o acordo

395 Palavras
Ela descobriu que ia se casar da pior forma possível: sentada à mesa, com o café esfriando, enquanto dois homens decidiam o futuro dela como se falassem de gado. — Está decidido — disse o pai dela, seco. — O casamento acontece em três semanas. Ela levantou o rosto devagar. — O quê? Ninguém respondeu de imediato. O silêncio pesou mais que qualquer grito. Então o pai continuou: — É um contrato. Entre a nossa família e a família Damário. O nome caiu como uma sentença. Ela conhecia os Damário. Todo mundo conhecia. Ricos. Frios. Intocáveis. E o herdeiro… conhecido não pelo charme, mas pela fama de ser difícil de olhar e impossível de amar. — Eu não vou casar com um estranho — ela disse, a voz firme, apesar das mãos trêmulas. O pai riu sem humor. — Você não está em posição de escolher. — Isso é venda — ela retrucou. — Não casamento. O pai se inclinou sobre a mesa. — Isso é sobrevivência. Eles pagam nossas dívidas. Garantem segurança. E você garante o acordo. Ela sentiu o estômago revirar. — E o que ele ganha? — perguntou. — Uma esposa. Um nome limpo. Aparência de família perfeita. Ela entendeu naquele instante: não era desejada. Era necessária. --- Enquanto isso, na casa Damário… — Não — ele disse, sem levantar os olhos dos papéis. — Eu não vou casar. O pai dele fechou a pasta com força. — Você vai. — Eu não pedi isso. — Você precisa disso. Ele respirou fundo. Já estava acostumado a ouvir que precisava de tudo: dinheiro, poder, alianças… menos amor. — Ela sabe quem eu sou? — perguntou, finalmente. — Sabe o suficiente. Ele riu, amargo. — Então ela vai me odiar. — Ótimo — respondeu o pai. — Ódio também mantém um casamento em pé. O primeiro encontro Eles se viram pela primeira vez em uma sala luxuosa, fria demais para parecer humana. Ela entrou de cabeça erguida, mesmo com o medo queimando no peito. Ele se levantou, alto, sério, o rosto marcado por uma rigidez que não combinava com ternura nenhuma. Os olhos deles se encontraram por um segundo. Foi o suficiente. Nenhum sorriso. Nenhuma gentileza. — Então é você — ela disse. — Então é você — ele respondeu. E ali, sem amor, sem promessa e sem escolha, o casamento já tinha começado.
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