O baile continuou sem eles.
Música, risos e passos ecoavam pelo castelo enquanto Ewan e Rowena deixavam o grande salão por uma passagem lateral, longe dos olhares curiosos. Não houve despedidas formais. O reino já tinha visto o suficiente.
Os corredores eram mais silenciosos ali.
Quando a porta dos aposentos reais se abriu, Rowena entrou primeiro.
E parou.
Por um instante, achou que havia entrado não em um quarto…
mas em um arsenal.
Espadas de diferentes tamanhos repousavam apoiadas nas paredes. Escudos marcados por golpes antigos estavam pendurados como troféus silenciosos. Lanças, machadinhas, adagas algumas simples, outras claramente forjadas para reis ocupavam suportes, mesas e até um canto próximo à janela.
Não havia luxo excessivo.
Havia história.
Rowena deu alguns passos, observando cada peça com atenção quase reverente.
— Então… — disse, por fim — este é o verdadeiro retrato do rei.
Ewan fechou a porta atrás deles.
— São ferramentas. — respondeu. — Algumas me salvaram. Outras falharam.
Ela tocou levemente o punho de uma espada antiga, a lâmina marcada por batalhas profundos.
— E nenhuma foi retirada daqui.
— Não durmo bem longe delas. — disse ele, sem constrangimento.
Rowena virou-se devagar.
— Agora este quarto também é meu.
Não era uma pergunta.
Ewan assentiu.
— Se quiser, posso mandar remover—
— Não. — interrompeu ela. — Não as tire.
Ela caminhou até uma mesa onde descansavam duas espadas cruzadas.
— Um rei que esconde suas armas… — disse — mente sobre quem é.
Ela ergueu o olhar para ele.
— E eu não casei com uma mentira.
Houve um silêncio curto.
Não tenso.
Ajustado.
Ewan observou-a com atenção renovada.
— A maioria esperaria tapeçarias, perfumes… — comentou.
— Eu esperava verdade. — respondeu Rowena. — E ela está por toda parte aqui.
Ela respirou fundo, sentindo o cheiro de couro, metal e madeira antiga.
— Este quarto fala de batalhas vencidas… — disse — mas também de alguém que nunca se permitiu descansar.
Ewan não respondeu de imediato.
— Agora — ela continuou — não precisas mais vigiar sozinho.
Ele a encarou por alguns segundos.
— Não prometo suavizar. — disse.
— Nem eu. — respondeu ela.
Rowena retirou o manto com calma e o colocou sobre uma cadeira próxima a um escudo antigo.
— Precisaremos reorganizar. — comentou, avaliando o espaço. — Algumas armas ficarão onde estão. Outras… precisam de lugar melhor.
Ewan arqueou levemente a sobrancelha.
— Já estás planejando?
— Sou tua rainha agora. — disse ela, simples. — Planejar faz parte.
Um silêncio se instalou novamente.
Mas, dessa vez, havia algo diferente nele.
Não distância.
Mas fundação.
O Lobo ainda dormia entre armas.
Só que, naquela noite, pela primeira vez…
ele não estava mais sozinho entre elas.
A noite avançava silenciosa sobre o castelo.
As tochas nos corredores haviam sido apagadas uma a uma, e apenas o vento das Terras Altas sussurrava contra as janelas espessas dos aposentos reais. O quarto, iluminado agora por uma única vela baixa, parecia menos um arsenal e mais um refúgio cansado.
Rowena observou a cama.
Grande.
Sólida.
Feita para reis não para intimidades forçadas.
Sem dizer palavra, começou a soltar os grampos do cabelo, deixando que os fios caíssem livres sobre os ombros. Seus gestos eram calmos, contidos. Não havia nervosismo teatral. Apenas atenção.
Ewan retirou o manto e o colocou cuidadosamente sobre o espaldar de uma cadeira. A espada permaneceu ao alcance da mão, como sempre.
Eles trocaram um olhar breve.
Não havia expectativa no ar.
Nem cobrança.
Nem curiosidade imprudente.
Apenas respeito.
Rowena foi a primeira a se deitar, ocupando um dos lados da cama. Ajustou as cobertas com cuidado, mantendo a postura ereta por alguns segundos antes de finalmente relaxar.
Ewan apagou a vela.
A escuridão envolveu o quarto, densa e tranquila.
Ele deitou-se do outro lado, mantendo distância suficiente para que nenhum dos dois sentisse invasão. As costas de ambos ficaram voltadas uma para a outra, como dois sentinelas compartilhando a mesma vigília.
O silêncio que se seguiu não era desconfortável.
Era escolhido.
Rowena fechou os olhos, sentindo pela primeira vez o peso real da coroa não como ornamento, mas como responsabilidade que não se retirava ao fim do dia.
Não será fácil, pensou.
Mas será firme.
Do outro lado, Ewan permaneceu imóvel por alguns instantes antes de permitir que o corpo relaxasse. Acostumado a dormir pronto para acordar em guerra, percebeu algo incomum naquela noite:
O quarto estava guardado.
Não por paredes.
Mas por presença.
Sem se virar, disse em voz baixa:
— Descansa.
Rowena respondeu, igualmente baixa:
— Tu também.
Não houve mais palavras.
O Lobo e a Rainha dormiram de costas um para o outro, cada um carregando suas armas invisíveis, suas estratégias, seus medos silenciosos.
Mas, naquela noite, dividiram algo raro:
O mesmo espaço.
O mesmo fardo.
E um respeito que não precisava ser provado no escuro.
E assim começou o casamento deles.
Não com promessas sussurradas…
mas com confiança silenciosa.