimento. Ali não estava uma rainha consorte. Estava uma soberana. Rowena ergueu a voz pela primeira vez como rainha: — Enquanto eu usar esta coroa… — disse — este reino terá chão firme e voz ouvida. Ewan completou, sem olhar para ela: — E terá proteção. O vento soprou forte, fazendo os estandartes se moverem como se o próprio reino respirasse. Naquele dia, ficou gravado na memória das Terras Altas: O Lobo não dividiu o trono. Ele compartilhou o fardo. E, a partir daquele momento, quando os reinos estrangeiros falassem de MacAllister, não diriam mais apenas: — Cuidado com o rei. Diriam: — Cuidado com o rei… e com a rainha.
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