A volta do restaurante foi silenciosa.
Não um silêncio desconfortável —
mas um silêncio carregado.
O reflexo azul do oceano ainda parecia grudado na pele de Elisa. O vestido vermelho contrastava com a noite, com os cabelos ruivos soltos, com o batom ainda intacto nos lábios que Elijah não conseguia parar de olhar.
Quando chegaram ao bangalô, ela parou na porta da varanda.
O mar estava escuro agora, pontilhado por luzes distantes.
— Hoje foi… diferente — ela disse, de costas pra ele.
— Foi — Elijah respondeu.
Ele se aproximou devagar. Não tocou. Ainda.
— Depois do beijo na praia — ela continuou — eu achei que a gente ia fingir que nada aconteceu.
— Eu tentei — ele admitiu.
Ela virou-se.
Ficaram frente a frente, tão perto que dava pra sentir a respiração um do outro. O vestido dela roçou na perna dele. O cheiro dela era quente, familiar demais para alguém que ele conhecia há tão pouco tempo.
— Você está me olhando de novo — ela disse, a voz baixa.
— Porque agora é impossível não olhar — ele respondeu.
Elisa engoliu em seco.
— Se a gente continuar… — ela começou.
— Eu sei — ele interrompeu. — Mas dessa vez, só se você quiser.
Ela não respondeu com palavras.
Apenas se aproximou.
O beijo veio mais intenso, mais firme, menos cauteloso. Não havia pressa, mas havia vontade. Elijah segurou a cintura dela com força suficiente para mostrar desejo, não posse. Elisa levou as mãos até o pescoço dele, sentindo a pele quente, os músculos tensos sob os dedos.
O mundo pareceu diminuir.
O beijo aprofundou — lento, seguro, consciente. Nada descontrolado. Mas real demais para ser ignorado.
Quando se afastaram, os dois estavam sem fôlego.
As testas encostadas.
As mãos ainda presas uma à outra.
— Isso… — Elisa murmurou — já não é só curiosidade.
— Não — ele concordou. — É escolha.
Ela fechou os olhos por um instante.
— Eu tenho medo.
— Eu também — ele disse. — Mas não de você.
Ele beijou a testa dela. Depois a ponta do nariz. Um gesto pequeno, quase íntimo demais.
— A gente vai no seu tempo — ele continuou. — Sempre.
Ela abriu os olhos, emocionada.
— Você não faz ideia do que isso significa pra mim.
— Eu faço — ele respondeu. — Porque significa o mesmo pra mim.
Ele a abraçou. Forte. Protetor. Sem segundas intenções naquele momento.
Elijah abriu a porta da varanda. O vento entrou suave, trazendo o cheiro do mar. À frente deles, a imensidão escura do oceano se misturava ao céu estrelado. Luzes distantes marcavam outras ilhas — pontos pequenos, quase irreais.
— Olha… — Elisa disse baixo.
Eles ficaram lado a lado, apoiados no parapeito, observando tudo em silêncio. O mundo parecia longe. O país deles, as famílias, os contratos… tudo parecia pertencer a outra vida.
— Daqui — ela continuou — parece que nada pode nos alcançar.
Elijah cruzou os braços, respirando fundo.
— É por isso que eu gosto de lugares assim — disse. — Eles lembram que o mundo é maior do que as pessoas que tentam nos controlar.
Ela virou o rosto para ele.
— Você também se sente preso lá fora, né?
Ele assentiu.
— A diferença é que eu sempre tive escolha… e você não.
O silêncio voltou, pesado e verdadeiro.
Elisa apoiou a cabeça no ombro dele. Não pediu permissão. Ele não recuou. Apenas ficou ali, firme, oferecendo presença.
— Quando eu olho pra tudo isso — ela murmurou — eu penso em quem eu poderia ter sido.
— Você ainda pode ser — ele respondeu. — Nada do que te fizeram apaga isso.
Ela fechou os olhos.
Ficaram assim por longos minutos, apenas observando o mar, sentindo o vento, dividindo o silêncio como quem divide algo sagrado.
Nenhum beijo.
Nenhum toque a mais.
Só dois corpos próximos, olhando o mundo de longe, como se estivessem — pela primeira vez — do mesmo lado.
E ali, naquela varanda suspensa entre o céu e o mar, eles entenderam algo simples e poderoso:
Talvez não pudessem mudar tudo ainda.
Mas podiam escolher como atravessar aquilo.
Juntos.