Capítulo 8 – Filho da maldição.

2005 Palavras
Em Obrehim...  - Saiam. – Gritou novamente o grutatos. Flames e Adril colocaram a mão sobre a boca e correram de perto da cobra tropeçando em paus e pedras no caminho.    - O que foi isso? – Flames perguntou ainda recuperando o folego.  - Semente venenosa. – Galundar respondeu. – Existe uma árvore que lança algumas sementes no chão, quando um animal desprevenido pisa em cima a semente solta um gás que mata o animal sufocado instantaneamente, então a semente germina e cresce se alimentando do cadáver do animal. - Uma história bem macabra, mas naquele ponto nada mais era surpreendente para Flames, na verdade foi um alivio que uma arma natural como aquela tivesse salvado a vida dele.   Leonardo levantou-se e limpou suas roupas, estava com uma expressão fechada e agia como se nada tivesse acontecido, era um sujeito bastante excêntrico.   Dubor correu até Jamors para verificar seus ferimentos o mais rápido possível, Flames se aproximou e percebeu que ele estava em um grave estado, não tinha feridas expostas, mas tinha um enorme hematoma nas costas e havia batido forte com a cabeça.  - Ele precisa de um curandeiro. – Dubor falou. - Se ele ficar aqui ele não vai resistir.    - Então volte com ele e peça ajuda a Filiardo, ele saberá o que fazer, provavelmente transportará vocês para a cidadela. – Flames falou. – Você decorou o caminho até aqui, não foi? – Normalmente Flames não perguntaria isso a outra pessoa, pois eles haviam andado tanto naquela floresta sem luz que ele duvidava até que Galundar sabia o caminho de volta, mas Dubor sempre foi bom com mapas e estradas.    - Decorei. – Ele respondeu com certeza.    - Então confio a você a vida do nosso companheiro. – Flames falou para ele. – Tome cuidado no caminho de volta.     Dubor prendeu bem sua espada e seu punhal na cintura acenou com a cabeça, entendia a gravidade da situação, perder um soldado era r**m, mas perder um amigo era muito pior. Ele levantou-se e pendurou Jamors sobre seus ombros sumindo no breu da mata.   Aquela luta foi um choque para todos, ninguém estava prevenido, Flames se aproximou do cadáver da cobrar para admirá-lo, mesmo sem vida aquela b***a parecia ameaçadora, com escamas tão grossas que pareciam aço, o que tornava ainda mais assustador o fato de Leonardo tê-las penetrado com os dentes. Galundar pulou sobre o rosto ensanguentado da cobra e sacou das peles trapeadas que ele usava como roupa uma faca feita com um osso afiado e começou a cortar em volta dos olhos da cobra.    - O que está fazendo? – Flames perguntou.   O Grutatos puxou os olhos da cobra do seu rosto e os ergueu em direção a Flames e o outros que ficaram paralisados, fixados naqueles globos oculares como se eles fossem a única coisa que havia no mundo. O calafrio, o vazio existencial e o desespero eram similares a sensação de estar encarando a própria cobra. – Essas belezinhas valem ouro. – O grutatos falou guardando os olhos dentro de algumas peles, exibia um sorriso um pouco assustador como se planejasse um crime, todavia ele havia sido corajoso ao voltar para ajudar a derrotá-la, então ele merecia aquele troféu.    - Para onde vamos agora? – Flames perguntou novamente.     Galundar subiu na cabeça da cobra e deu uma olhada para a floresta em volta, para Flames todos os lados pareciam iguais, apenas plantas estranhas e escuridão.    - Para lá. – Galundar apontou o Norte. – Em pouco tempo estaremos na cidadela onde os Árcravos vivem.    - Então vamos nos apressar. – Todos recolheram suas coisas e começaram a caminhar floresta adentro seguindo o Grutatos.   Leonardo caminhava calado, havia um clima estranho quando o assunto era ele, a magia que ele usou era sombria demais e não precisava da sensibilidade mágica de Flames para perceber isso.  - Então, que tipo de coisa foi aquela que você usou, você tem propriedades magicas, não é? – Galundar perguntou para Leonardo como se não tivesse noção da situação.  - Tenho sim, fui amaldiçoado, na verdade foi ancestral, mas agora é hereditário. – Leonardo respondeu na maior tranquilidade do mundo. Todos ficaram em silêncio e não falaram nada, ter uma maldição ou ter ligação com alguém que pratica bruxaria era visto como algo hediondo, imperdoável, mesmo se você fosse a vítima de uma maldição todos o evitariam na melhor das situações.  - Ah, entendi, então qual o lado r**m da sua maldição? – O grutatos perguntou novamente, realmente ele não tinha ideia da delicadeza do assunto.  - Eu não sei, mas quanto mais eu me transformo mais intenso fica o meu poder, as vezes temo não poder controlá-lo. – Leonardo respondeu, para ele também não parecia ser um problema tocar nesse assunto, mas para o resto do grupo era melhor ele ficar calado, isso não era coisa de se falar em voz alta. Flames se questionou sobre o que Miguel queria ao mandar aquele cara com ele para uma missão tão crucial.  - Parece ser bom então, não deveria ser chamado de maldição. – Lies falou, entre todos ele era o mais séptico, costumava desacreditar de boatos e ideias exageradas, com sua frieza característica ele era o mais apto a ser tolerante no grupo. Talvez todos os boatos fossem mesmo conversa fiada, Flames mesmo havia sido tratado como aberração por toda sua infância, no geral tudo que a maioria quer é jugar um diferente.  - Não é tão bom assim, as vezes eu queria não ter esses poderes, sei me virar muito bem apenas com uma arma, mas graças a essa maldição eu tive que fugir de três reinos diferentes, sempre estão querendo me m***r. – Leonardo respondeu.  - Quem está querendo te m***r? – Flames perguntou.  - Existe um grupo de assassinos independentes, eles costumam caçar bruxos perigosos, mas também matam as vítimas das maldições como eu. – Ele respondeu. – Mas desde que Miguel me achou eu estou seguro, não acho que vão me achar novamente.  - Sua vida deve ser uma aventura. – Adril comentou.    - Verdade, não lembro de um momento na minha vida onde eu não estivesse fugindo de alguém... – Ele falou. – Ou caçando...   Enquanto caminhavam perceberam que a vegetação da floresta mudou, de arbustos espinhosos e árvores retorcidas em um terreno rochoso eles entraram em uma floresta de árvores altas, com árvores afastadas por alguns metros de distância e um solo arenoso, a areia era tão fina que caminhar se tornou uma tarefa ainda mais desgastante.  - Essa é a floresta das almas, dizem que aqui descansam os espíritos mais velhos. – Galundar falou. De fato, aquela floresta tinha um clima meio fantasmagórico, ainda mais silenciosa e escura que as outras, o silêncio parecia esmagador, causando um sensação de vazio e solidão sufocante. Flames olhou para trás para conferir se seus companheiros ainda o seguiam, ele sabia que sim, mas de toda forma queria confirmar para afastar aquela sensação de solidão, ele não conseguia ver mais que duas pessoas atrás deles, as outras haviam sigo engolidas pela escuridão profunda, a única coisa que confirmava suas presenças era o som abafado dos seus passos na areia.   De repente falar não parecia mais ser uma boa opção, havia um sentimento na cabeça de Flames que dizia que algo vagava naquela escuridão e que o som o atrairia.  - Vai demorar para cruzarmos essa floresta? – Flames sussurrou para Galundar o mais baixo que podia, mas o silêncio naquele lugar era tanto que todos ouviram.  - Não falta muito, essa é a menor floresta que tem por aqui, mas a dificuldade para caminhar e o fato de não se ver quase nada dá a impressão que ela é muito maior, é só continuarmos indo reto. – O baixinho falou.  Flames deixou que o silêncio tomasse vez novamente, seu extinto de autodefesa o pedia para segurar o cabo de sua espada, pois parecia que a qualquer momento algo avançaria da escuridão em sua direção, em um lugar tão imprevisível todo cuidado do mundo não parece ser suficiente.   O clima sombrio daquele lugar tornava-se perfeito para reflexões macabras, de repente todas as lendas que eu já havia ouvido durante sua vida se passaram em sua mente, ele tentava disfarçar o medo que sentia, mas parecia que o medo era parte daquele lugar, não havia como fugir dele.   Flames ouviu um baque abafado na areia e olhou para trás para ver se estavam todos bem, mas para sua infelicidade não havia ninguém o seguindo, apenas a escuridão o cercava.  - Gente? – Ele falou tentando fazer com que sua voz não ecoasse para muito longe, a falta de resposta fez que seu medo evoluísse para desespero. – Porã? Galundar? Adril? – Novamente sem resposta, não havia o que fazer, ele sacou sua espada e deu meia volta tentando encontrar seus companheiros novamente. Uma batida oca no tronco de uma árvore foi ouvida, um som muito suave, todavia naquele silêncio esmagador o mínimo som ecoava por metros. Flames virou-se segurando sua espada tentando encontrar de onde vinha o som, naquele momento de desespero ele pensou em acender suas chamas, mas caso existissem mesmo inimigos por ali ele estaria apenas revelando sua localização.   Ele ouviu passo na areia em sua volta, parecia ser mais de uma pessoa.    - Hayron? – Ele perguntou, mas ninguém respondia, até que ele viu um vulto passar bem a sua frente, não dava para notar o que era, mas ele percebeu que não era nenhum de seus homens, o vulto tinha cerca de um metro e meio e o menor de seus homens tinha no mínimo um e setenta e galundar era muito pequeno para àquela altura, com certeza era uma das coisas que capturaram seus homens.  - m***a. – Flames murmurou para si mesmo, ele percebeu que estava cercado e quase impotente naquele escuro, não havia mais tempo para pensar, ele iria disparar uma labareda no primeiro vulto que visse novamente.  Antes de terminar de pensar ele notou algo se aproximando na escuridão e lançou uma rajada de fogo que fez um brilho tão grande na escuridão que até os olhos de Flames doeram, mas ele conseguiu perceber cerca de seis pequenas pessoas o cercando, todos cobriram os olhos atingidos pela luz, eram ágeis, o que recebeu a rajada de fogo foi rapido o suficiente para se esquivar por pouco, mas acabou caindo no chão e Flames correu e subiu em cima dele agarrando seu pescoço, seus olhos ainda não tinham se acostumado novamente com a escuridão então ele não pode ver claramente o que era aquilo que ele havia capturado, mas parecia frágil como uma criança.  - O que são vocês? Onde estão meus companheiros? – Flames perguntou.  - Antes que a criatura tomasse folego para responder Flames notou que os outros haviam os cercado e quando ele levantou a cabeça para olhar um deles soprou um ** verde brilhante em sua direção, Flames tentou não respirar aquilo, mas já era tarde, suas forças foram embora do seu corpo e o simples ato de manter os olhos abertos parecia a maior de suas lutas, uma luta que ele não venceu. Continua... “Lies nunca conheceu seu pai e sua mãe morreu vítima de uma doença quando ele tinha nove anos, após isso ele passou a viver em um igreja que sua mãe costumava frequentar, com dezesseis anos ele decepcionou-se com sua fé e saiu de Obrehim para levar a vida como ladrão de estrada, participou de diversas gangues onde aprendeu vários truques sujos, com sua rotina agitada ele acabou sendo capturado em uma emboscada feita por Kandaram, para sua sorte Obrehim cercou os soldados de Kandaram antes que eles voltassem para o reino. Lies acabou sendo liberto e voltou para Obrehim dedicando-se novamente a sua fé. Com uma enorme energia em seu coração ele sabia que não conseguiria viver a vida de um homem comum então entrou para o exército de Obrehim para que pudesse fazer bom uso de suas habilidades da maneira mais nobre possível.”
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